Polemicas em torno de um prêmio preterido

22 de outubro de 2009 às 10:43 - Comentar
Por Nelson Patriota

A outorga dos prêmios Nobel feita anualmente pela Academia de Ciências de Estocolmo, na Suécia, já se tornou parte indissociável da nossa contemporaneidade. Não interessa tanto saber quem ganhou nessa ou naquela categoria, mas em principio que as comendas foram concedidas. É um fato que assinala a favor de uma ordem de normalidade de vida, num mundo em constante e crescente instabilidade.

Há quem veja com ironia a concessão do Nobel da Paz ao presidente Barak Obama, herdeiro de três guerras e mantenedor de duas delas – Paquistão e Afeganistão –, quando ainda não completou sequer um ano de governo. A academia sueca pode ter feito, porém, uma aposta preventiva de uma terceira guerra. Contra o Irã, por exemplo, sob pressão do lobby industrial-militar americano há pelo menos uma década. E esse lobby existe, afinal, para que se façam guerras. War is business, stupid!

Não foi surpresa menor a escolha da alemã Herta Müller para o Nobel de Literatura. Em entrevista à Folha, Lya Luft lembrou que traduziu um romance dessa autora, mas sequer sabia declinar-lhe o nome. Para não ficar de todo desamparado nessa área, sugiro que o leitor consiga um exemplar do livro “Escombros e caprichos – O melhor do conto alemão no século XX”– organizado por Rolf G. Renner e Marcelo Backes. Ali irá encontrar “A canção de marchar”, conto de duas páginas de Herta Müller. Arriscaríamos dizer que esse não está entre os melhores contos da antologia. Mas se a autora ganhou o Nobel, certamente tem muitos méritos. Então, a falha deve ser debitada aos organizadores, que não souberam escolher bem.

A academia sueca tem suas razões. Suspeitamos que muitas delas pertençam à categoria de “razões de estado”  ou razões secretas. Afinal, ao escolher Herta Müller, um nome europeu, preteriu os nomes de Philip Roth (americano), Joyce Carol Oates (americana), Amós Oz (israelense), Mario Vargas Llosa (peruano), entre outros tantos elegíveis à premiação. Os críticos da Academia resumem seus argumentos à palavra eurocentrismo. Há quem pondere, todavia, que isso é apenas uma fase passageira da instituição, já que o próprio secretário, Horace Englund, nega com veemência veleidades eurocêntricas…

É nessas ocasiões que costumeiramente vêm à tona lembranças desfavoráveis à Academia. Vladimir Nabokov, no começo dos 1900, e Jorge Luis Borges, no final desse século, passaram ao largo de suas atenções. Então seus nomes não teriam chegado às salas secretas dos seus pressurosos jurados?

Sim, porque o processo de escolha de um prêmio Nobel é um desses segredos só comparáveis ao que cerca a fórmula de certo centenário refrigerante. Pouquíssimos humanos participam diretamente de suas decisões. E num mundo onde quase tudo é devassado em detalhes, é crível que nenhum estudo, nenhuma reportagem de fundo haja sido feita até hoje sobre o processo de tomada de decisão da academia sueca?

Sabe-se, porém, que seus jurados recolhem opiniões emitidas por determinadas fontes, que funcionam como uma espécie de termômetro da opinião pública mundial. Sabe-se também, todavia, que os jurados têm independência o suficiente para descartar as opiniões recolhidas. No caso da escolha de Herta Müller deve ter acontecido algo desse tipo. E mais uma vez o nome relegado foi o do americano Philip Roth.

A preterição do nome de Roth, aliás, já está se tornando um desses casos vencidos, considerando a insistência com que seu nome vem sendo lembrado e descartado, sistematicamente, às vésperas da escolha do Nobel de Literatura há pelo menos dez anos. Algo que aconteceu também com Jorge Luis Borges, que nunca ganhou o prêmio.

A obra de Borges dispensa as láureas do Nobel, transformado que foi num dos nomes canônicos da literatura do século XX. O nome de Philip Roth também não se apagará se o Nobel lhe for sempre subtraído. Afinal, Roth continua escrevendo obras-primas desde “O complexo de Portnoy” até “Indignação”, seu último romance lançado no Brasil. Mas o esquecimento do seu nome, ano após ano, deixa uma incômoda impressão de que algo não está funcionando como deveria em termos daquela premiação.

Comentários fechados.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar
    • Anne Guimarães: Marcos meu menino... Na vida só a alegria embeleza a alma. Beijocas por estes versos! :) - Ai Hay Hai