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Presente de ano-novo

É bastante comum associarmos a ideia de presente unicamente a algo que pode ser comprado. Minha visão do que seja um presente, no entanto, vai além de um objeto que pode ser adquirido em troca de algum dinheiro. Presente, para mim, pode ser um abraço, um sorriso, um encontro inesperado, um passeio, uma conversa… Não é que eu não goste da tradição de presentear, sobretudo em datas especiais; pelo contrário, adoro agradar as pessoas que amo com regalos diversos, especialmente livros, sempre procurando comprar algo que seja “parecido” com quem receberá o mimo. Aliás, essa é uma preocupação que me vem à cabeça sempre que vou comprar uma lembrança.

Não suporto a ideia de presentear por obrigação, o que muitas vezes leva a pessoa a comprar qualquer coisa sob a justificativa de que aquela data não pode passar em branco. Penso diferente: se posso presentar um amigo ou familiar no dia de seu aniversário, ótimo; mas se não o faço naquela data, espero a oportunidade de poder comprar algo que tenha uma identificação com quem será beneficiado. Digo isso porque muitas vezes não podemos presentear um ente querido na data em que gostaríamos, seja por que motivo for, reservando para o encontro um abraço caloroso e algumas palavras de afeto…

Dos presentes que ganhei ultimamente, o convite para passar alguns dias na praia, certamente foi o melhor de todos. Ceiça Fraga, uma amiga que tem um flat em Búzios, praia do litoral sul do RN, convidou-me para passar o réveillon com ela e sua família. Costumo passar as festas de final de ano com minha família, mas não vejo problema em quebrar essa tradição uma vez ou outra. Esse ano, por exemplo, passei o natal com a família de uma amiga querida, a escritora Ana Cláudia Trigueiro, e fui muito bem acolhida por todos. Afinal, o mais importante para mim são as vivências e os afetos partilhados ao longo do ano. Não é uma noite de festa que vai definir a profundidade de uma relação ou a importância de um parente em minha vida. Além do mais, eu estava mesmo precisando ficar uns dias longe da rotina de trabalho e das preocupações com as demandas cotidianas. Vez por outra é bom fazer isso.

Voltando ao convite para passar o réveillon na praia. Foram três dias de tranquilidade, de leituras, silêncios, música, reflexões… Três dias de descanso, paz, alegria, renovação física e espiritual… Três dias de contato com a natureza… Três dias sentindo a brisa do mar e caminhando na areia da praia… Três dias apreciando a beleza do entardecer… Três dias contemplando a lua…

Uma das coisas mais legais dessa estadia na praia é que o flat onde eu estava hospedada fica no térreo e de sua varanda podemos contemplar o azul do mar e escutar o barulho das ondas; era isso que eu fazia ao acordar e algumas vezes durante o dia, sempre com o coração transbordando de alegria e gratidão por poder desfrutar de tamanha beleza. Outra coisa agradável era fazer as refeições olhando para o mar; e foi assim o último café da manhã antes do retorno, na companhia de um casal que conheci lá. Logo na entrada do prédio tem uma área comum (com mesas e cadeiras de um antigo restaurante do flat) onde os moradores e inquilinos temporários se reúnem para jogar carteado, fazer refeições e, principalmente, jogar conversa fora. Aliás, foi isto que fizemos na tarde do primeiro dia do ano. Um encontro de três amigas do prédio, entre elas minha amiga, resultou numa reunião agradável e um café compartilhado com uma família de paraibanos que estava hospedada no flat e foi convidada a participar daquele momento que a princípio era reservado às três amigas que se reúnem diariamente para jogar cartas. Cada um trouxe algo e de repente a mesa estava repleta de bolos, pães, bolachas, queijos… O assunto foi diverso e animação tomou conta da mesa. O momento foi encerrado com fotos, muitas gargalhadas e a promessa de um novo reencontro…

Após esse momento, voltei para o flat e me pus a refletir sobre a alegria e a simplicidade contidas naquele momento único, onde algumas pessoas até então desconhecidas se irmanavam, partilhando não só o alimento, mas também um pouco de suas vidas, de suas dores, de suas alegrias, de seus sonhos… Agradecida pelo privilégio de estar ali, pensei: esse foi o melhor presente de ano-novo que eu poderia ter recebido.

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Andreia Braz

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