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Que surjam cada vez mais contrapontos

Klimt

Vivemos tempos em que a opressão, o preconceito, hipocrisia e ignorância não têm limites. É certo que têm surgido contrapontos a isso. Pessoas mais tolerantes; menos consumistas e solidárias; cresce o número de vegetarianos e veganos; pais e mães que conversam com seus filhos; maridos que lavam a louça e fazem faxina. Mas não poderia deixar de falar sobre o caso da “filha de Deus” que semana passada xingou no Facebook, tripudiou e foi bastante desrespeitosa contra Mica Ferreira, a barbeira que foi vítima da violência endêmica do Rio Grande do Norte, na semana passada, em Nova Parnamirim. Micaela era seu nome (mas ela usava o Mica) era homossexual, sua vestimenta, corte de cabelo e até mesmo escolha pela profissão indicava isso. Sua morte violenta e estúpida não tem relação alguma com sua orientação sexual, como tenta sugerir a moça que fala em nome de Deus e que comemora quando uma pessoa nessa condição morre e “vai para o inferno”.

Que o opressor tripudie, xingue e seja violento com homossexuais, infelizmente, aqui acolá ficamos sabendo ou até mesmo presenciamos algo. Mas, violar o direito de quem já morreu, de quem, certamente, em algum momento da vida enfrentou o preconceito por sua orientação sexual, aí já é demais. Não é só ignorância, intolerância religiosa ou “falta de amor ao próximo”. É mau-caratismo mesmo, como bem disse uma amiga nas redes sociais sobre esse episódio. Tem muita gente que se aproveita de cargos e posições, de alguma instituição, do título e da religião para exercitar sua agressividade, dar vazão a algumas ou várias frustrações e trazer à tona sua absoluta falta de caráter.

E acrescentaria mais um elemento nessa lista: tem gente que se aproveita até mesmo de veículos como blogs para ofender, xingar, oprimir, chantagear e tirar proveito de algumas situações. O Rio Grande do Norte é um poleiro de gente assim.

Mica morreu levantando a voz sobre a violência que assusta a todos. Há pouco tempo ela tinha falado nisso em suas redes sociais. Nem precisamos mais passear pelos grandes centros para termos aquela sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. A iminência do perigo está na parada dos ônibus, no semáforo, nos restaurantes badalados, nas padarias, dentro das farmácias, no discurso inócuo dos que fazem a Segurança Pública e ficam sempre patinando em estatísticas, em termos como “mancha criminal” e, no entanto, todos sabemos que sem frota, sem armamento adequado, sem efetivo, sem bons salários e, também, sem preparação, os policiais que estão nas ruas podem ser tão perigosos e violentos quanto aqueles que eles combatem.

Mas opressão não pode ser maior que o direito de sermos quem somos, não pode tripudiar no direito de amar o outro – seja ele do mesmo sexo, seja ele de cabelo azul ou use salto 15. A opressão que sentimos pela incompetência na gestão pública e pelos abusos cometidos pelos agentes públicos não pode ser maior que nossa capacidade de nos indignar, de cobrar e de acreditar que a transformação pode acontecer. Aliás, já está acontecendo enquanto eu escrevo e você me lê. Porque se você concorda ao menos com parte do que escrevi aqui, já podemos somar mais alguém que acredita nos contrapontos.

 

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Sheyla Azevedo

Comentários

1 comment

  1. François Silvestre 16 julho, 2017 at 18:50

    Excelente texto. Só faço uma ressalva, sobre essa expressão “orientação sexual”. Isso é cientificamente falso. Não há orientação fisiológica. O sexo é uma expressão fisiológica do organismo. O individuo não exerce controle orientador sobre isso. Como não orienta a hora de cagar, mijar, arrotar… O problema é que o sexo, por produzir prazer, chamou sobre si essa carga hipócrita da “dignidade do normal”. Enquanto o normal, na aceitação estabelecida, encobre e agasalha uma soma incontável de configurações anormais, de taras e violências. Ninguém escolhe o prazer do seu gosto. É uma imposição orgânica. Não é escolha nem orientação. A nomenclatura equivocada colabora com essa patifaria preconceituosa. Que tem na formação judaico-cristã o amparo do preconceito.

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