Quantos poetas existem em Açu?

Manoel Cavalcante
LiteraturaMais

Segunda cidade mais antiga do Rio Grande do Norte, palco da mítica ‘Guerra dos Bárbaros’, Açu tem uma vasta literatura, considerada tanto bucólica, como inédita, dominada por algumas famílias, como Caldas, Soares, Wanderley e Amorim.

Fotografia de capa: Feira de louças de Açu, anos 1970.

O título de Terra dos Poetas não veio de graça para Açu, a poesia brota em carne e osso no vale, na terra Renato Caldas e no berço de Moysés Sesyom. Publicado em 1984, Poetas e Boêmios do Açu é uma antologia da literatura assuense (que privilégio!). Literatura vasta e, ao mesmo tempo, escassa.

Na venturosa obra, Ezequiel Fonseca Filho, Dr. Ezequiel (prefeito do Açu na década de 1930, deputado estadual, presidente da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte nos anos 1950), aos 88 anos de idade, estreou nas letras potiguares e listou 36 poetas naturais de Açu ou, como diria Manuel Bandeira, nascidos para a vida consciente na terra dos verdes carnaubais.

Assu

Açu, em nheengatu, significava “grande”; local de uma grande aldeia, Taba-açu; teve seu Arraial de Nossa Senhora dos Prazeres fundado em abril de 1696, renomeado Vila Nova da Princesa, em homenagem à princesa Carlota Joaquina, em agosto de 1788.

Ei-los:

  • Júlio Soares
  • Renato Caldas
  • João Natanael de Macedo
  • Oliveira Júnior
  • Luís Carlos Wanderley
  • Sinhazinha Wanderley
  • Manoel Pitomba de Macedo
  • Américo Macedo
  • Ana Lima
  • Palmério Filho
  • Celso da Silveira
  • Carolina Wanderley
  • Durval Soares de Macedo
  • Adolfo Carlos Wanderley
  • Elias Souto
  • Pedro José de Macedo
  • Luís de Macedo Filho
  • Assu_Excursão com alunas do Colégio N. S. das Vitórias

    Segunda comarca da província, Açu teve em sua fértil ribeira a forte presença do gado, o que fixou colonos e serviu de base para a exploração de boa parte do sertão potiguar, no século XVII. Fotografia: Excursão de alunas do Colégio Nossa Senhora das Vitórias.

    Martinha Santiago

  • Antônio Soares de Macedo
  • Alice Wanderley
  • Ezequiel Wanderley
  • Sandoval Wanderley
  • Maria Erondina Caldas de Amorim
  • Otávio Amorim
  • João Evangelista Soares de Macedo
  • Adolfo Soares de Macedo
  • Chico Traíra
  • Theógenes Amorim
  • Marcolino Wanderley
  • João Celso Filho
  • Albertino Soares de Macedo
  • Rômulo Soares Wanderley
  • Luís Sócrates Wanderley
  • Manoel Lins Caldas Sobrinho
  • Angelina Macedo
  • Francisco Amorim

Assu_2Poesia no Açu com cedilha

Percebe-se a hegemonia de algumas famílias, como a Wanderley, Caldas, Macedo, Soares, Amorim. Existem até outras, como a Sá Leitão, o que fez com essas famílias, ante a esse domínio, espalhassem poetas e literatos em geral por todo nosso RN.

Quando você ouvir ou ver um poeta com um desses sobrenomes aqui em nossas plagas, pode ter certeza que tem descendência no Açu com cedilha dos tempos de outrora (conheça a história do antigo Cine Teatro Pedro Amorim). Muitos outros poderiam ser adicionados a essa lista.

Eu destacaria João Lins Caldas, Moysés Sesyom, Maria Eugênia Maceira Montenegro e dois únicos dos vivos, Paulo Varela e Ivan Pinheiro, que ainda permanecem em nossa faixa terrena.

Cada poeta merecia um artigo, mil artigos, pela profundidade, vasta obra, publicada e não publicada, pelo bucolismo, regionalismo, ineditismo, por tudo que sobressalta e existe na magia dessa terra. Mas aqui grifarei alguns que ganharam certa visibilidade, para além dos confins de nossa terra.

Assu_Renato Caldas

Renato Caldas (1902-1991) é considerado o principal nome da poesia matuta potiguar; o assuense é autor de três livros e tem em Fulô do Mato (1940) sua obra máxima, já na sétima edição

Renato Caldas

Nasceu em 1902, em Assu, e faleceu na mesma cidade, em 1991. Lançou três livros: Fulô do Mato, seu clássico, lançado em sete edições, a primeira em 1940. Ele ainda lançou Poesias, Meu Rio Grande do Norte e o último, Pé de Escada. Foi considerado o maior representante da poesia matuta do nosso estado.

Moysés Sesyom

Nascido em Caicó em 1883, Sesyom foi para Assu em 1911, onde viveu boa parte de sua vida. Faleceu em 1932, boêmio e doente. Foi um dos maiores glosadores fesceninos do Brasil, poeta marcado pela literatura oral. Não escreveu nenhuma obra, mas Francisco Amorim, o Chisquito, deixou o livro Eu conheci Sesyom. O poeta foi destaque no filme O Homem que desafiou o diabo.

João Lins Caldas

Nasceu em Goianinha (RN), no dia 1º de agosto de 1888. Passou a infância e a adolescência na cidade da família de seu pai, Assu, para onde voltou, depois da vida atribulada no Rio de Janeiro, onde morreu no dia 18 de maio de 1967. Foi considerado o Lord Byron brasileiro, pelo teor pessimista e sombrio dos seus versos.

Não deixou livro publicado, mas depois publicaram por ele: Poética (1975) e Poeira do Céu (2009). Este último é uma tese de doutorado da professora Cássia de Fátima Matos dos Santos.

Assu_Sinhazinha Wanderley

Sinhazinha (1876-1954) tem sua obra quase toda inédita

Sinhazinha Wanderley

Maria Carolina Caldas Wanderley nasceu em 1876 e faleceu em 1954 na cidade de Assu. Dedicou a vida às letras e ao magistério, sendo reconhecida nesses dois campos de atuação. Era tia das famosas poetisas Carolina e Palmyra Wanderley (leia Poesia, Um Assunto de Mulher, de Nelson Patriota).

Seus poemas estão dispersos em praticamente todos os jornais e revistas literárias do Estado de seu tempo, como Revista Oásis, Jornal  A Cidade, Jornal do Sertão, Atualidade, de Açu, Almanaque Literário do Município de Assu, Jornal Rio do Grande do Norte, Gazeta do Natal e Via-Láctea.

Apesar de ter organizado os volumes Musa sertaneja, Trovas Infantis, Lira das Selvas, Palestras Infantis e Dramas Escolares, sua obra ficou inédita. Apenas uma pequena parte foi publicada com o título de Paisagem da Minha Terra, por ocasião do 145o ano de Emancipação Política do Assu.

Ana Lima

Ana Lima Pimentel ou Dona Sinhá, como era conhecida, nasceu em Assu em 1882 e faleceu em Natal, em 1918.

Assu_Ana LimaPoetisa sensível e autodidata, era leitora apaixonada. Colaborou em diversos jornais e revistas do Norte e Nordeste como  A República (1903), o Lyrio (Recife, 1903), Almanaque Literário e histórico do Município do Assú (1904), entre outros, utilizando muitas vezes o pseudônimo de Sinhá.

Em 1901, aos 19 anos, publicou o livro de poemas Verbenas, republicado recentemente pela editora Azymuth (aqui um comentário sobre Retalhos do meu sertão, de José Fernandes Bezerra), que vem resgatando a obra dos poetas assuenses. Aos 17 anos, ela escreveu o seguinte soneto, possivelmente em homenagem a seu pai, pois foi escrito no ano de seu falecimento:

Ontem à tarde, ao desmaiar do dia

As estrelas inquietas e medrosas,

Procuravam nas plagas luminosas

Uma outra estrela que fugido havia

 

Elas todas choravam silenciosas,

Cheias de medo e cheias de agonia

E o claro pranto das estrelas ia

Cair no seio das nevadas rosas.

 

Porém, mais tarde, quando a lua algente

Transpôs a curva triunfal do oriente

Noiva do sol, pela amplidão vagando…

 

Elas viram, do espaço interminável

A meiga estrela, pálida, adorável

Na doce luz do teu olhar brilhando.

Por fim, se eu fosse falar de todos, nem o céu seria o espaço suficiente, que venham próximos capítulos, inclusive mais detalhados, mais desbulhados… Viva!

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Manoel Cavalcante

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