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Redes sociais e lentidão

Imagem Grátis de Pensar Depressa e Devagar - Pessoa Abstrata com Rodas Dentadas

Não tenho como acompanhar o ritmo das polêmicas nas redes sociais. Todo dia pipoca uma, duas. Algumas vezes gostaria de escrever sobre alguma delas. Amigos me incitam. Mas sou lento que só a moléstia.

Tenho necessidade de conhecer melhor os temas em debate. Ler as várias opiniões, sobretudo, dos especialistas. Ponderar e refletir. Resultado, passo batido na maioria das discussões.

Acontece às vezes de não conseguir formar uma opinião categórica e ficar cheio de dúvidas. Então, claro, fico ainda mais na minha.

Nas vezes em que me acho mais ou menos preparado para opinar, já se passaram dias, várias outras polêmicas surgiram e fica esquisito falar de um negócio que ocorreu há três, quatro dias e foi enterrado porque surgiram novas e urgentes questões em debate.

Não escondo que sinto certa inveja do pessoal que mal o assunto ganha ares de polêmica já emite uma opinião e parte para a briga. Pode ser sobre o que for, o topete de Trump, a morte de Kim Jong Nam, apropriações culturais, marchinhas politicamente incorretas, as mesóclises de Temer, proibição de vaquejadas…

Eu já estava pensando em escrever sobre essa minha ‘inadequação’ às redes. O que foi reforçado por dois artigos que li recentemente que tratam da questão da opinião nas redes sociais.

Um de Arnaldo Bloch, publicado em O Globo. O outro de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo. Se tiver um tempinho leia.

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Arnaldo Bloch (O GLOBO)

Opiniões

Todo mundo tem, e sempre teve, opinião. Há dois tipos clássicos, que, juntos, deságuam nas várias correntes. O primeiro tipo é o que, na falta de opinião melhor, por imposição, medo ou preguiça, assume a opinião dos outros como sua. Costuma-se dizer que é um “sem opinião”. É o maria-vai-com-as-outras, que adora um “Fla-Flu”. O segundo tipo é o que, após refletir sobre as opiniões alheias, junta informações, ouve a intuição e forma uma “opinião própria”.

O primeiro tipo envolve redução: indisposta a pensar, a pessoa procura um campo de opiniões opostas, escolhe uma e fica satisfeita por pertencer a um time. O segundo tipo deixa lugar para, no mínimo, uma terceira opinião. É o sujeito que, em vez de escolher um lado, diz: “Depende”. E muda, na hora, a regra do jogo: as outras duas partes vão ter que se virar nas onze. Criar algo. O jogo fica tridimensional. Como é, aliás, na vida.

Tridimensional é pouco. Pensar é múltiplo. Ouvir quatro, cinco, n opiniões é sair do mundo dual da guerra para o dial de um rádio (ou o visor de um player aleatório). Ouvir esse “rádio” dá prazer a quem preza a liberdade, o conhecimento, quer se renovar e não aceita qualquer ideia fácil.

A era digital trouxe uma multiplicação dos meios de expressão dentro de um mundo interconectado e espelhou os costumes numa dimensão pantribal. A opinião, e sua difusão imediata, principalmente nas redes sociais, é exercida ao sabor dos acontecimentos (objetivos e subjetivos) e suas repercussões. O que é bom… Não, é ruim. Peraí…

Depende!

Depende de qual dos dois tipos prevalece. Ouvem-se cada vez mais reclamações de usuários da rede contra essa adesão imediata a opiniões do primeiro tipo, com um agravante: a ideia de que qualquer expressão é opinião, mesmo que seja fruto de um simples impulso ou desprovida de base.

Em alguns casos, qualquer ideia preconcebida pode se transformar em opinião. Exemplo: um sujeito diz, ou escreve, que todos os índios adoram beber cachaça. Uma amiga responde que o que ele chama de “índios” é um conjunto de diferentes etnias, com hábitos diversos; que depende do grau de isolamento, de suas disposições culturais; e que, mesmo aculturadas, há tribos nas quais se bebe cachaça e outras onde só se bebe água, mingau de pupunha e chás, que proíbem a entrada de álcool etc. Mesmo que a amiga cite exemplos, mostre o mapa, dê o endereço, o sujeito vai, simplesmente, responder:

— Não interessa. É minha opinião. Respeite.

Tem que respeitar. Inclusive puristas que dirão que povos indígenas têm uma superioridade inata. Mas, nunca, calar quando a ignorância impera.

Nas semanas que passaram vimos um caso em que opiniões degeneram em perversão: os posts que circularam comemorando a morte de Dona Marisa se tornaram virais. Festejar a morte da mulher de um ex-presidente (não se trata de uma tirana genocida) é uma atitude filhote da épica batalha entre coxinhas e petralhas. O lado oposto faria o mesmo se morresse a mulher, ou a mãe, do opositor, ainda que essa fosse Madre Teresa.

Estamos na Era da Opinião. Todo mundo tem uma, mesmo que não seja opinião, mas uma frase qualquer, uma crença louca. Quem não tem, pode escolher. Até comprar. Na minha opinião, o Sol gira em torno da Terra. Tem que respeitar. Quem quer, enfim, saber de discussões que fazem pensar, versus “enquadrar-se” ou “pertencer”?

Muita gente. Trata-se de uma minoria? Sim. Uma minoria acentuada, formada por tribos de índole mais pacífica, ponderada, curiosa, aberta. O tipo de gente que até busca um pertencimento, tem preferências. Mas, quando pega um jornal, um site, quando vê TV, quando debate em rede social, gosta de ler opiniões diversas, e atenção: nem sempre opostas. Sabe que formadores de opinião, estejam dentro de um escopo editorial, sejam celebridades, seja um porteiro de casa, indicam modelos de pensamento sem impedir que uma nova opinião se forme. Assim, ao se propagar, realimentam um círculo dialógico, dialético. Que é, sempre, virtuoso.

Mas fica difícil, pelo comportamento predominante nas redes, abandonar a impressão de que a maioria está metida em batalhas inúteis, muitas das quais entre irmãos, pais e filhos, amigos. Batalhas que têm como meta, mesmo inconsciente, acabar com o debate e inibir a livre circulação de ideias.

Esse comportamento é das pessoas, não é da internet como meio em si. Mas em escala pós-industrial. A maneira como Google, Facebook, grandes provedores e a comunidade megadata, com seus algoritmos, lidarão com isso vai determinar se o segundo tipo (o da terceira, quarta, quinta opinião) vai prosperar, ou até sobreviver.

Ou se será o primeiro, mais indefeso, que prefere que uma máquina decore seu perfil e faça as escolhas em seu lugar, sem que se dê ao trabalho de olhar o que há para se escolher do lado “de fora”. É um indivíduo tendente a cometer suicídio mental e a viver do ópio dos dados.

O outro, que ama ponderar, se não for extinto, é, ainda, capaz de “conversar” com o ambiente, guinar e mover o leme numa direção mais segura. A ver.

 

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Contardo Calligaris (FSP)

O ignorante não sabe que o é

Lena Dunham é a autora e a protagonista de “Girls”, o seriado da HBO que estreia sua última temporada nesta semana. “Girls” é “Sex in the City”, mas para gente grande –o que é irônico, porque o pessoal de “Girls” é mais jovem do que o pessoal de “Sex in the City”.

Enfim, Lena Dunham, conversando com a Folha (12/2/17), reconheceu corajosamente: “Tenho forte opinião sobre tudo. Mesmo em tópicos sobre os quais sei pouco a respeito”.

Talvez você não goste de Lena Dunham e pule de alegria porque ela finalmente admitiu o que você sempre pensou dela (ou seja, que ela é “metida” mesmo). Pois bem, não pule. O que Dunham disse é apenas uma regra universal e incontestável: ao tomar posição sobre qualquer tópico, quanto menos soubermos, tanto mais mostraremos e sentiremos uma certeza absoluta. E quanto maior nossa incompetência, tanto maior será nossa convicção na hora de agir.

Em 1995, o sr. McArthur Wheeler assaltou dois bancos depois de molhar o rosto com suco de limão, absolutamente convencido de que o suco funcionaria como tinta invisível e não deixaria seu rosto aparecer nas gravações das câmeras de segurança. Todos podemos ter ideias erradas, mas só os grandes incompetentes se avaliam como extremamente competentes.

O fenômeno foi comprovado em 1999 por David Dunning e Justin Kruger, psicólogos da universidade Cornell, numa série de experiências com a prática médica, o jogo de xadrez, a capacidade de dirigir um carro etc. Em cada caso, as pessoas incompetentes não reconheciam o tamanho de sua incompetência –só começavam a reconhecer sua incompetência efetiva se e quando elas treinassem e se instruíssem para tornar-se competentes.

Ou seja, quanto mais a gente é ignorante e incompetente, mais a gente tem certezas radicais e passionais. Inversamente, quem se afasta de sua incompetência (informando-se ou formando-se) torna-se mais humilde e mais disposto a duvidar de si.

Em suma, ignorância e incompetência produzem uma ilusão interna de saber e competência. Inversamente, saber e competência produzem uma certa auto-desvalorização do sujeito, que passa a duvidar de si.

É possível pensar que a certeza passional seja uma maneira de compensar (e esconder) nossa própria ignorância ou incompetência.

Mas, de qualquer forma, a explicação é intuitiva: quanto menos eu souber (do que for: de motor de carro, de política econômica, de teatro, de amor etc.), tanto menos saberei medir o que não sei. Inversamente, quem sabe mede facilmente que só sabe uma pequena parte do que gostaria de saber.

Sócrates dizia que ele só sabia que nada sabia. Por isso mesmo, o resultado da pesquisa pareceu tão esperado que Dunning e Kruger, em 2000, ganharam o prêmio Ig Nobel de irrelevância. Mas Dunning continuou e, em 2005, publicou um livro, “Self-Insight”, cujas implicações são úteis.

Em época de grandes paixões e conflitos –ou, como se diz, de polarizações– mundo afora, vale a pena lembrar que a certeza (ainda mais quando for passional) é proporcional à ignorância e à incompetência.

Aplique isso ao campo da moral, da política e da religião: a ignorância é a grande mãe de quase qualquer extremismo.

O psicanalista Jacques Lacan disse um dia que só os teólogos conseguiam ser verdadeiros ateus: o saber e a competência nos afastam da certeza.

Enfim, alguém poderia se preocupar especificamente com uma consequência disso tudo: se a ignorância e a incompetência nos oferecem certezas (falsas, mas tanto faz), será que isso não significa que os ignorantes e os incompetentes são os mais aptos a agir?

Será que o excesso de competência e de saber nos levariam a dúvidas sofridas e, portanto, à incapacidade de agir?

Por exemplo, deve ser fácil decidir a política dos EUA a partir do noticiário da televisão, mas se você lesse e estudasse todos os relatórios preparados pelas diferentes fontes que informam o presidente, então a tomada de decisão se tornaria complicada, hesitante.

Obviamente, essa não é uma razão para se render à facilidade da incompetência. Tampouco é uma razão para não agir. Para agir, é preciso aceitar que a qualidade de um ato apareça nas dúvidas e não na certeza de quem age, porque, como já dizia Touchstone, o bobo de “As You Like it” (mais de 400 anos antes de Dunning e Kruger), “o idiota pensa que é sábio, enquanto o sábio é aquele que sabe de ser idiota”.

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Tácito Costa

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