Audiovisual

Presente e passado em quatro filmes incontornáveis

may-68

“Tu não te moves de ti”
Hilda Hilst

“Nunca se sabe o que se filma.”
Chris Marker

I

No documentário Winter on Fire (2015), de Evgeny Afineevsky, vemos o levante popular contra o governo da Ucrânia, em 2013, eleger a Praça Maidan em Kiev como locus de resistência. Na praça, setores diversos da sociedade ucraniana – como estudantes, trabalhadores, religiosos, ex-militares etc – se reúnem, organizam-se e articulam pensamentos e atos com a mesma finalidade. A praça como locus não é uma invenção do documentário, nem tampouco uma construção fílmica à priori, mas imposta pela força da realidade histórica, que, naquele momento, transformou-a no símbolo da resistência para deposição do governo pró-Rússia. Não sendo uma locação, construída como espaço fílmico e com os artifícios do cinema, mas espaço real por onde o fio da história se desenrola, coube ao documentário apenas a função do registro, com suas tomadas diretas nas quais a realidade transcorre mais completa e integral, onde a sensação do tempo é mais concreta e quase tátil. Um depoimento, em particular, logo no início, é revelador e atípico para o nosso tempo em que as redes sociais, equivocadamente, tornaram-se a última trincheira: um dos personagens – em retrospecto – revela que, no momento que atendeu o chamado para a luta na Praça Maidan, desconectou o notebook e só viera a utilizá-lo novamente quando o então presidente já estava deposto. Em Winter on Fire, a realidade da câmera não é um produto do artifício. O combate é real!

II

Em Roma, Cidade Aberta (1945), Roberto Rossellini cria a realidade do filme colada à realidade da História – sendo uma quase o espelho da outro à refletir, ao mesmo tempo, presente e passado, acontecimentos ficcionais e reais. Feito no calor da hora, logo que os alemães são expulsos de Roma, na esteira do fim da Segunda Guerra Mundial, esse marco do Neo-realismo Italiano nos apresenta a uma realidade histórica onde os cheiros e odores da época ainda davam para ser sentidos e as feridas não tinham sido sequer cicatrizadas. Rossellini aponta sua câmera para a ocupação alemã na Itália, especialmente para a Resistência Italiana frente ao nazi-fascismo. Seus heróis (o padre Dom Pietro, os combatentes Francesco e Manfredi, bem como a personagem de Anna Magnani), cujos percursos em momento algum ecoam qualquer individualismo, primam por atos coletivos, desenham cada um a sua maneira formas de resistir contra o inimigo que invade domicílios, prende e tortura. Ao cabo, naquele momento em que a cruz e a espada optaram por ações comuns sem picuinhas, Rossellini apresenta também uma espécie de cartilha da luta armada dos partegianos contra um poder arbitrário e ilegítimo. Moldado por um preto e branco cru, com as sombras predominando sobre a luz, com personagens, praticamente, representando a si mesmos, as locações, os personagens e fatos aparentemente diegéticos são, paradoxalmente, documentais – como se ficção e realidade fossem um só corpo por tão coladas à câmera se apresentarem através de suas lentes.

III

Em Bom Dia, Noite (2003), Marco Bellochio promove o reencontro da Itália com o sequestro de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, em 1978. Então representante maior da Democracia Cristã (DC), naquele momento, Moro buscava um governo de coalizão com o Partido Comunista Italiano (PCI). Ao contrário dos filmes anteriores, Bellochio opera os artifícios do cinema de outra forma. Se em Winter on Fire e Roma, Cidade Aberta, prevalecem o registro do tempo presente, dos fatos à frente da câmera, com as lentes quase sentindo o bafo quente da História, em Bom Dia, Noite, temos um filme distante pelo menos 25 anos do seu objeto, mas com a História invadindo a ficção de tal maneira que a tensão psicológica de Chiara chega a ser quase real. A opção de Bellochio foi trabalhar com imagens de arquivo do entorno do fato inseridas na diegese como parte da cena, como aquele helicóptero a sobrevoar a casa do sequestro, as manifestações dos políticos e do Papa na TV, os corpos dos seguranças abatidos e, ao final, as faces no velório de Moro. Baseado nas memórias de uma participante da ação, Bom Dia, Noite, faz uma crítica à luta armada sob a perspectiva de Chiara, sem em momento algum expandir suas lentes para a Itália daquele tempo, contextualizar que país era aquele e como operavam suas instituições. Centra-se nas crises de consciência dos personagens, no isolamento político das Brigadas Vermelhas e, sobretudo, no sequestro seguido da execução de Aldo Moro – talvez para que não se procure qualquer justificativa para atos extremos.

IV

Em O Fundo do Ar é Vermelho (1977), Chris Marker passa em revista as manifestações políticas contra as mais diversas formas de dominação, mas abordando o território da política institucional, empresarial e nacional. Do Vietnan à França, da China à Venezuela, passando pelos Estados Unidos e a Alemanha, Tchecoslováquia, México, Brasil, Chile e Bolívia, Chris Marker adentra no pensamento e práticas políticas do século passado, como contraponto ao domínio de um povo sobre outro, do capital sobre o trabalho, de forças hegemônicas sobre forças políticas colocadas num patamar de subalternidade. Se é verdade, nas palavras de Tom Gunning, que o século XX não foi apenas o primeiro século do cinema, mas o século que, integralmente, foi documentado pelos cineastas e suas câmeras, em O Fundo do Ar é Vermelho, temos um painel monumental dos países, personagens e acontecimentos que eclodiram sob o signo da resistência e luta revolucionárias. Antes de tudo, um filme-arquivo moldado pela montagem, que articula imagens de acervos diversos, da História do Cinema, depoimentos e o narrador em off a nos guiar como testemunhamos. Neste documentário, Chris Marker coloca em evidência a Guerra do Vietan – o marco zero e de convergência das esquerdas; Fidel Castro e a luta como principio e a crítica aos manuais; e o maio de 68 na França, além das outras manifestações políticas que aglutinaram, em algum momento, grupos e entidades de esquerda no mundo – com todas as suas contradições, avanços e reveses, com a certeza que era preciso revolucionar os revolucionários e que não são os livros – nem muito menos os filmes – que transformam as estruturas, muito menos a realidade e a política.

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