Quando penso em roubar chocolates
29 de maio de 2010 às 18:23 - 3 ComentáriosEm São Paulo, com a bolsa nas costas e as sandálias nos pés. Leio Pessoa: “Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo”. É do Livro do Desassossego. O trecho é lido por Luiza, uma amiga querida aqui de São Paulo. Em 1998 escrevi um poema para esta cidade. O poema nunca foi publicado, nem aqui. Não lembro por que fiz isso. Ele é assim:
CARTA DE SÃO PAULO AOS PAULISTAS
Essa bobagem que diz Goethe
de que cinza são as teorias
e verde é a árvore da vida é,
além de tudo, ingênua:
cinza também é a árvore
e a vida.
Já o disse São Paulo
de Piratininga.
2.
No café da livraria Cultura da av. Paulista, muitos rostos e livros. Tantos livros sem gente. Tanta gente sem livros. Lendo Pessoa me esqueço no fundo do baú de mim. Ouço o tilintar dos talheres, xícaras e dentes. Muitas vozes no saguão das letras. No meu interior, traduzo poemas que não escrevi. Pergunto-me do nada: “se eu vendesse vozes / quanto custaria o silêncio?”.
Perguntaram hoje no jornal para o Gilberto Gil:
- Música fica mais ou menos importante aos 68 anos?
- Mais. Porque ela deixa de ser importante.
É isso o poeta. Acompanha-se do menos importante. Na rua, no café, na intimidade, na torneira, o grito silencioso dos desimportantes. Envelhecer, pegar o seu tambor, ir para debaixo da árvore e tocar.
Inventar um estilo. Para quem não tem estilo; particularidade de originalidade; o tal do original particular, o que fazer? Todos dizem: abra um blog. Prefiro dizer: melhor abrir a janela. Outro dia, na televisão, o médico perguntou ao paciente, “o que você tem?”; “dívidas”, respondeu o pobre.
- O que é música? – perguntou o jornal hoje para o Gilberto Gil:
- A música é a manga.
Entendi que cada um chupa de maneira diferente.
São Paulo está cinza e fria. Sensação términa de 12 graus com vento a sudeste. Uma vez, aqui, em 1998, pensei em roubar chocolates. Sai do lugar com vergonha. O medo às vezes fez a gente abandonar a casa de doces do amor.
Chega de escrever bobagens.
Tomo a mochila, as sandálias e parto de São Paulo espiando a manchete de cultura do Estadão: “Arte e Angústia”. Não sei de quem se trata. Mas entendo bem o que a notícia quer dizer.



3 Comentários
Prosa apreciada. Comungo dos mesmos enredos cotidianos.
Divido meu amor a São Paulo com você, poeta. Uma pergunta: dividir com outro o amor, por uma cidade ou por uma mulher, é mais transgressor do que roubar chocolates ?
Divido meu amor por São Paulo com você, meu poeta. Uma pergunta: você acha que dividir o amor (uma cidade, uma mulher) com outro é mais transgressor do que roubar chocolates ?