Prelúdio e Fuga do Real

Marcos Aurélio Felipe
DestaqueLiteratura

A primeira vez que tomei conhecimento do livro “Prelúdio e Fuga do Real” (Fundação José Augusto, 1974), de Luís da Câmara Cascudo, foi quando ingressei na UFRN, em 1996, para fazer a graduação em História e assisti a uma palestra do professor e escritor Tarcísio Gurgel (ou foi do poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima?), creio que em uma das tantas Semana de Humanidades organizada pelo Centro de Ciências Humanas Letras e Artes (CCHLA). Prelúdio e Fuga do Real é uma exceção na literatura potiguar? O que se trata aqui não tem nada com crítica literária ou pretende jamais situar esse livro na obra maior do mestre Cascudo. Deixaremos essa tarefa para os especialistas. Aqui se trata, unicamente, do impacto que foi/é um livro – digamos assim – improvável para o que se vendia/vende como sendo uma obra cascudiana ou até mesmo nordestina.

Na orelha de Prelúdio e Fuga do Real, há a informação de que era um livro que Câmara Cascudo não intencionava publicar e que, de um lado a outra da sua biblioteca, perambulava ainda na condição de texto datilografado e encadernado, em meio aos seus outros centenas e milhares de livros, manuscritos e papéis.

Li-o naquela altura, mesmo sem entender quase nada de muitas passagens.

Não é moleza!

Afinal, só no primeiro capítulo, Câmara Cascudo conversa com uma certa Madame, que suponho ser a Senhora Morte; e cita e faz referência e menciona diversas personalidades e mitos: de Flaubert, passando por Nzambi, à Jurupari; de Frei Bartolomeu Ferreira, passando pelo peixe Celecanto, um crossopterígio, à Charcot; Virgílio, Dante, Papini, Bossuet, Scot Erigene, Bethrew, Cornélio Agripa. Afora, uma dezena de aforismos e máximas em francês, latim, espanhol – o que é de menos.

A Morte existe. Os Mortos, não!
– Madame! O jantar está servido!…

Fiquei maravilhado com todo o universo de criação, ficcionalização e inventiva.

Câmara Cascudo criou, em Prelúdio e Fuga do Real, um mundo paralelo colado ao seu mundo cotidiano de leitura, pesquisa e erudição. Uma outra dimensão, ainda que intelectual, mas extremamente lúdica, como se trouxesse para perto de si, os universos e personalidades que só existiam na dimensão histórica, mitológica, folclórica, etc. É um livro constituído por narrativas de invenção – que dão a capitularização ao tomo e separam um momento de outro –, a partir de encontros, naturalmente, imaginários que Cascudo teve com personagens históricas, bíblicas, mitológicas, literárias e outros. Longe de suas narrativas etnográficas, históricas, folclóricas, filosóficas, mas, ao mesmo tempo, também etnográficas, históricas, filosóficas, mitológicas …. e literárias, sobretudo. Quando foi outro dia, qual minha surpresa em encontrar um exemplar no Sebo Cata Livros do Mercado das Flores, em Petrópolis, em meio aos tantos livros empilhados naquela babel administrada por Vera. Por força da memória e instigado pela peça A Invenção do Nordeste, do Grupo Carmin, voltei às suas páginas.

No capítulo 2, o antropólogo, historiador, etnógrafo, erudito e escritor potiguar – vale a lembrar – Luís da Câmara Cascudo recebe Bianor Silva: um Centauro.

Logo na abertura, Cascudo faz as honras da casa:

– Bianor Silva? Faça o favor de sentar-se ….
Sentou, fazendo ranger a cadeira […].

Continua Cascudo:

– Não me parece brasileiro, apesar do nome …
– Nasci e vivi na Arcádia, vizinha a Elide, quando aquilo era região de bosques e águas correntes, povoada de javalis e cervos. Digamos que fui grego, facilitando o passaporte. Bianor quer dizer “Homem violento”. É todo o meu nome. Fiz composição com o “Silva”, valendo floresta, mato, exatamente o que fui, ‘um violento homem do mato’, quase um selvagem, como competia aos Centauros….
– Lindo nome! Não o Bianor, mas o Centauro….
– Muito grato, professor.

E a conversa continua.

– Literatura, senhor Bianor! Acabo precisamente de ler o verbete de Ronchaud no dicionário de Daremberg e Ságilo. Sou doutor em Centaurice. Mas, falta-lhe a clássica metade…
– Não é literatura, professor. É verdade. A minha verdade, nem sempre crível mas legítima. Nunca usei a banda equina. Lenda, tão impossível quanto cômica. Ixion não poderia fecundar uma Nuvem. Píndaro, 447 anos antes do Cristo, registrou a origem fiel, deturpada pela intenção malévola dos humanos.”

Com maluco, não se brinca!

No capítulo 6, em sua biblioteca, recebe Pentasiléia, “que levara as Amazonas em socorro de Príamo dos derradeiros da resistência de Tróia”.

Recebo na biblioteca a ‘Professora Estrangeira’ anunciada. Alta, forte, serena, fausse-maigre, é exaltação de saúde, decisão, auto-domínio. A boina escura cobre-lhe a cabeça alongada, modelada em mármore, cabelos curtos e densos, testa estreita, olhos negros, olhar direto, limpo, sem subentendidos, lábios finos, um rosto algo másculo, agressivo na placidez. […] O tailleur verde desce até os joelhos, em linha harmoniosa, mostrando as pernas ágeis, os pés esguios, defendidos pelas sandálias elegantes. A blusa, branca e leve, deixa ver a garganta firme. Um anel de camafeu. Um colar de pedras reluzentes e negras. No pulso, relógio suíço. No arco da grande bolsa de couro, um par de luvas claras. Acomoda-se, sorridente mas sem intimidade. Voz grave, rápida, sem denunciar a procedência da visitante.

É importante atentar que Cascudo, colado ao título deste capítulo 6, acrescentou o subtítulo “As mentoras da Igualdade Feminina”.

E continua:

– Professor, estive há poucos dias em Londres com Bianor Silva…
– O Centauro?
– Exatamente, o Centauro. Disse-me o assunto que expusera ao senhor ….

A medida em que navegamos através/com/a partir da imaginação de Cascudo, encontramos Ramsés II – “História não é problema, professor. O problema é o historiador”; Maria Madalena – “Muito grata, professor, pelo gentil acolhimento. Sabia da sua opinião ao meu respeito”; Cornélio Agripa – “O professor sabe que todas as cousas criadas perduram através de ciclos de transformações”. E outros….

Com maluco, como disse um amigo meu, “é preciso enlouquecer junto”!

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Marcos Aurélio Felipe

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