Presença derradeira de Ascendino Leite

18 de junho de 2010 às 8:33 - Comentar
Por Nelson Patriota

Entre os conflitos e os anseios da terceira idade, Ascendino Leite encontrou a via da sua profissão de fé ao justapor duas palavras que, embora parecessem se antagonizar, acenavam para uma única possibilidade desejável. Eram elas “poesia ou morte”, título que ganhou a reunião de sua obra poética, lançada em 2006, pela editora paraibana Ideia. Nela encontra-se toda a produção poética desse vate tardio que, em si mesmo, testemunhou um milagre e um capricho das musas: a inspiração para o poema na quadra dos oitentano

Ao tornar-se poeta, depois de ter cumprido um trajeto que visitou o jornalismo, o romance, a tradução, o jornal literário, a crítica – roteiro que seria imitado, salvo pequenas diferenças, poucos anos depois, pelo macaibense Renard Perez –, Ascendino Leite fechou um ciclo de experiências literárias que lhe haviam aberto possibilidades ilimitadas, ao mesmo tempo em que pareciam fixá-lo no núcleo de eleição de sua vida. O humor, a autoironia, uma discreta sensualidade e um grande entusiasmo pela obra que passava a surgir com surpreendente facilidade, marcaram essa fase. Não por acaso um desses livros tem o título de O Nariz de Cíntia; outro reflete o dobre de finados de Poemas do Fim Comum; um terceiro remete, telúrico, a À Flor da Terra e, abrindo o ciclo, as fragrâncias de um Jardim Marítimo, possível influência do Cemitério Marinho de Valéry.

Tivemos o privilégio de prefaciar um dos seus volumes de poesia, cujo título, por si só, evoca uma sentimento por demais nosso: Por uma Saudade Azul. Por trás da cândida evocação, porém, o crítico Hildeberto Barbosa Filho entreviu acertadamente um “pequeno tratado dos sentidos”.

A alternativa “poesia ou morte” não deixava margem a dúvidas: a poesia passou a representar um valor de tal magnitude para o poeta, que se confundia com o sentido mesmo da vida, acompanhando-o e ajudando-o a enfrentar os achaques da idade e a distância que se interpôs entre sua solidão e seus semelhantes, mesmo os mais próximos.

Ascendino, porém, colocou-a em termos ainda mais pessoais, conforme reza a epígrafe que encima seu Poesia ou Morte: “É a poesia que me vai expulsar desta miséria, limpo como o corpo de um recém-nascido”. Em seu último jornal literário, Os Pecados Finais, ele já havia concluído: “O verdadeiro destino da palavra é com certeza a poesia. É o seu resumo, o seu destino, seu ponto de chegada”.

Se sua poesia octogenária se constitui um espanto dentro e fora da Paraíba, seu jornal literário, estendido ao longo de vinte volumes, é de uma originalidade tão marcante que fatalmente virará assunto de estudos no breve futuro.

Foi esse poeta-pensador (que poeta não o é?) que as letras paraibanas perderam nessa última semana. Tansfigurou-se, porém, num momento em que sua obra literária – romances, jornais, poesias, entrevistas, traduções, críticas – já haviam se tornado de domínio público entre os leitores da Paraíba, e para além dos limites físicos desse Estado. Lembre-se que ele aqui esteve, há poucos anos, para receber um diploma concedido pelo Instituto Histórico e Geográfico, ratificando os laços que manteve desde os primeiros anos de juventude com o Rio Grande do Norte.

Reportando-se à entrevista que deu ao Galo, em maio de 1998, vê-se ali que Ascendino Leite lembrou dois amigos que teve em Natal, o pianista Oriano de Almeida, de quem foi vizinho no Hotel Sol em várias ocasiões, e Câmara Cascudo, por quem nutria uma admiração ilimitada. Oriano foi seu “querido amigo”, com quem costumava trocar ideias, especialmente musicais. Sobre Cascudo, sabia ser detalhista: “Cascudo é um dos grandes luminares de uma vida de pensamento, como Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco. A obra de Cascudo é o Brasil do nosso lado, mas é o Brasil todo”, sentenciou.

DESTAQUE:

“Em seu último jornal literário, Os Pecados Finais, ele já havia concluído: ‘O verdadeiro destino da palavra é com certeza a poesia. É o seu resumo, o seu destino, seu ponto de chegada’”.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”