POETA DA SEMANA: Nelson Patriota

DestaquePoetas e Poesias

Quando o jogo inverte acontece isso que o leitor irá ver abaixo: o crítico a expor o seu trabalho ao leitor. É como se o jornalista fosse a manchete do jornal. Dessa vez temos um dos raros críticos literários do Rio Grande do Norte com uma pequena mostra da sua poesia, reunida no ‘Livro das odes’, lançado pela Sol Negro, em 2013, e no novo livro intitulado ‘Poemas e Vaticínios’. Muito embora o jornalista Nelson Patriota tenha mais o costume dos contos e artigos, ou como tradutor de livros em inglês, francês e, algumas poucas vezes, em espanhol. Passou pelos principais jornais do Estado, desde 1980 pra cá, seja como repórter, editor ou colunista, inclusive responsável pelo jornal O Galo, entre 1996 e 2001. Entre suas obras de destaque estão Antologia Poética de tradutores Norte-rio-grandenses, lançada em 2008 pela Editora da UFRN, e Colóquio com um Leitor Kafkiano, que reúne diferentes momentos literários do autor. Se não um poeta de ofício, um poeta. E nosso POETA DA SEMANA:

PRECE SEM SÚPLICA

Tenho ouvido dizer, Senhor,
Que atendes com presteza as súplicas daqueles
Que te rogam com um coração puro.
Hesito, portanto, em te suplicar seja o que for,
Haja vista que meu coração, pobremente humano,
Está enfronhado em erros que me levam a descrer
De mim e do próximo
Pois, não poucas vezes,
Tenho sido compelido a escolher
Entre opostos em que ambos os lados amiúde têm
Qualidades e defeitos equivalentes, a meu ver,
E, escolhendo um, sei que, no fundo do coração,
Procedo de modo Injusto com aquele outro,
Também merecedor de minha simpatia e compreensão.
Por isso me pergunto a quantos atendes
Do alto do teu secreto refúgio
Sem jamais incorreres no erro em que amiúde incorro
Por não poder furtar-me à convivência com o meu semelhante.
Por vezes, tendo a ignorar o fato fundamental a teu respeito:
Que és único, primordial, embora possas te multiplicar
Em dois ou três, mas por breves períodos. Sendo tu tão poucos,
E de fato uno, como te haverias de solidarizar ou condescender
Com os pequenos erros de um teu semelhante que, ademais, não há?
Nesse caso, saberias (e já o sabes) quão facilmente
Isso leva a erros maiores ante os quais a razão humana
Titubeia em condenar, consciente que é de sua falibilidade;
Saberias ainda (e sabidamente já és senhor desse saber)
Que isso logo acaba por levar à injustiça do erro
Para o qual também não temos a justa medida,
E é fácil ver quão rapidamente recaímos em círculos viciosos
Que findam por minar nossa confiança no mundo da vida.
Talvez o que nos salve da catástrofe iminente
Seja menos que nada, ou um tantinho só de placidez
Enquanto crescem ao fio dos dias rumores de apocalipses
E prenúncios da hecatombe contra a qual não dispomos
Sequer do benefício da dúvida
Unânimes que estamos em torno de uma cabal escatologia,
No fundo, fruto do acúmulo dos nossos remorsos.
Sim, deve existir lugares onde homens de coração puro
Elevam suas orações a ti e são prontamente atendidos.
Seria, quiçá, nos mosteiros, nos conventos, nos templos/trincheiras
Das religiões dos profetas, na cabana solitária e erma do eremita,
Nas igrejas suntuosas, numa capela esquecida na selva?
Sim, existem razões a favor do ceticismo que comungamos,
Hoje, em meio a tua luxuriante e ininteligível criação.
Sendo o mundo tão vasto e o inesperado tão recorrente,
Quem sabe, preparas um novo tempo, pois não é razoável
(e aqui contemporizo com teus caprichos:
És tão pouco razoável quanto o podes ser) que,
Dispondo de tantas possibilidades, não te venham a cansar
As falibilidades dos deserdados do Éden, nem que não te apresses
Em testá-las, ainda que por mero capricho, curiosidade ou de caso bem pensado.
Nunca é tarde, enfim, mesmo para ti,
Que dispões de toda a eternidade para decidires se moves ou não
O vento a favor da pequena nau que singra uma correnteza contrária,
Ou se é chegada a hora de reparares
Aquilo que há séculos espera por essa ação
Que só a ti está reservada:
Compartir com cada ente humano sobras da tua eternidade,
Ou, com um único sopro, varrer para o tártaro
(de onde jamais alguém retorna)
A criação feita à tua imagem na qual, já o sabemos,
Não te reconheces mais.

(do livro “Poemas e vaticínios”, a sair).

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ODE AO POEMA FERIDO

Pássaro ferido em pleno voo
O poema se deixa abater
Sob a janela que dá para o meu gabinete.
Vejo-o agônico, quase desfalecido,
Tombar sobre o assoalho.
Lentamente, tomo-o nas mãos, atento a seus gemidos,
a fim de pensar-lhe as feridas.
“É grave seu estado”, digo para mim mesmo,
Ciente de que, em tal caso, o mais provável é que não me escute.
Mas ao deitá-lo sob uma improvisada cama de papéis
Especialmente espessos e macios
que reservo para copiar as poesias de Laura,
O poema reage e esboça um leve sorriso,
Resultante do alívio momentâneo
que lhe proporciona minha canhestra terapia.
Dar-se-á conta o poema de que se encontra em meu gabinete?”, pergunto-me,
Animado pela visível mudança de ânimo que testemunho.
Esta poderia ser uma pergunta ociosa,
Mas seguramente não o é neste momento
Em que tantos poemas se desfiguram sob a óptica das predicações difusas
Que o mais das vezes os desencaminham.
“São tempos maus para os poemas”, filosofo, num suspiro,
Sem estar bem certo do alcance das palavras da afirmação que faço.
Refiro-me provavelmente
(Ainda não me questionei profundamente sobre isso)
Aos tempos que correm
(Não necessariamente no sentido que correr costuma sugerir).
O poema da amizade, por exemplo,
Sofre amargamente nestes tempos.
Vê-se um, veem-se todos: sofredores,
Dilacerados por exigências e pressões,
Medos e pressentimentos maus.
Há, mesmo, pressentimentos assustadores,
E não são tão incomuns como se costuma pensar.
Mas veja-se o poema da justiça.
É dos espetáculos mais tristes que acontecem
Ante os nossos olhos – sua via crucis, diária,
Irremediavelmente recorrente,
Não cessa de nos comover. E a razão é sempre a mesma:
a impossível missão que lhe cabe cumprir.
Nada lhe resta da beleza dos tempos áureos,
Quando a um sorriso seu um mundo inteiro respirava
Aliviado
Desagravado de penas,
Justificado de dores, não importando quais.
Voltem-se, porém, os olhares para o poema da beleza.
Ah, pobre poema da beleza!
Há tempos que executa o mesmo modelo,
Seja no barro, seja na cerâmica, seja mesmo em matérias nobres.
Se protestamos (poucos o fazem efetivamente)
Contra o servilismo dos seus conceitos,
Ou o simplismo das suas realizações,
Ou ainda contra a repetitiva monotonia das suas formas,
A indigência das suas inovações,
Dissuadem-nos seu ar de ofendido,
seu esgar de incompreendido,
O espanto com que sua autoestima sabe reagir
À menor censura.
Sábio é aquele que o deixa entregue a si próprio…
Não é menos preocupante o que sucede ao poema da esperança.
E quando considero quanto importa para todos o poema da esperança
Dá-me calafrios deparar com ele, porque é todo lamentos.
Queixa-se de incompreensões,
Argui desculpas,
Tenta reparar mal-entendidos,
Reitera possibilidades dadas por perdidas,
Mas não exibe nem sombra do viço juvenil que lhe granjeou fama no passado
Consagrando-o como o mais confiável dos poemas
Entre todas as gerações de humanos.
Conta-se que num raro momento de repúdio
Ao assédio de antigos áulicos
Teria replicado a seus críticos com o seguinte argumento:
“Sou a única esperança compatível com um mundo envelhecido”.
De todo modo,
O poema da esperança é visto quase sempre só
Pois, quem se interessaria por promessas que nunca se cumprem
Ou são logo desmentidas pelos acontecimentos?
Ah, sim! Os poemas do vício são hoje seus únicos companheiros.
“Quando a esperança condescende com o vício,
Um não se distingue do outro”,
Diz-se amiúde hoje em dia.
Eu concordaria com isso em outra circunstância,
Mas não hoje, porque tenho um poema jovem, ainda por cima indiferenciado,
Sobre a minha escrivaninha,
E vejo nesse poema (ele já me sorri!)
Uma promessa real de vida
Inesgotável e franca como o ouro do sol.

(do “Livro das odes”, Sol Negro, 2013) 

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ELEGIA PARA PEDRO

Pedro Vicente Costa Sobrinho, in memoriam

Agora estás completo
Porque já não te alcança mais qualquer palavra
Que te enderecemos
Logo tu, que foste um homem loquaz
Por buscares a humanidade, nem sempre tangível,
Às vezes desejável,
Outras vezes até mesmo improvável,
De teu próximo
Isso explica porque o verbo essencial, o abracadabra redentor
Estava tão docilmente ao teu alcance
Não por outra razão, até nos casos extremos
Quando outros mais reputados aos olhos do mundo desistiam
A ti nunca ocorriam razões para não perseguir a improvável (aos nossos olhos) meta
Por isso, sempre vencias: era tua melhor arte
Arte, reiteremos, de raríssima grei
Pois uma geração inteira pode desconhecê-la
E nada lhe compensará esse cruel hiato
Somando o número de seres humanos penalizados
Por não a conhecer,
(Embora não o saibam claramente
Sentem-no pelo desconforto de ser objeto dessa carência não sabida).
Sim, dominaste a arte de ser
Foste para nós o solitário mestre dessa arte
De que desconhecíamos os mandamentos mais elementares
Os mais consabidos valores, os mais comezinhos princípios e
Especialmente
Seu segredo essencial: reconhecê-la em nós
Como um estigma de eleição, um signo, uma graça
Contigo foi fácil, finalmente, mesmo para pessoas desatentas como nós
Distinguir em certos gestos a palavra subentendida
E, por trás das palavras
A intenção inequívoca
Não é porque estejas agora imune às palavras
Que te perderás de nós. Se as compartimos tanto e com tamanho afinco
Como te furtarias a sua presença?
Entre certas palavras é inevitável que deparemos contigo.
Nada é mais certo que essa certeza.
Mesmo porque habitas agora um reino todo feito de palavras
Onde a sombra de ti próprio não pesa: sentes-te leve
Sabes-te capaz de levitar e essa ideia chega a te parecer hílare
E ririas ao depará-la não fosse mais forte o pudor de não ofenderes
Com isso
Algum semelhante
(Suspeitas que os haja no reino onde mal acabaste de ingressar
Embora desconheças ainda os códigos mais elementares de convivência
Que aí porventura existam).
De fato, agora só te oprime a certeza de quanto dói carregar tua própria humanidade
Essa condição à qual são raros os que lhe sabem renunciar de pronto, como o fizeste
E, no entanto, sempre pela mesma razão, um mesmo receio, sempre
Repousa, amigo
E que o peso do nosso indesculpável estar-no-mundo
Essa mácula de sobrevivermos a ti,
Tão minúsculos seres que revelamos ser,
Seja-te leve.

(do livro “Poemas e vaticínios”, a sair).

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UM DIA MÍOPE

Um poema tomou de assalto o meu dia
O dia era um mau dia
A hora era uma má hora
E a vontade era de bradar contra vento e maré
Não são tempos de poesia
Pensei com meus botões
E dei as costas ao poema trôpego
Daquele dia míope
De uma tarde que prefiro esquecer
Quando um poema tomou de assalto o meu dia.

(do livro “Poemas e vaticínios”, a sair).

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PRESSA

O poema tardio
A vida tardia
A noite que tarda
Tudo sugere que a vida segue lenta
Embora haja tanta pressa em nós
Uma furiosa pressa pelo que não pretendemos manter
Mas simplesmente visitar de passagem
Olhar até o fastio
Tocar furtivamente
Como uma estação de recreio
Um jardim público
Uma rua deserta
Um campo-santo
Onde repousam, sem pressa,
Os nossos mortos.

(do livro “Poemas e vaticínios”, a sair).

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ODE DA PULSÃO ESCRITÓRIA

Escrever-te é um ato subalterno: badalasse um sino distante
anunciando tua iminente vinda,
Vaticinasse o madrugador pássaro da manhã
que vinhas com a aurora,
Previsse tua chegada uma garrafa náufraga peregrina
em indistinto ou secreto manuscrito (mas que eu conheceria),
então não te escreveria. Se ora o faço, porém, penitencio-me
da indesculpável inércia em que me enreda
a pulsão escritória
numa teia de inextricáveis fios
que nada me contam de ti, mas fingem fazê-lo.
Escrevo-te para não perder o diálogo que entretenho contigo,
artifício com que espero desesperadamente
alimentar nossa comunhão laica,
embora cada palavra nossa pareça, em sua sacralidade,
portar bênçãos imensuráveis.
Escrevo-te, enfim, para renovar todos os motivos
que te trazem a mim, mas sem os quais
Poderias te dissipar como
Uma nuvem,
Um sopro,
Uma miragem que a caravana sequestra
do meu deserto particular
Onde só a aridez é certa.

(do “Livro das odes”, Sol Negro, 2013) 

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