Realidade paralela e insensibilidade social

Tácito Costa
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Às vezes me pego refletindo sobre a insensibilidade das pessoas diante da dor, desespero e miséria alheias. Não sei se os casos em que isso ocorre aumentaram ou se apenas ganharam mais publicidade. Provável que as duas coisas.

Na semana passada um dos maiores empresários do país, em entrevista à Folha de São Paulo, disse que o Governo Temer deveria tratar das reformas e não do desemprego. A engrenagem da economia, para ele, é mais importante do que o ser humano.

Eu cheguei a pensar que ele defendia as tais reformas porque, na visão dele, elas poderiam diminuir o desemprego. Li e reli, mas não há ligação de uma coisa com a outra.

Textualmente, ele disse: “Tive a oportunidade de dizer ao presidente: sua grande tarefa não é tirar 3, 4 milhões do desemprego. Você não vai conseguir fazer isso. Sua grande tarefa é construir o Brasil do futuro, fazer as reformas que têm que ser feitas.” (leia aqui)

Temer nem precisava do incentivo para implementar sua política econômica e social que não foi referendada pelas urnas. Já vem cumprindo com audácia e apoio da mídia sua agenda que massacra os trabalhadores. Mas, claro, deve ter se regojizado com o peso das declarações.

Nessas horas sou levado a crer que essas pessoas vivem numa espécie de realidade paralela. Convivem apenas com sua família, abastada, e os empregados mais graduados de suas empresas. Quando saem de suas casas e empresas entram nos seus aviões particulares.

Vivem em uma bolha. Não vêem e ouvem as coisas que nós, pobres e comuns mortais, que andamos pelas ruas, becos, bares, hospitais e escolas públicas vemos e ouvimos todos os dias.

Num contexto desses é difícil para a elite ter compaixão ou se sensibilizar com o drama dos milhões que não têm emprego ou comida. Ou mesmo apoiarem políticas públicas que amparem os sem nada na vida.

Talvez melhorassem se, caminhando pela cidade, enxergassem a quantidade de ambulantes ao sol inclemente nas praias e canteiros das avenidas; de pedintes em nossas portas; a dificuldade para conseguir exames de saúde na rede pública; a pessoa que está desempregada e sem perspectivas de trabalho tão cedo; os sem tetos perambulando em busca de alguma comida; as condições dos presídios, hospitais, alberques, asilos e escolas públicos…

Se levassem uma vida “normal”, fora da bolha milionária em que vivem, é possível que essas pessoas se angustiassem (pelo menos!) com a revoltante realidade brasileira. Quem sabe um dia isso aconteça.

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. Ruben G Nunes 6 fevereiro, 2017 at 17:58

    Meu caro Tácito
    Brau!
    MaIs um brilhante sério objetivo artigo teu sobre os enroscou políticos da nossa economia.
    E eu também diria que é uma abordagem equilibrada e não radical . É profissional e por isso também universal.
    Daí que a crítica social que transborda de teu texto, a meu ver , também é justa para os desmandos políticos econômicos e de corrupção do governo petista.
    Meus respeitoso
    Ruben G Nunes

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