Por que Deífilo é o nome do folclore potiguar

18 de agosto de 2010 às 15:39 - Comentar
Por Nelson Patriota

Crer no próprio destino é privilégio de poetas e visionários, condições que podem conviver num mesmo ser humano sem conflitos maiores. A história de vida do poeta Deífilo Gurgel é exemplar, a esse respeito. Nascido em Areia Branca, experimentou, na infância, certo deslumbramento com as cores, brilhos, cânticos e movimentos rítmicos de folguedos populares, com suas variantes em conformidade com a época: laicos ou religiosos, tumultuosos ou solenes e, às vezes, um pouco de cada, indistintamente.

O poeta, porém, veio antes. Foi uma escolha pessoal, ou uma descoberta, se formos daqueles que acreditam que ser é questão de berço. O folclore, porém, foi destino: Deífilo teria que buscá-lo, de merecê-lo. E quando é assim, os acasos, as pequenas coincidências, as circunstâncias favoráveis não tardam a agir, numa espécie de determinismo sutil que só se deixa perceber retrospectivamente.

Foi dessa forma que o poeta Deífilo Gurgel se tornou folclorista. Os encontros com o coquista Chico Antônio e com Dona Militana, dois emblemas atemporais da alma popular potiguar, foram plantados em seu caminho como duplas assertivas: que ele prosseguisse, porque seguia na direção certa. A aproximação com o mestre Câmara Cascudo, a discussão de seus livros, as visitas com seus alunos ao casarão da Junqueira Aires, a descoberta de Mário de Andrade, tudo decorreria em sequência.

A pretexto do Dia do Folclore, que transcorre dia 22 deste mês, Deífilo concedeu uma entrevista à jornalista Carla Sousa, da revista Saga Cultural, da rede Siciliano local, na qual fornece outros detalhes sobre sua formação intelectual e chega a fazer afirmações “temerárias”, como quando parece relativizar a importância do legado que Cascudo deixou para o folclore: “[...] Aliás, eu diria que Mário de Andrade ainda é mais importante que Cascudo, porque ele documentou os quatro autos populares brasileiros – Boi, Fandango, Chegança e Coco – em letra e música, coisa que ninguém jamais fez tão bem feito”.

Mas logo refaz a opinião, ressaltando a conversa “erudita e, ao mesmo tempo, gostosa de ouvir” de Cascudo; o fato de Cascudo ter escrito, do rincão modesto da província, uma centena e meia de obras tratando dos mais diversos temas, é um constante motivo de perplexidade para o octogenário Deífilo.

Trabalhando atualmente em pelo menos três livros, todos abordando temas potiguares, Deífilo vê um momento desfavorável aos folguedos folclores nos dias que correm. Em parte, porque os estudos teóricos estão esquecendo o lado prático dessa tradição, que são os próprios brincantes, para quem pede uma política pública específica. De outro lado, detecta certo desinteresse e desconhecimento dos assuntos relativos ao folclore por parte das novas gerações.

É um cenário desanimador, reconhece Deífilo, mas não passa de uma fase. Caso seu prognóstico se confirme, o folclore vivo, “prático”, como ele acentuou acima (não o folclore estratificado, congelado e transformado em tese ou dissertação acadêmica) dará a volta por cima e reacenderá as cores e brilhos da tradição, reatando laços entre as tradições e as gerações vindouras.

É esse folclore que renasce das suas próprias cinzas que o expert Deífilo Gurgel busca trazer para dentro das páginas do seu Romanceiro Potiguar, abrangente, totalizante do universo do folclore norte-rio-grandense. Seu opus magno na área do folclore? Queremos crer que sim, na medida em que poderá conter uma síntese de informações submetidas ao filtro da experiência que o experiente folclorista vem reunindo ao longo de pelo menos quatro décadas de estudos, pesquisas, buscas e criações.

Com o livro Os bens aventurados, lançado em 2005, Deífilo alcançou sua plenitude poética, iniciada sob a inspiração de sua Areia Branca e expandida progressivamente a outras margens reais ou imaginárias do seu mundo existencial. Sucessor sem rival de mestre Cascudo, Deífilo Gurgel faz por merecer agora, em que arremata um grande projeto folclórico, o título que lhe deu a revista Saga Cultural: “O nome do folclore potiguar”.

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    NAN GOLDIN
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    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”