Por que a música potiguar não acontece?

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Preparados para um caminhão de hipóteses batidas em resposta ao título sobre a música potiguar? É mais ou menos esse o teor do texto.

Antes, aviso: o “não acontecer” não se trata de fama, holofotes, imprensa, badalação. É apenas aquele reconhecimento que alimenta a alma e põe o pão nosso, amassado, mas digno, à mesa.

Volto ao tema porque o incômodo voltou quando assisti ao show da Luna Hesse, no Bardallos. Sofisticação pura. Artista lapidada e pronta para não só voos maiores, mas para qualquer voo, qualquer palco e público.

Luna Hesse

Luna Hesse

E lá estava ela a cantar para eu, meu compadre Tácito Costa, um casal de amigos de Luna e mais dois artistas também amigos.

Ou seja: não tinha público. Não tinha aquele “cidadão comum” que lê a notícia do show em um desses agendões e, pelo perfil da atração, comparece, bate palma, vibra com os falsetes e improvisos vocais, comenta com o amigo que o violonista é fodástico, compra CD ou procura mais informações do artista no google ou no soundcloud após o show.

Esse público não existe no Rio Grande do Norte. Ainda não. O Zé Caxangá – um cara mergulhado nas produções e shows de uma galera boa daqui – concorda comigo.

Som da Mata, festivais de música como o Dosol ou Mada atraem público pelo formato do projeto e não pelas atrações musicais, acredite.

É o caso também do projeto Quartas Clássicas, com um Teatro Riachuelo lotado para um concerto erudito. É o Teatro, é o ingresso gratuito! Coloque a mesma orquestra no auditório da Fiern e cobre R$ 15. Não preenche metade.

O Bardallos tem oferecido excelentes shows. Cobra, em média, R$ 10 e o público não vai. Meses atrás também estávamos eu e Tácito e mais um bêbado amigo para o show excelente de Caio Padilha.

Semanas atrás vi Yrahn Barreto, com participação de Mirabô e Jubileu, na Cidade da Criança. O que se precisava mais para comparecer? Acesso livre, lugar aprazível e música boa. Quase ninguém lá.

Lembro o dono do Taverna Pub a reclamar a falta de público para projetos de blues e se via obrigado aos pagodes da época para manter a casa.

Então, o resumo do primeiro clichê: o público vai aonde não paga ou para ser visto, e não para curtir a música potiguar.

CAUSAS ´DESDE SEMPRE PARA O VAZIO
Vou amontoar as causas conhecidas em um gordo parágrafo clichê e quase cronológico, ok? Vamos lá: 1) Rádios não tocam a música potiguar. 2) Sem conhecer a música, o público não comparece. 3) Sem o público comparecer, cada vez menos palcos se abrem à música potiguar. 4) Com menos palco e pouco prestígio, os cachês caem ao músico autoral no RN. 5) Sem incentivo à música autoral, o cover toma conta e até atrai alguma plateia. 6) Com pouco público, cachê baixo, menos palco e disputa com o cover nos bares, há ainda o modismo do potiguar que empurra muitos a preferirem o estilo musical da moda, ou seja, passageiro. E assim a música potiguar passa e nunca permanece.

CAUSAS ATUALIZADAS PARA O VAZIO
Uma determinante contraditória é a promoção pessoal, o marketing, a assessoria de imprensa, a divulgação em si.

Contraditória porque antes os jornalões eram a fonte-mor de divulgação. E sendo poucos, esse espaço era muito dificultado. Uma estampa no caderno Viver da TN ou no Muito do DN era a glória.

Hoje há uma infinidade de blogs ou mesmo perfis e fan pages pessoais, redes sociais e ferramentas para montar banners, cards, etc. E se as rádios-jabá não tocam, tem uma dezena de rádios e ferramentas online que armazenam suas músicas.

Mas nem assim. Nem com esse novo universo democrático de divulgação e promoção a música autoral potiguar acontece.

Tomemos o exemplo da própria Luna Hesse. Imagina se boa parte dos seguidores da fan page ou do facebook da Luna Hesse fosse ao show. Ou se ela conquistasse pelo menos um fã, daqueles fiéis mesmo, por cada ano de carreira.

Não parece muito, ne? Se assim fosse estariam pelo menos aquelas 20 pessoas entusiasmadas – um mínimo suficiente para aquele pão amassado e digno ou para manter a autoestima do artista.

Mas não. Lá estavam uns três gatos pingados em um show com ingresso a R$ 10 para uma artista que vale R$ 100.

AH, E O FAR FROM ALASKA?
A música autoral do RN não se resume ao Far From. Nem o Camarones. Nem ao Plutão Já Foi Planeta.

Para citar esses exemplos, acredito no Far From Alaska como banda talentosa que aproveitou intercâmbios musicais em outros estados e países para mostrar uma pegada de rock personalizada. E aconteceu! E aconteceu mais fora do que aqui.

Far From Alaska

Far From Alaska

O Camarones Orquestra Guitarrística, além do som bacana, traz uma estrutura de marketing promocional de excelência, com o trabalho de Foca e Ana Morena. Unem o útil ao agradável como poucos no Brasil, acredito.

O Plutão provou o talento potiguar quando encontrou oportunidade. Mas para jurados técnicos e audiência nacional que soube enxergar o carisma e a qualidade do grupo. Não, necessariamente, para o público potiguar.

E uma outra questão une esses três exemplos: oportunidade! São bandas que, pela essência do som que produzem, encontram espaços em festivais independentes. O Plutão e o Far From irão tocar no Rolling Stone Festival, próximo 3 de dezembro, por exemplo.

Lembremos Khrystal que, sem essa abertura em festivais de rock e música indie, voltou ao patamar de outrora após o sucesso no The Voice; voltou a não ter tempo para ser estrela, numa triste paródia de sua canção. E, claro, desnecessário citar seu potencial, seu talento vocal, de presença de palco, de instrumentista, de compositora, etc.

E mesmo com o exemplo das três bandas, são tão poucos exemplos para tanta coisa boa. Tão poucos exemplos se comparado a estados vizinhos.

É certo que a música potiguar vive uma ascendente. Houve um período razoável de construção dessa cena. Mas o público talvez não tenha acompanhado o mesmo ritmo da bandas.

Alguns pouquíssimos grupos já atraem algum público fiel e é essa imagem que eu acredito. Dusouto e Rastafeeling são algumas delas. Mas falta muito apesar do muito já construído, penso eu.

E volto à pergunta: por quê?

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Comentários

6 comments

  1. Thiago Gonzaga
    thiago gonzaga 25 novembro, 2016 at 22:30

    Sergio Vilar, que matéria excelente.
    Muito bom seu texto ! Bastante pertinente e reflexivo.
    Gostei demais da abordagem e e passei a tomar conhecimento de coisas que eu não sabia.
    Acho até, que, o que vc escreveu, vale praticamente para todos os tipos de artes produzidas no Rio Grande do Norte.
    Por essas e outras que sempre leio sua coluna.

  2. Sergio Vilar 26 novembro, 2016 at 07:41

    Teve até um leitor que comentou no face o mesmo que você, Thiago. Acho que com algumas variantes, vale mesmo para todas as artes. Abraço!

  3. Bero 27 novembro, 2016 at 16:26

    Isso é fato também presente no futebol potiguar. Basta observamos o resultado das campanha e a colocação das equipes locais em ranking nacional. A imprensa não dá tanta importância, os empresários não investem porque não há quem prestigie e as equipes ficam em penúria.

  4. carlos zens 27 novembro, 2016 at 20:18

    Meu querido Sergio, pertinente seu artigo, suas reflexões. E olha que entre os estilos de música citados a que faço nem se enquadrou. Daí o que fazer? Continuar fazendo. Buscar nas terapias reforço para não entrar nessa onda e continuar compondo. abraços.

  5. Luiz Gadelha 11 dezembro, 2016 at 11:02

    Gostei demais do texto, das reflexões. Importante demais que alguém que não seja um músico, um artista, se incomode e levante essas questões. Tenho me perguntado também o porquê disso ser assim! São questões que me entristece a cada dia.

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