Prosas da linhagem guimarantina

13 de janeiro de 2010 às 17:07 - Comentar
Por Nelson Patriota

No apagar das luzes desse ano de 2009, um lançamento literário conseguiu surpreender de muitas maneiras os leitores atentos à temporada de autógrafos que movimentou livrarias e centros culturais da Capital, especialmente ao longo de seus dois últimos meses. O livro As duas borboletas do entardecer reservava algumas surpresas: dois contos inéditos do poeta Luís Carlos Guimarães, falecido em 2001, e a estreia como ficcionista de seu filho mais velho Luis Ricardo, assinando outros dois textos de ficção.

Contos do poeta de A lua no espelho já haviam saído postumamente pela Editora Bagaço, do Recife, em 2002, sob o título de O funil, reunindo histórias protagonizadas pelo seu alter ego Amâncio Puá, e mais três outros contos formando um grupo à parte, quais sejam: o premiado “A pastora e o arco-íris”, além de “A menina da janela” e “A viajante estrela companheira”.

A publicação de O funil, aliás, já traz a assinatura de Ricardo Luís na sua organização e seleção, indicando que o primogênito do poeta se sentia, havia algum tempo, tentado a seguir pelas veredas abertas por seu pai na área da prosa.

Com esse novo livro, escrito a quatro mãos, a obra ficcional de Luís Carlos Guimarães está presumidamente completa, deixando evidente que o poeta via a arte do conto como um campo o qual pretendia explorar sem abdicar, naturalmente, da poesia, até porque parte significativa da sua obra em prosa se apoiava claramente nos seus dotes poéticos, exibindo um requinte raramente alcançado junto a muitos dos nossos prosadores. Salientemos ainda, para fazer justiça ao poeta, que entre a poesia e a prosa, Luís Carlos abrira uma terceira via: a tradução poética, que resultara na brilhante coletânea 113 traições bem-intencionadas, na qual pretendia prosseguir, graças à boa recepção que tivera essa sua obra singular, a qual ganharia em 2007 uma segunda edição chancelada pela Editora da UFRN.

Mas, se havia uma unidade temática entre os contos do ciclo Amâncio Puá, bem como entre os três contos que encerram O funil, é sobretudo o estilo (que, desde Buffon, “c’est l’homme”) que garante a coesão ao livro, através de uma prosa que namora muito de perto a linguagem que o poeta esparramou sem medida nos seus poemas.

Não é exatamente isso que se observa nesse par de contos póstumos. Se em “As duas borboletas do amanhecer” o narrador rivaliza com o poeta na descrição impressionista do ambiente, aluno atento dos recortes parisienses dos poemas em prosa de Baudelaire, a segunda narrativa carece de maior distinção, lembrando mais a urdidura das anedotas que animam as rodas masculinas nos bares, que é uma forma de conto, mas sem ambições literárias.

Quanto ao outro rebento guimarantino, Ricardo Luís, revela-se em ambos os contos que assina – “O caso das bananas preciosas” e “A romaria em Juazeiro” um experiente e atento observador da realidade, com sensibilidade para o pitoresco e extraordinário. Trata-se de duas histórias plausíveis, observadas em suas linhas gerais e possivelmente, no caso da primeira, vivida, o que lhe confere um hiper-realismo narrativo pelo volume de informações paralelas que caberiam mais adequadamente numa novela ou romance. São excessos, porém, que não chegam a prejudicar o relato, se o leitor acompanhar o narrador até o foco do conto.

Quanto a “A viagem a Juazeiro” poder-se-ia chamar propriamente de “Milagre em Juazeiro”, já que é disso que trata a pequena peça narrativa, em sua estrutura um tanto difusa no que tange ao enredo. É também uma miniatura literária traçada sobre o pano de fundo do velho e até agora não resolvido tema do coronelismo, com suas sabidas sequelas sociais, econômicas, culturais.

Ricardo Luís se lança ficcionista “pegando uma carona” – como ele próprio salientou – em sobras do acervo do seu pai Luís Carlos, o Lula Capeta que o poeta glosou em O funil. A licença poética, por assim dizer, foi usada nesse As duas borboletas do amanhecer. A partir de agora, o herdeiro intelectual da estirpe guimarantina deve caminhar sobre os seus próprios pés, se quiser dar prosseguimento à expectativa que criou com o lançamento desse livro em parceria.

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    NAN GOLDIN
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    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente