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A política da vida

Muitos pensam que se submeter ao real, aceitar as mágoas e frustrações que ele nos impõe, é o mesmo que desistir. É o mesmo que renunciar a si. Não é. Na maior parte das vezes é o contrário: só a aceitação dos fatos, por mais dolorosos e insanos, nos dá um chão e nos permite avançar. Avançar quase sempre muito menos do que desejamos, mas ainda assim seguir em frente. A esse pensamento fundamental chego, mais uma vez, durante a leitura de Quando já não importa, romance de despedida do uruguaio Juan Carlos Onetti, que leio na edição espanhola da Alfaguara. Há sempre uma hora em que nada mais importa, mas, ainda assim, é preciso continuar a viver. É disso — desse “não importa” desolador, mas, ainda assim, real – que devemos partir. Ele é tudo o que temos. Ele é a própria vida.

Quando já não importa é o diário fictício de Carr, um intelectual decadente que acaba de ser abandonado pela mulher. A miséria e o vazio o assolam. Nada mais importa. Para fazer alguma coisa de si, ele decide aceitar um posto de trabalho em uma empresa de Santa Maria – a cidade mítica de Onetti. Logo descobre que a empresa não passa de uma cortina de fumaça para o contrabando. Segue em frente. Carr está em um mundo fake – um mundo no qual as coisas nunca são o que prometem ser. Move-se entre distorções, ilusões, adulterações. Quando já nada importa, o mundo ganha a consistência da lama. Ainda assim, isso é tudo o que tem e — por que não ousar dizer? — isso é a vida.

Detenho-me no magnífico registro do dia “4 de junho”. Eufrásia, sua senhoria, está prestes a dar à luz. Cai uma tempestade. Acontece que, apesar de gritos e orações desesperadas, Eufrásia não consegue expulsar o bebê de seu ventre. Carr percebe que, mais um pouco, mãe e filho estarão mortos. Enquanto a mulher luta e agoniza, acompanhado pelos três amigos estrangeiros com quem trabalha, Carr espera na sala ao lado. “Estávamos, quatro homens, impotentes, escutando a dor, humilhados também porque sentíamos que atrás das paredes crescia um mistério.” Por fim, livrando-se da apatia dos estrangeiros, ele decide sair em busca de socorro — mesmo sem ter muita certeza de que retornará a tempo. É tudo o que tem: essa vida breve, esse lapso de tempo, esse intervalo absurdo, e deles tenta fazer alguma coisa. Pega o carro e, lutando contra as rajadas de vento, vai a Santa Maria Velha, onde fica o único hospital da cidade.

É feriado: no hospital ninguém trabalha. Só lhe resta então procurar o doutor Díaz Grey – personagem de outros romances de Onetti, um dos tipos mais marcantes que ele inventou. “Uma visita imprevista, mas previsível, a sua”, lhe diz o médico, que sempre foi um apreciador de paradoxos e de enigmas. Como último recurso, os habitantes de Santa Maria depositam suas últimas esperanças nas mãos do doutor Grey. Carr apenas reencena um velho ritual. Mas haverá esperança nesse caso? Mesmo cheio de dúvidas, ele insiste. Ao lado do médico, está sua mulher Angélica Inés, outro personagem célebre de Onetti, que sempre se apresenta como sua filha. A mulher é frígida, esquiva e gosta de ser tratada como menina. Com Díaz Grey, vive não uma relação, mas uma ficção amorosa. É obcecada por uma canção infantil, que repete como um mantra. Uma canção que trata de uma busca. Procura de que? Parece que Angélica Inés procura alguns objetos que estão ali mesmo, bem diante do marido. Ela simplesmente não os vê. Jamais encontrará, já que o que busca, na verdade, é outra coisa.

Num momento em que a mulher desce até a garagem em busca dos objetos supostamente perdidos, o médico pede a Carr que a siga. “É um velho jogo. Não encontrou nada porque tudo está aqui, na vitrine. Mas agora eu lhe peço um favor. Que termine seu uísque e desça para perguntar-lhe o que encontrou. Não há perigo”. Quando o vazio se instala, só nos resta o teatro. Um teatro triste, desesperançado, mas que, ainda assim, mantém a vida em movimento. Apesar de não ter uma vida sexual com o marido, ou por isso, Angélica Inés se oferece a Carr. Oferece-se, mas logo recua, e o acusa de um ataque. “Sai daqui, não me toque. Não quero vê-lo nunca mais”, ela grita.

Carr pensa então em Eufrásia, pensa em como sua missão fracassou. Pensa ainda em Tom, Dick e Harry, seus três companheiros estrangeiros de trabalho que, a essa hora, talvez já tenham se ido. Enfrentando a tempestade, sem nada nas mãos, ele volta para casa, sabendo que, mesmo fracassado, fez o que era possível. Descobre então que Eufrásia, em seu desespero, fugira para o rio; não para se afogar, mas por acreditar nos poderes mágicos da natureza. Chegou de volta muito lenta, “sempre com as pernas rígidas, e ao passar perto da mesa e dos homens, limitou-se a pedir perdão”. No almoço do dia seguinte, enfim, explicou o que lhe acontecera: “Era um menino e a água o levou. (…) Não chorou porque os anjinhos vão para o céu até sem batizar. O padre me explicou”.

Com a magia e a ilusão, Eufrásia deu um destino à sua dor e à sua perda. O fato é que, ao contrário dos temores de Carr, e sabe-se lá como, ela sobreviveu. Por contraste, todo o esforço coerente de Carr se revelou patético — mas, ainda assim, ele fez o seu melhor. Quando nada mais importa, mesmo sem grandes esperanças, ainda assim devemos resistir e lutar. É também o que fez Onetti em seu magnífico romance de despedida. Transformou a impotência de Carr, sua desolação, sua derrota, em um sentido para viver e prosseguir. O personagem de Onetti se parece muito com nós mesmos. Mesmo sem acreditar muito, mesmo sem grandes expectativas, só nos resta prosseguir. Até porque o contrário disso é a morte. A morte em vida. Aqui me volta, mais uma vez, uma sentença de meu amigo Herbert Daniel: “Não interessa saber se há vida após a morte, mas se há vida antes da morte”.

A leitura de Quando já não importa reafirma a importância das coisas sem importância, e até inúteis, que, mesmo assim, levamos nas mãos. Muito mais doloroso do que aceitá-las é nos iludir com soluções tranquilizadoras e pacificadoras que, na verdade, não resolvem coisa alguma. Soluções mágicas — como a canção infantil de Angélica Inéz — que, a rigor, só nos empurram para o desastre. Só que o desastre não está em fracassar, mas em nos enganar.

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