Literatura

Quartos e outros quartos

Ilustração André Bergamini

No açougue literal da vida é assim: nós chegamos e, dependendo da ordem, seguiremos em uma fila a esperar o quilograma, respectivo ao valor pecuniário que trazemos no cofre-mão, que virá pressurizado, conservando, de modo artificial, a pressão que rompe das fibras da alcatra, do músculo e da víscera enodoadas de sangue em estado glacial.

No açougue da vida, quando insatisfeitos com o que não vimos e que, portanto, não autenticamos, não conferimos segurança ao carimbo das vigílias, timbrado por instituições de vigilância sanitária nas vilas/câmeras de gás que guardam quartos bovinos e outros quartos. Por isso, solicitamos, nós clientes, de forma direta e descortês à senhora da faca, o naco que a gula, em consonância com a visão, anseia e vislumbra em/com surtos caninos junto ao cheiro e ao paladar dos preás em tempos de inverno: gordos e imensos preás! E de quebra, repassamos à carniceira a torpeza vil da moeda corrente em vigor. Limpo argênteo, que, como obediente e domado marsupial, fixará residência momentânea no avental maculado de grená antes do próximo troco-cliente.

Já no açougue-vida a ordem é a desordem. Não a desordem do caos que, por beleza, pode brevemente aprisionar a criação, algoz do criador, em átimos de elevado devaneio místico/artístico/espiritual, para, só então, deixá-la livre nos abismos da ausência de linhas da inevitável liberdade de interpretar os signos do real e da realidade. Mas a desordem seca que nada cria e tudo extingue.

No açougue-vida a vida é seca. Vidas secas. Só há espaço para secas vidas. Secas, porque são incompletas no ciclo da existência. O evento gérmen se quer consubstancia o evento morte. O nascituro morre ao primeiro respirar e segue o seu réquiem comprovado pela inexistência da fenda na palma da mão direita que marcaria o que poderia ser nomeado de futuro. Essas secas sementes são como carnes embrulhadas – por cartões-moedas – que lhes pressurizam o ânimo. Ânimo, que inauguraria, catalisaria e redimensionaria, nos engenhos das cavernas, força e movimento para o enfrentamento à hostil condição humana. Ânimo que tem sido cerceado de maneira tal que o impulso para o intento quimérico, perde terreno nas estâncias das ações individuais e coletivas libertárias, e passa a integrar, de forma hipnótica, o exército distópico e anômalo das correntes que condicionam todos/as ao mugido bovino. Ao ladrar ecumênico.

Nesses dois açougues, o papel-embrulho terá descanso apenas quando decomposto na pedra e, com a virada da ampulheta, iniciar o desossar do fruto. Nesses açougues, as carnes seguem postas em impermeáveis sacolas de plástico!

(A ilustração do texto é do artista gaucho André Bergamini)

Share:
Italo de Melo Ramalho

Comentários

Leave a reply