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Pouca fé

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Falo com um cara por telefone e lhe envio um e-mail e, do nada, ele surge como uma sugestão de amizade na minha página no Facebook.

Um amigo comenta que viveu algo parecido. Entro numa página e vejo um anúncio de outra coisa que pesquisei dias, meses atrás.

Claro que o leitor sabe que, em se tratando de internet, isso não é coincidência, mas, sim, o poder dos algoritmos.

Palavras que digitamos, pessoas que visitamos ou curtimos, e-mails que enviamos, e até mesmo nossos desejos são mapeados e codificados através desses algoritmos.

Somos direcionados àqueles que escrevem, sentem e pensam parecido com a gente. Os algoritmos nos colocam em bolhas. Quer um exemplo?

Quando eu acordei no dia 9 de novembro e fui avisada de que Trump seria o novo presidente dos EUA, um estarrecimento se apossou de mim.

Achava que era improvável isso, porque TODOS os textos e notícias e pessoas que habitavam a telinha do meu computador se riam daquele ridículo.

Sempre fui declaradamente contrária ao golpe do PMDB “et caterva” e da retirada nefasta e criminosa da presidenta eleita.

Embora eu visse uma massificação do pensamento contrário ao meu, me custava acreditar, já que, de novo, a bolha me mostrava pessoas contrárias ao golpe.

Num dia que resolvi sair um pouco da bolha e escarafunchei páginas pessoais e sites, as barbaridades que li e assisti me deram um choque de realidade.

A quantidade de gente que odeia, que é fascista, que quer a volta de militares e donas de um analfabetismo político de dar dó, é muito grande.

Mas não é só no mundo virtual que isso existe. Quem dera.

sheyla_misantropiaCrueldade e fascismo

Por esses dias meu companheiro sofreu um acidente de carro envolvendo três veículos, com saldo de um ferimento nas costas, um braço provisoriamente enfaixado e um carro destruído.

Dá para superar os danos materiais? Sempre dá. Mas, o ocorrido deixou marcas em nossas crenças na humanidade.

Todos os envolvidos na colisão, inclusive a responsável, agiram de forma civilizada e cordata.

Porém, enquanto tivemos de esperar por três horas para a Secretaria de Mobilidade da Prefeitura chegar e lavrar o boletim de ocorrência, fomos vítimas da crueldade e do fascismo.

Motoristas passavam e vaiavam. Outros batiam palma sarcasticamente. Outras passavam bem devagar, tornando o trânsito ainda mais caótico. Outros soltavam piadas. Nenhum gesto de solidariedade no trânsito.

O que me faz pensar que o problema dos algoritmos virtuais e das bolhas em que estamos nos entranhando nos tira, além da visão panorâmica das coisas, a condição de nos colocarmos no lugar do outro.

Qualquer pessoa está sujeita a tombar, a cometer erros e sofrer acidentes de trânsito. Mas quantas sabem disso e são capazes de refletir e sair de suas bolhas?

Não sei. No momento, ando com pouca fé, dentro e fora de minhas bolhas.

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Sheyla Azevedo

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