Rastros no chão da memória

Thiago Gonzaga
LiteraturaMais

Eis que depois de anos reconhecido como pesquisador e professor, Humberto Hermenegildo de Araújo surge agora com uma obra de ficção, “Rastejo” (Caravela Selo Editorial, 2017), embora não seja iniciante na área das belas letras. Hermenegildo desde muito jovem trabalha com a arte da palavra, tem poemas seus na coletânea “Grande Ponto”, do Laboratório de Criatividade da UFRN (1981), e está incluso numa das mais importantes antologias poéticas do Estado, “A Poesia Norte-rio-grandense no Seculo XX”, de Assis Brasil (1998). Recentemente, em 2015 foi vencedor do Prêmio de Poesia do concurso “Coleção Vertentes” da Universidade Federal de Goiás, com o livro “Argueirinho/Visão”.

Escritor atento aos nossos valores, Humberto Hermenegildo de Araújo é um dos principais estudiosos da história do Modernismo no Rio Grande do Norte; vários trabalhos de sua autoria versam sobre Jorge Fernandes, Luís da Câmara Cascudo e outros escritores potiguares. Hermenegildo fez levantamentos de informações sobre as repercussões do movimento modernista no Estado, enfocando relações entre a nossa atividade literária e a vida cultural da região Nordeste nos anos 20, dentre outros aspectos. Além da publicação de livros, ensaios e artigos, o escritor acariense formou e orientou inúmeros alunos e pesquisadores que estudaram a literatura norte-rio-grandense, e foi um dos fundadores do Núcleo de Estudos Câmara Cascudo, na UFRN.

Mas, hoje, trataremos da sua estreia na difícil seara da ficção, mais precisamente, da novela, com “Rastejo”. Aliás, não se trata, necessariamente, de uma estreia, pois ele já havia publicado alguns contos, no inicio da década de 2000, em “O GALO”, jornal literário da Fundação José Augusto.

Neste seu novo livro, a narrativa condensa, proustianamente impressões do autor, de quando mudou-se de sua Acari, para a capital do Estado, no inicio dos anos 1970. Ou seja a narrativa é uma combinação de memórias e ficção. Vejamos um trecho do livro a seguir:
“…Aquela mudança era como se fosse uma brincadeira, mas de algum modo eu sabia que não teria volta, apesar de não ter aprendido o significado da expressão “nunca mais eu volto”. A poeira cobriu tudo e eu fiz um grande esforço para visualizar mentalmente o adeus que escrevera com um toco de carvão na parede do oitão da casa, na tarde anterior à partida” ( Pag.11)

O titulo da obra – “Rastejo” – muito feliz, remete para o sertão assim como “Navegos” de Zila Mamede remete para o mar. Notamos que a narrativa não tem um ápice, um clímax à maneira das histórias tradicionais, mas demonstra a capacidade do autor de envolver o leitor numa atmosfera um tanto indefinida, onde aparentam se misturar realidade e ficção, com momentos intensamente poéticos. Tudo bem expresso até mesmo com requintes de linguagem e estilo, tornando a leitura extremamente prazerosa.

Como gênero literário, “Rastejo” nos parece ser uma novela. Claro que isso de gênero não importa muito, mas, nessa obra – vale ressaltar – não há grande variedade de temas, e a narrativa se atém ao personagem principal; o foco não é bem a história e sim o próprio narrador. Um ou outro personagem que aparece, cumpre apenas função coadjuvante. Não se trata, pois, de romance. Sabemos que o romance é a modalidade mais complexa da ficção, contém personagens em número muito maior do que o conto e a novela, e, normalmente, desenvolve múltiplas tramas paralelas. Porém, o que importa é que “Rastejo” tem alto valor. Basta observar o preciso cuidado com o manejo da palavra, o zelo pela linguagem, em alguns pontos fazendo lembrar Guimarães Rosa, tanta é a inventividade verbal, que o autor demonstra possuir.

Humberto Hermenegildo de Araújo foi eleito recentemente para uma cadeira na Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Fica a dica de uma excelente leitura.

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Thiago Gonzaga

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