Prosa

OS MELHORES DE 2009

De Tom Wolfe a Dalton Trevisan, de Adorno e os gulags a Matisse e o Terror de 1789, cinco especialistas apontam os títulos incontornáveis do ano

LITERATURA

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA
>> Meu Amor
de Beatriz Bracher, ed. 34 (tel. 0/ xx/11/3816-6777).
O livro descobre e percorre destemidamente uma ponte de simpatia repugnante entre o afeto mais terno, até maternal, e a crueldade mais abjeta.

>> Violetas e Pavões
de Dalton Trevisan, ed. Record (tel. 0/xx/21/2585-2000).
São textos curtos, que simulam cartas obscenas de amor, depoimentos em interrogatórios policiais e casos urbanos escabrosos; unifica-os o estilo parnasiano irônico a criar flagrantes de ilícito penal e erótico.

>> Pornopopéia
de Reinaldo Moraes, ed. Objetiva (tel. 0/xx/21/2199-7824).
É tão descabeçado na reiteração do modelo junk/gonzo de vida levada ao extremo de sexo e drogas como cerebral no controle dos meios narrativos e dos seus efeitos cômicos. De longe, o livro mais engraçado do ano.

>> Cadernos de Infância
de Norah Lange, tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo, ed. Record
Sobretudo, impressiona neste livro a articulação do andamento ligeiro de um mundo infantil de pequenas incidências, medos e manias com a marcação grave de uma sucessão de eventos fúnebres.

>> O Aventuroso Simplicissimus
Hans J.C. von Grimmelshausen, trad. Mario Luiz Frungillo, ed. Universidade Federal do Paraná (tel. 0/xx/41/ 3360-7489).
O grande evento cultural do ano editorial brasileiro passou despercebido: a tradução do mais importante romance picaresco alemão do século 17, cuja ação esmiúça o campo de butim, destruição e morte a que se reduz o território da Alemanha durante a Guerra dos 30 Anos [1618-48].
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ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

CIÊNCIAS SOCIAS

NEWTON BIGNOTTO
ESPECIAL PARA A FOLHA

>> Gulag – Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos
de Anne Applebaum, trad. Mário Vilela e Ibraíma Tavares, ed. Sinergia (0/xx/21/3882-8388)
Usando fontes até então desconhecidas pelos pesquisadores, Applebaum traça um perfil equilibrado da tragédia de uma sociedade para a qual os campos de concentração se tornaram parte integrante da cena política.

>> Varennes – A Morte da Realeza
de Mona Ozouf, trad. Rosa Freire d’Aguiar, Companhia das Letras (tel. 0/xx/11/3707-3500)
Erudição e elegância marcam esse relato de como a Revolução Francesa [1789] foi levada a ver na República uma saída para os impasses gerados pela tentativa de fuga de Luís 16.

>> Maquiavel – Política e Retórica
de Helton Adverse, ed. Universidade Federal de Minas Gerais (te. 0/xx/31/3409-4650)
O livro realiza a difícil tarefa de escrever algo inovador sobre [o pensador italiano] Maquiavel, permanecendo atento às publicações mais importantes dos últimos anos sobre o tema.

>> O Tempo e o Cão
de Maria Rita Kehl, ed. Boitempo (tel. 0/xx/11/3875-7250)
O livro mostra com rara felicidade como a depressão é fruto da difícil relação que entretemos com a temporalidade acelerada de nossas sociedades.

>> Escritos
de Sônia Viegas, ed. Tessitura (tel. 0/xx/31/ 3262-0616)
Com a publicação das obras dessa pensadora, morta prematuramente há 20 anos, o público ganhou a oportunidade de conhecer a trajetória de uma escritora que soube unir em sua escrita rigor e beleza, como poucas vezes se vê na cena acadêmica.
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NEWTON BIGNOTTO é professor de filosofia política na Universidade Federal de MG.

HISTÓRIA

MARCO ANTONIO VILLA
ESPECIAL PARA A FOLHA
>> Cada Um na Sua Lei – Tolerância Religiosa e Salvação no Mundo Atlântico Ibérico
de Stuart B. Schwartz, trad. Denise Bottmann, Edusc/Companhia das Letras
Trabalho inovador sobre o espírito de tolerância religiosa entranhado na cultura popular no período de atuação da Inquisição na Idade Moderna (séculos 16-18).

>> O Historiador e Suas Fontes
Carla Bassanezi Pinsky e Tania Regina de Luca (orgs.), ed. Contexto (tel. 0/xx/11/3832-5838)
Conjunto de ensaios sobre o que é mais específico ao ofício do historiador: o trabalho com a documentação histórica. Os textos avaliam a importância das particularidades das fontes históricas literárias, fotográficas, judiciárias, arquitetônicas etc.

>> Escravismo em São Paulo e Minas Gerais
de Francisco Vidal Luna, Iraci del Nero da Costa e Herbert S. Klein, Edusp/Imprensa Oficial (tel. 0/ xx/11/2799-9800).
Análise das relações sociais marcadas pela escravidão em Minas Gerais e São Paulo nos séculos 18 e 19. Estudo das profissões, atividades produtivas e posse de escravos nesses séculos, com base em ampla documentação.

>> Comércio e Canhoneiras – Brasil e Estados Unidos na Era dos Impérios (1889-97)
de Steven C. Topik, trad. Angela Pessoa, Companhia das Letras
Estuda as relações Brasil-Estados Unidos nos primeiros anos da República, especialmente durante a Revolta da Armada (1893-94).

>> Fronteira Amazônica
de John Hemming, trad. Antonio de Padua Danesi, Edusp (tel. 0/ xx/11/3091-4008)
Expõe os encontros dos cientistas europeus com as riquezas amazônicas e os indígenas da região, em especial durante o ciclo da borracha.
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MARCO ANTONIO VILLA é professor de história na Universidade Federal de São Carlos (SP).

FILOSOFIA

VLADIMIR SAFATLE
ESPECIAL PARA A FOLHA
>> Dialética Negativa
de Theodor Adorno, trad. Marco Antonio Casanova, ed. Zahar (tel. 0/xx/21/2108-0808)
Um dos livros mais importantes da filosofia do século 20. Obra maior de Theodor Adorno, mobiliza suas leituras de Heidegger, Kant e Hegel a fim de apresentar um conceito renovado de razão com fortes consequências na dimensão prática.

>> São Paulo – A Fundação do Universalismo
de Alain Badiou, trad. Wanda Caldeira Brant, ed. Boitempo Um dos principais nomes da filosofia francesa atual, Badiou apresenta neste livro uma forte defesa do universalismo e de um conceito de acontecimento capaz de recuperar exigências de ruptura e renovação. Para tanto, ele faz apelo a uma leitura original da mensagem paulina e de uma certa tradição cristã.

>> A Lógica das Ciências Sociais
de Jürgen Habermas, trad. Marco Antonio Casanova, ed. Vozes (tel. 0/xx/24/2233-9000)
Livro que procura analisar o estatuto epistemológico das ciências humanas.

>> Sacher-Masoch – O Frio e o Cruel
de Gilles Deleuze, trad. Jorge Bastos, ed. Zahar
Embora pareça um livro de circunstância, trata-se de um importante estudo para a compreensão do conceito deleuziano de desejo e de crítica.

>> A Condição Humana – As Aventuras do Homem em Tempos de Mutações
Adauto Novaes (org.), Sesc SP/ Agir (tel. 0/xx/21/3882-8200)
Coletânea de textos sobre os desafios da pós-humanidade e do esgotamento da noção moderna de homem.
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VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP.

ARTE

TEIXEIRA COELHO
ESPECIAL PARA A FOLHA

>> Matisse – Imaginação, Erotismo, Visão Decorativa
Sonia Salztein (org.), trad. Denise Bottmann, ed. Cosac Naify (tel. 0/xx/11/3218-1444)
Muita gente boa -Greenberg, Barr, T.J. Clark- escrevendo sobre um artista do luxo (como diz Aragon) ou da volúpia (mesmo se ordenada, para Paulo Pasta).

>> Primeira Individual – 25 Anos de Crítica de Arte
de Antonio Gonçalves Filho, Cosac Naify
O autor não enfeixa suas críticas reunidas sobre arte brasileira numa teoria a posteriori, especial para o livro (o que é bom). Cada peça é uma narrativa viva, livre do jargão da área.

>> Estética Relacional
de Nicolas Bourriaud, trad. Denise Bottmann, ed. Martins (tel. 0/xx/11/3116-0000)
Renomado crítico exorta a pensar as práticas da arte contemporânea, sem o que elas “permanecem ilegíveis”. A ler com o livro seguinte.

>> A Palavra Pintada
de Tom Wolfe, tradução de Lia Wyler, ed. Rocco (tel. 0/ xx/21/ 3525-2000)
Em 1975, arrasava a arte contemporânea porque é “para ler”. Artistas e críticos odiaram-no.
Tem uma visão cultural da arte.
Livro bom é o que faz pensar, não aquele com o qual se concorda.

>> Inteligência Brasileira – Uma Reflexão Cartesiana
de Max Bense, trad. Tercio Redondo, Cosac Naify
Um amigo da terra pensou, há 40 anos, sobre a nova arte e a cultura brasileiras da época, que via livres da “decadência metafísica e da barbárie”. Era mesmo assim, poderia ter sido assim? A primeira parte, estimulante, traz ideias diferentes (nada pacíficas) sobre o que significou (ou teria significado) Brasília.
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JOSÉ TEIXEIRA COELHO NETTO é professor titular aposentado da ECA-USP, crítico e curador do Masp (Museu de Arte de São Paulo).

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EM DEFESA DO ROMANCE
Mario Vargas Llosa

Muitas vezes me ocorre, nas feiras de livros ou nas livrarias, que um senhor se aproxime de mim com um livro meu nas mãos e me peça para autografá-lo, especificando: é para a minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura. E eu lhe pergunto, de imediato: “E o senhor? Não gosta de ler?”

A resposta chega pontual, quase sempre: “Bem, sim, é claro que gosto, mas sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é.” Sim, sei muito bem, porque ouvi essa explicação dezenas de vezes: esse senhor, esses milhares de senhores iguais a ele têm tantas coisas importantes, tantas obrigações e responsabilidades na vida, que não podem desperdiçar seu tempo precioso passando horas e horas imersos num romance, num livro de poemas ou num ensaio literário. Segundo essa concepção, a literatura é uma atividade da qual se pode prescindir, um entretenimento elevado e útil para cultivar a sensibilidade e as boas maneiras, um ornamento que se podem permitir os que dispõem de tempo livre para a recreação, e que seria necessário computar na categoria dos esportes, do cinema, do bridge ou do xadrez, mas que pode ser sacrificado sem escrúpulos no momento de estabelecer uma escala de prioridades nos afazeres e compromissos indispensáveis da luta pela vida.

É verdade que a literatura acabou por se tornar, cada vez mais, uma atividade feminina: nas livrarias, nas conferências ou nas readings dos escritores e, natural-mente, nos departamentos e nas faculdades em que se estuda literatura, as saias ganham de goleada das calças. A explicação é que, na classe média, as mulheres leem mais porque trabalham menos horas que os homens, e que muitas delas tendem a se considerar mais justificadas do que os homens no tempo que dedicam à fantasia e à ilusão. Como sou um tanto alérgico a essas explicações, que dividem homens e mulheres em categorias estanques com virtudes e fraquezas coletivas, não partilho dessas interpretações; mas num aspecto não resta dúvida: há cada vez menos leitores de literatura – há muitos leitores, mas de lixo impresso – e, entre eles, as mulheres prevalecem.

Uma pesquisa organizada recentemente pela Sociedade Geral de Autores Espanhóis forneceu um dado alarmante: metade dos habitantes daquele país jamais leu um livro. A pesquisa revelou também que, na minoria leitora, o número de mulheres que declaram ler é superior em 6,2% ao dos homens. Muito me alegro pelas mulheres, é claro, mas me preocupo pelos homens, e pelos milhões de seres humanos que, podendo ler, renunciaram a fazer isso. Não só porque desconhecem o prazer que perdem, mas porque estou convencido de que uma sociedade sem romances, ou na qual a literatura foi re-legada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida mais ou menos num culto sectário, essa sociedade está condenada a se barbarizar no plano espiritual e a pôr em risco a própria liberdade.

Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários.

A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em guetos culturais de técnicos e especialistas, aos quais a linguagem, alguns códigos e a informação progressivamente setorizada relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiquíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido de pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo – de povos ou indivíduos – gera paranoias e delírios, as deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, preci-samente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocabulários herméticos.

A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração.

Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade. Ler boa literatura é divertir-se, com certeza; mas também aprender, dessa maneira direta e intensa que é a da experiência vivida através das obras de ficção, o que somos e como somos em nossa integridade humana, com os nossos atos, os nossos sonhos e os nossos fantasmas, a sós e na urdidura das relações que nos ligam aos outros, em nossa presença pública e no segredo de nossa consciência, essa soma extremamente complexa de verdades contraditórias – como as chamava Isaiah Berlin – de que é feita a condição humana.

Esse conhecimento totalizador e imediato do ser humano, hoje, se encontra apenas no romance. Nem mesmo os outros ramos das disciplinas humanistas – como a filosofia, a psicologia, a história ou as artes – puderam preservar essa visão integradora e um discurso acessível porque, por trás da pressão irresistível da cancerosa divisão e fragmentação do conhecimento, acabaram por sucumbir também às imposições da especialização, por isolar-se em territórios cada vez mais segmentados e técnicos, cujas ideias e linguagens estão fora do alcance da mulher e do homem comuns. Não é nem pode ser o caso da literatura, embora alguns críticos e teóricos se empenhem em transformá-la em uma ciência, porque a ficção não existe para investigar uma área determinada da experiência, mas para enriquecer de maneira imaginária a vida, a de todos, a vida que não pode ser desmembrada, desarticulada, reduzida a esquemas ou fórmulas, sem que desapareça.

Por isso, Marcel Proust disse: “A verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, pois, plenamente vivida, é a literatura.” Não exagerava, guiado pelo amor a essa vocação que praticou com talento superlativo: simplesmente queria dizer que, graças à literatura, a vida se compreende e se vive melhor, e entendê-la e vivê-la melhor significa vivê-la e partilhá-la com os outros.

Borges se irritava quando lhe perguntavam: “Para que serve a literatura?” Parecia-lhe uma pergunta idiota, e ele respondia: “A ninguém ocorreria perguntar-se sobre qual é a utilidade do canto de um canário ou das cores do céu no crepúsculo!”; com efeito, se essas coisas belas estão ali e graças a elas a vida, ainda que por um instante, é menos feia e menos triste, não é mesquinho procurar justificativas práticas?

À diferença do gorjeio dos pássaros ou do espetáculo do sol fundindo-se no horizonte, um poema, um romance não estão pura e simplesmente ali, fabricados por acaso ou pela natureza. São uma criação humana, e é lícito perguntar como e por que nasceram, e o que deram à humanidade para que a literatura, cujas origens remotas se confundem com as da escrita, tenha durado tanto tempo. Nasceram como fantasmas incertos, no íntimo de uma consciência, projetados a ela pelas forças conjugadas do inconsciente, de uma sensibilidade e de algumas emoções, a que, numa luta às vezes implacável com as palavras, o poeta, o narrador, deram forma, corpo, movimento, ritmo, harmonia, vida. Uma vida artificial, feita com a linguagem e a fantasia, que coexiste com a outra, a real, desde tempos imemoriais, e à qual acorrem homens e mulheres porque a vida que têm não lhes basta, não é capaz de oferecer tudo aquilo que gostariam de ter. O romance não começa a existir quando nasce, por obra de um indivíduo; só existe realmente quando é adotado pelos outros e passa a fazer parte da vida social, quando se torna, graças à leitura, experiência partilhada.

Um dos primeiros efeitos benéficos se verifica no plano da linguagem. Uma comunidade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances e clareza do que outra cujo instrumento principal de comunicação, a palavra, foi cultivado e aperfeiçoado graças aos textos literários. Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, se pareceria com uma comunidade de tartamudos e afásicos, atormentada por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar.

Isso vale também para os indivíduos, obviamente. Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que lê apenas porcarias, pode falar muito, mas dirá sempre poucas coisas, porque para se exprimir dispõe de um repertório reduzido e inadequado de vocábulos. Não se trata apenas de um limite verbal; é, a um só tempo, um limite intelectual e de ho-rizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as ideias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, por meio das quais as reconhece e define a consciência. Aprende-se a falar com precisão, com profundidade, com rigor e agudeza, graças à boa literatura, e apenas graças a ela.

Nenhuma outra disciplina, nenhum outro ramo das artes, pode substituir a literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os conhecimentos que nos transmitem os manuais científicos e os tratados técnicos são fundamentais; mas eles não nos ensinam a dominar as palavras nem a exprimi-las com propriedade: pelo contrário, amiúde são mal escritos e revelam certa confusão linguística porque os autores, às vezes eminências indiscutíveis em sua profissão, são literariamente incultos e não sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que são detentores. Falar bem, dispor de uma linguagem rica e variada, encontrar a expressão adequada para cada ideia ou emoção que se queira comunicar, significa estar mais preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e, também, para fantasiar, sonhar, sentir e emocionar-se.

De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não poderiam ser diferenciados daqueles que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: copular e devorar.

Os meios audiovisuais não estão em condições de substituir a literatura na função de ensinar o ser humano a usar com segurança, e talento, as riquíssimas possibilidades que a língua encerra. Esses meios tendem a relegar as palavras a um segundo plano em relação às imagens, que são a sua linguagem essencial, e a reduzir a língua à sua expressão oral, ao mínimo indispensável, o mais distante possível de sua vertente escrita que, na tela e nos alto-falantes, resulta sempre soporífera. Dizer de um filme ou de um programa que ele é “literário” é um modo educado de chamá-lo de chato.

Isso me leva a pensar, também, embora sobre essa questão eu deva admitir que nutro certas dúvidas, que não só a literatura é indispensável para o conhecimento correto e para o domínio da língua, mas que o destino dos romances está ligado, em um matrimônio indissolúvel, ao do livro, produto industrial que muitos declaram já obsoleto.

Um deles é um senhor importante e a quem a humanidade deve muito no campo das comunicações, isto é, Bill Gates, o fundador da Microsoft. O senhor Gates estava em Madri, há pouco tempo, e visitou a Real Academia Espanhola, com a qual a Microsoft lançou as bases daquilo que, assim se espera, será uma fecunda colaboração. Entre outras coisas, Bill Gates assegurou aos acadêmicos que se ocupará pessoalmente de que a letra “ñ” nunca seja retirada dos computadores, promessa que, é óbvio, arrancou de nós um suspiro de alívio, de nós, 400 milhões de hispanohablantes dos cinco continentes, para os quais a mutilação daquela letra essencial no ciberespaço teria criado problemas babélicos.

Pois bem, imediata-mente depois dessa concessão amável à língua espanhola e, assim entendo, sem ter sequer deixado a Real Academia, Bill Gates declarou que espera não morrer sem ter realizado o seu maior projeto. E qual seria ele? Acabar com o papel, e, pois, com os livros, mercadoria que, a seu entender, já é de um anacronismo contumaz. O senhor Gates explicou que as telas dos computadores estão em condições de substituir com êxito o papel em todas as funções e que, além de isso custar menos, de ocupar menos espaço e de ser mais fácil de transportar, as informações e a literatura por meio da tela terão a vantagem ecológica de pôr fim à devastação dos bosques, cataclismo que, pelo visto, é consequência da indústria de papel. As pessoas continuam a ler, explicou ele, mas nas telas, e, desse modo, haverá mais clorofila no meio ambiente.

Eu não estava presente – tomei conhecimento desses detalhes pela imprensa -, mas, se houvesse estado lá, teria interrompido rumorosamente o senhor Bill Gates para contestar, sem o menor constrangimento, a sua intenção de nos aposentar a mim e a tantos colegas meus, a nós, pobres escritores de livros. Pode o monitor substituir o livro em todos os casos, como afirma o criador da Microsoft? Não estou seguro disso. Digo isso sem negar, de modo algum, a revolução que no campo das comunicações e da informação representou o desenvolvimento das novas técnicas, como a internet, que todo dia me presta uma ajuda inestimável em meu trabalho; mas daí a admitir que a tela eletrônica possa substituir o papel no que concerne às leituras literárias há uma lacuna que não consigo preencher. Simplesmente não sou capaz de aceitar a ideia de que a leitura não funcional nem prática, a que não busca uma informação nem uma comunicação de utilidade imediata, possa conviver na tela de um computador com o sonho e com a fruição da palavra, gerando a mesma sensação de intimidade, a mesma concentração e o mesmo isolamento espiritual do livro.

Talvez seja um preconceito, resultante da falta de prática, da já longa identificação na minha experiência da literatura com os livros de papel, mas, se bem que navegue com muito prazer na internet em busca de notícias do mundo, não me ocorreria servir-me dela para ler os poemas de Góngora, um romance de Onetti ou de Calvino, nem um ensaio de Octavio Paz, porque sei muito bem que o efeito dessa leitura jamais seria o mesmo.

A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.

Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real. Quando, fechado o livro, posta de parte a ficção, voltamos àquela e a comparamos com o território resplandecente que mal acabamos de deixar, espera-nos uma grande desilusão. Isto é, esta grande confirmação: que a vida sonhada do romance é melhor – mais bela e variada, mais compreensível e perfeita – do que a que vivemos quando estamos despertos, uma vida tolhida nos limites e na servidão a nossa condição.

Nesse sentido, a boa literatura é sempre – ainda que não proponha isso nem se dê conta disso – sediciosa, insubmissa, em revolta: um desafio ao que existe. A literatura nos permite viver em um mundo cujas leis transgridem as leis inflexíveis em meio às quais transcorre a nossa vida real, emancipados da prisão do espaço e do tempo, na impunidade para o excesso e donos de uma soberania que não conhece limites. Como não nos sentirmos defraudados depois de termos lido Guerra e Paz ou Em Busca do Tempo Perdido, ao nos voltarmos a este mundo de mesquinharias infinitas, de fronteiras e proibições que estão à espreita e que em toda parte, a cada passo, perturbam nossas ilusões? Esta é, talvez, ainda mais do que conservar a continuidade da cultura e enriquecer a linguagem, a melhor contribuição da literatura ao progresso humano: recordar-nos (involuntariamente, na maior parte dos casos) de que o mundo se acha mal-acabado, de que mentem os que sustentam o contrário – por exemplo, os poderes que o governam -, e de que poderia ser melhor, mais próximo dos mundos que a nossa imaginação e a nossa palavra são capazes de inventar.

Entenda-se bem: chamar de sediciosa uma literatura porque as belas obras de ficção desenvolvem nos leitores uma consciência alerta em face das imperfeições do mundo real não significa, como creem as igrejas e os governos que se fiam da censura para atenuar ou anular sua carga subversiva, que os textos literários provoquem diretamente comoções sociais ou acelerem as revoluções. Os efeitos sociopolíticos de um poema, de um drama ou de um romance não podem ser verificados porque não se mostram quase nunca de maneira coletiva, mas individual, e isso significa que variam enormemente de uma pessoa para outra. Por isso é difícil, para não dizer impossível, estabelecer normas precisas. Por outro lado, muitas vezes esses efeitos, quando resultam evidentes no âmbito coletivo, podem ter pouco a ver com a qualidade estética do texto que os produz. Por exemplo, um romance medíocre, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, parece ter desempenhado um papel importantíssimo na tomada de consciência social, nos Estados Unidos, dos horrores da escravidão; o fato de que esses efeitos sejam difíceis de identificar não significa que eles não existam, mas que se manifestam, de maneira indireta e múltipla, por meio dos comportamentos e ações dos cidadãos cuja personalidade os romances contribuíram para moldar.

A boa literatura, enquanto aplaca momentaneamente a insatisfação humana, incrementa-a e, fazendo que se desenvolva uma sensibilidade inconformista em relação à vida, torna os seres humanos mais aptos para a infelicidade. Viver insatisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as batalhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem Anos de Solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro que, sem a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu de atos de insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável.

Tentemos traçar uma reconstrução histórica fantástica, imaginando um mundo sem literatura, uma humanidade que não haja lido romances. Nessa civilização ágrafa, com um léxico liliputiano, em que talvez os grunhidos e a gesticulação simiesca prevalecessem sobre as palavras, não existiriam certos adjetivos formados a partir das criações literárias: quixotesco, kafkiano, pantagruélico, rocambolesco, orwelliano, sádico e masoquista, entre muitos outros. Haveria loucos, vítimas de paranoias e delírios de perseguição, e pessoas de apetite descomunal e de excessos desmedidos, e bípedes que gozariam recebendo ou infligindo a dor, com certeza; mas não teríamos aprendido a ver por trás desses comportamentos extremados, em contraste com a pretensa normalidade, aspectos essenciais da condição humana, vale dizer, de nós mesmos, algo que só o talento criador de Cervantes, de Kafka, de Rabelais, de Sade ou de Sacher-Masoch nos revelou.

Quando veio a lume o Dom Quixote, os primeiros leitores riam daquele homem iludido e extravagante, da mesma forma como riam as outras personagens do romance. Agora sabemos que o empenho do Cavaleiro da Triste Figura em ver gigantes em vez de moinhos de vento e em cometer todos os desatinos que comete é a forma mais elevada de generosidade, um modo de protestar contra as misérias deste mundo e de procurar mudá-lo. Os próprios conceitos de ideal e de idealismo, tão impregnados de uma validade moral positiva, não seriam o que são – ou seja, valores claros e respeitáveis – se não tivessem encarnado naquela personagem de romance com a força persuasiva que lhe conferiu o gênio de Cervantes. E o mesmo se poderia dizer desse pequeno dom Quixote pragmático e de saias que foi Emma Bovary – o bovarismo não existiria, está claro -, que por sua vez se bateu com ardor para viver essa vida resplendente de paixões e de luxo que ela conhecera nos romances, e se queimou nesse fogo como a mariposa que se aproxima demais da chama.

Como as de Cervantes e Flaubert, as invenções dos grandes criadores literários, ao mesmo tempo em que nos arrancam de nossa prisão realista, conduzem e guiam pelos mundos da fantasia, abrem-nos os olhos sobre aspectos desconhecidos e secretos da nossa condição, e nos dão os instrumentos para explorar e entender mais os abismos do que é -humano. Dizer “borgeano” significa destacar-se da realidade racional costumeira e penetrar numa fantástica, rigorosa e elegante construção mental, quase sempre labiríntica, impregnada de referências e alusões livrescas, cuja singularidade não nos é, todavia, estranha, porque nela reconhecemos desejos recônditos e verdades íntimas do nosso ser que só graças às criações literárias de um Jorge Luis Borges puderam tomar forma. O adjetivo “kafkiano” nos vem à mente de maneira natural, como o flash de uma daquelas velhas máquinas fotográficas de fole, toda vez que nos sentimos ameaçados, como indivíduos inermes, por esses mecanismos opressores e destrutivos que tanta dor, tantos abusos e injustiças causaram no mundo moderno: os regimes autoritários, os partidos verticais, as igrejas intolerantes, as burocracias asfixiantes. Sem os contos e romances daquele atormentado judeu de Praga que escrevia em alemão e que viveu sempre à espreita, não teríamos sido capazes de compreender o sentido de fragilidade e impotência do indivíduo isolado ou das minorias discriminadas e perseguidas, ante as forças onipotentes que podem pulverizá-los.

O adjetivo “orwelliano”, primo em primeiro grau de “kafkiano”, refere-se à angústia opressiva e à sensação de absurdo extremo que geraram as ditaduras totalitárias do século XX, as mais refinadas, cruéis e absolutas da história, em seu controle dos atos, da psique e até dos sonhos dos membros de uma sociedade. Nos seus romances mais célebres, A Revolução dos Bichos e 1984, George Orwell descreveu, com acentos gélidos e de pesadelo, uma humanidade submetida ao controle do Grande Irmão, um senhor absoluto que, por meio de uma combinação eficaz de terror e tecnologia moderna, eliminou a liberdade, a espontaneidade e a igualdade – nesse mundo alguns são “mais iguais do que os outros” – e transformou a sociedade em uma colmeia de seres humanos autômatos, programados como os robôs. Não apenas as condutas obedecem aos desígnios do poder, mas também a língua, o newspeak, foi depurada de toda conotação individualista, de toda invenção ou matiz subjetivo, transformando-se numa enfiada de lugares-comuns e clichês impessoais, o que aumenta a servidão dos indivíduos ao sistema. É verdade que a profecia sinistra de 1984 não se materializou e que, como ocorreu com os totalitarismos fascista e nazista, o comunismo totalitário desapareceu na União Soviética e depois começou a se deteriorar na China e naqueles anacronismos que são ainda Cuba e a Coreia do Norte; mas a palavra “orwelliano” permanece como lembrança de uma das experiências político-sociais mais devastadoras vividas pela civilização, e que os romances e ensaios de George Orwell nos ajudaram a compreender nos seus mecanismos mais recônditos.

Por vezes, a imagem que se delineia no espelho que os romances e os poemas nos oferecem de nós mesmos é a imagem de um monstro. Ocorre quando lemos as horripilantes carnificinas sexuais fantasiadas pelo Divino Marquês, ou as tétricas dilacerações e sacrifícios que povoam os livros malditos de um Sacher-Masoch ou de um Bataille. E, todavia, o pior dessas páginas não são o sangue nem a humilhação, tampouco as torturas abjetas nem a sanha que as tornam febris; é a descoberta de que essa violência e os abusos não nos são estranhos, estão repletos de humanidade, de que esses monstros ávidos de transgressão e excesso estão entocados no mais fundo de nosso ser e que, das sombras onde estão ocultos, aguardam uma ocasião favorável para se manifestar, para impor a lei dos seus desejos, que acabaria com a racionalidade, com a convivência e talvez com a própria existência. Não a ciência, mas a literatura foi a primeira a examinar os abismos do fenômeno humano e a descobrir o apavorante potencial destrutivo e autodestrutivo que também o conforma. Portanto, um mundo sem romances seria parcialmente cego em face desses abismos terríveis onde com fre-quência jazem as motivações das condutas e comportamentos inusitados, e por isso mesmo tão injusto contra o que é diferente, como aquele que, em um passado não muito remoto, acreditava que canhotos, aleijados e gagos estivessem possuí-dos pelo demônio. Esse mundo talvez continuasse a praticar, como até há pouco tempo algumas tribos amazônicas, o perfeccionismo atroz de afogar nos rios os recém-nascidos com defeitos físicos.

Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal. Os instintos básicos decidiriam a rotina de uma vida oprimida pela luta pela sobrevivência, pelo medo do desconhecido, pela satisfação das necessidades físicas, em que não haveria espaço para o espírito e a que, à monotonia sufocante da vida, acompanharia o pessimismo, a sensação de que a vida humana sempre será assim, e que nada nem ninguém poderá mudar o estado das coisas.

Quando se imagina um mundo assim, há a tendência a identificá-lo de imediato com o primitivo, com o trapo cobrindo os órgãos genitais, com as pequenas comunidades mágico-religiosas que vivem à margem da modernidade na América Latina, na Oceania e na África. A verdade é que o formidável desenvolvimento dos meios audiovisuais em nossa época – os quais, por um lado, revolucionaram as comunicações tornando todos os homens e mulheres do planeta partícipes da atualidade e, por outro, monopolizaram cada vez mais o tempo que os seres vivos dedicam ao ócio e à diversão em vez de à leitura – permite imaginar, como possível cenário histórico do futuro, uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e alto-falantes, e sem livros, ou mais precisamente, onde os livros – a literatura – se tornaram semelhantes à alquimia na era da física: uma curiosidade anacrônica, praticada nas catacumbas da civilização mediática por minorias neuróticas. Esse mundo cibernético, receio muito, apesar de sua prosperidade e poderio, de seus elevados níveis de vida e de suas façanhas científicas, seria profundamente incivilizado, letárgico, privado de espírito, uma humanidade resignada de robôs que abdicaram da liberdade.

É mais do que improvável que essa perspectiva sombria chegue a se concretizar. A história não está escrita, não há um destino preestabelecido que tenha decidido por nós o que seremos. Depende totalmente da nossa visão e da nossa vontade que aquela utopia macabra se realize ou se oculte. Se queremos evitar que com os romances desapareça, ou permaneça apartada no desvão das coisas inúteis, essa fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que nos aguça a sensibilidade e nos ensina a falar com força expressiva e rigor, e nos torna mais livres e nossas vidas mais ricas e intensas, é necessário agir. Há que ler os bons livros e incitar a ler, e ensinar a fazer isso a quantos venham depois de nós – nas famílias e nas aulas, nos meios de comunicação de massa e em todos os setores da vida comum – como uma ocupação imprescindível, pois que é a que imprime a sua marca em todos os demais, e os enriquece.

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VERÍSSIMO DE MELO
Por Nonato Gurgel

Lendo o jornal “O Galo” nº 9 – Setembro /99, deparei com o texto “Veríssimo, Verismo” – perfil traçado pelo crítico Dorian Gray Caldas sobre o autor de O Conto Folclórico no Brasil (1976) falecido há três anos. Não disponho do cabedal de memórias do referido crítico, mas possuo marcas de Veríssimo. Não sou de sua geração; porém tive o prazer de conviver com ele por algum tempo – início dos anos 90 -, quando almoçávamos no Bar e Restaurante Gramil, do grande Seu César, ali na curva do início da Hermes da Fonseca, em Petrópolis, Natal-RN.

Meu encontro com o professor Veríssimo tem como cenário este tranqüilo e discreto ambiente, ao qual levava sempre meu pai e os amigos que freqüentemente me visitavam no ap cuja entrada se dava por uma bela floricultura. Do Gramil, lembro o chope acompanhado de pastéis preparados na hora, além das plantas que praticamente encobriam a fachada do prédio. Lembro também dos pássaros que compunham a única trilha sonora do local. Oralidade a mil.

Recordo que, de início, chamou-me atenção a cena sempre repetida: via numa mesma mesa aquele senhor magro, moreno, discreto, óculos escuros. Sempre tomando um drink. Às vezes, acompanhado por uma mesma mulher, que depois descobri ser sua esposa; às vezes, na presença de algum interlocutor. Às vezes, sozinho. Pela constância com a qual a cena se repetia, percebi tratar-se de um cliente diário que terminava almoçando no local. Não era um frequentador comum: tratava-se do professor de Antropologia Cultural da UFRN. O homem que organizou, dentre outros livros, as Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo (1991).

Nossa aproximação foi rápida e teve como elo a literatura. Como secretario da Academia de Letras e Presidente do Conselho Estadual de Cultura, ele fez doação de dicionários para o Colégio Agrícola de Ceará Mirim, onde eu lecionei durante 10 anos. Dele ganhei dois volumes de Patronos e Acadêmicos. Passei a ler seus textos. Tornei-me ouvinte de seu vasto repertório de histórias ligadas à arte, à cultura, à antropologia e ao folclore potiguar. Com uma centena de títulos publicados e boa disposição para a prosa, Veríssimo conduzia a conversa que, geralmente, enveredava por roteiros literários e culturais. Frente àquele livro vivo e ambulante, a minha performance, na maioria das vezes, não ultrapassava a condição de ouvinte.

A prosa de Veríssimo era cativante e humorada. “Aberto a todo entendimento”, como diz Dorian, ele exportava seu repertório para jornais e livros de Recife, São Paulo e da Europa. Naquele período, além das colunas, ele escrevia um verbete para uma enciclopédia alemã. Lembro que Câmara Cascudo e Diógenes da Cunha Lima eram as personagens mais constantes na sua prosa quotidiana. Talvez ele soubesse que, para um sujeito da minha geração, estes dois ícones da cultura potiguar tinham referência imediata.

Foi durante essa convivência literária, no Gramil, que mostrei-lhe um caderno – como chamou ele mais tarde – contendo os poemas que havia escrito nos anos oitenta e início dos noventa. Corria o ano de 1994 e o Real entrava em cena. Encontramo-nos num seminário da UFRN, onde eu cursava o mestrado em Estudos da Linguagem, e ele participava de uma mesa de debates acerca da arte e da cultura popular. Junto com Deífilo Gurgel, discorriam sobre a viagem de Câmara Cascudo e Mário de Andrade, nos anos 20, pelo sertão do Rio Grande do Norte (Martins, Açu, Acari…).

Neste encontro na UFRN, disse-me haver lido meus poemas e que escreveria um texto sobre os mesmos. Anunciou-me ainda haver mostrado os textos a Diógenes da Cunha e que este me chamara de louco. Fiquei na expectativa quanto ao texto no jornal. O texto “Mensagem a um jovem poeta” foi publicado em 05/12/93 na coluna que o autor de Xarias e Canguleiros escrevia aos domingos na Tribuna do Norte. Veríssimo destacou 7 pequenos poemas.

Meu livro A Golpe de Íris nunca foi publicado. Mas guardo, junto aos originais, o belo texto que Veríssimo escreveu, já que ele é o meu primeiro e único crítico, e escreveu: “… a sua poesia é de primeira água … A luz que ilumina a maioria dos seus versos é anunciadora de visão nova das coisas e do mundo”. Reporto-me à mesma palavra utilizada pelo autor no final do texto que a mim dedicou: Valeu, Veríssimo.

Rio de Janeiro, 1999

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