Relembranças

25 de maio de 2010 às 18:40 - 2 Comentários
Por Carmen Vasconcelos

Apesar do medo e do cansaço, a vida segue. Tem horas de tanto cansaço, de ele ser tão intenso, que dá medo de entronizar o senhor cansaço. Não gosto de me dar o direito de cansar. Como um poema muitas vezes fustigado, também eu limei as unhas, aparei arestas, arranquei adornos e rompi com a segurança do politicamente correto. Como um poema sem acolhida, fiquei à intempérie. Como um poema perjuro, e todo poema é perjuro, neguei a ti três mil vezes, fragilidade. Não te dei nome, porque não se nomeia o pecado. O pecado fica, oleoso e amorfo, dentro. Não tem nome. Mas, como uma rêmora, eu me apeguei a ti, aproveito os teus restos, as tuas involuntárias doações.
Ah, fragilidade… Neste momento há um filho chorando a morte de sua mãe, e isso, que é tão grande, não é nada diante da mãe chorando a morte do seu filho. E neste instante, chora uma mãe a morte de seu filho. És tão grande, fragilidade!
Hoje eu abri todas as portas, mas não como Fernando Pessoa. Não por força eu haveria de passar*. Eu as abri por necessidade alheia, havia pessoas na casa que precisavam passar coisas por elas; porém no dia em que abri as portas, percebi uma proximidade maior nas pessoas da rua. É como se uma espécie de intimidade se formasse repentinamente, embora a intimidade tenha natureza demorada.
O carroceiro passou, olhando o movimento de móveis e gente. O carteiro fez mais: veio varanda adentro, veio à sombra, seu sorriso pedindo licença para abrigar-se um minuto. O entregador de marmitas também colocou a moto na garagem.
No geral, tenho medo de estranhos e de assaltos. Por isso, não abro portas, a não ser quando chega alguém e se identifica. Mas nesse dia de portas abertas, deu-me uma saudade de outros dias, quando não havia medo nenhum de abrir as portas.
Há muitos anos minha casa era outra e era aberta constantemente e constantemente inundada de sol e de gente. Entravam pessoas o tempo todo e tão acostumados estavam a entrar sem bater que até pareciam moradores. Frequentadores diários, faziam parte da rotina da casa. Ajudavam a manter a personalidade coletiva do meu lar, doce lar.
Havia os ajudantes e os agregados dos ajudantes. Havia os vizinhos. Havia os amigos dos meninos. Havia também a vendedora de tudo. Essa arranjava coisas para vender e vinha à nossa casa. Não é que precisássemos dos seus produtos, mas ela precisava vender, então, inventávamos alguma necessidade. Uma vez veio vender limões, dentro de saco que tinha de ser esvaziado para ela colocar mais produtos. No momento, não havia vasilhas à vista e ela não contou conversa: deu de garra do cesto de papéis do banheiro, que no momento estava vazio, e se não fosse a agilidade de mamãe, os limões seriam jogados lá dentro. E ainda justificou: o cesto estava lavadinho.
Havia o vizinho que todos os dias, às cinco da manhã, vinha tomar o café coado por mamãe. Muito pouca gente batia à porta, naquele tempo e naquela casa. A maioria entrava, e só víamos quando estava dentro, já bem acomodada em cadeiras e corredores.
Hoje, deu-me uma saudade do impensável. Deixar portas abertas, para que gente entrasse, de um jeito farto, como só o sol pode.

* O poema a que aludi é “Saudação a Walt Whitmann”, da “pessoa” Álvaro de Campos.

2 Comentários

  1. Jarbas Martins
    25 de maio de 2010

    Poesia pura, para além dos formalismos.Poeta e musa angicana.

  2. Lala
    31 de maio de 2010

    Nas lembranças e na saudade que o sol aquece, você disse tudo! Parabéns!

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
    • Jarbas Martins: Sai dessa, M.Couto. - À sombra da ditadura
    • Jarbas Martins: Tô contigo, Alex. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”