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30 de janeiro de 2010 às 7:59 - Envie para o twitter

Resposta a um notável intelectual natalense

Por fernando monteiro

Caro amigo Laurence Bittencourt:

Logo após a morte do rei Akhenaton – e durante aqueles três reinados que puseram fim à dinastia – realmente não temos motivos para crer que a cidade de Aton, construída pelo “faraó herétido” para ser a capital do primeiro monoteísmo da História, teria sido completamente abandonada.

Não se descarta uma capital – mesmo breve – como se fosse a pele de um peixe imprestável.

Mas, os autores que usam de patins para deslizarem, entre coquetéis gelados, sobre as ruínas abandonadas etc, “descrevem” como a cidade foi logo depredada, sendo que alguns se improvisam em repórteres atrasados, para dar conta de “cães ainda presos no canil real”, quando os habitantes, em procissão, começariam a abandonar a primeira das “cidades sagradas”. Só faltam dizer a que horas, de uma determinada tarde, há três mil e trezentos anos, se deu o acontecimento que narram com detalhes…

O que deve ter havido, pelo contrário, foi, mais provavelmente, algum acordo conciliador com os (de novo) poderosos sacerdotes tebanos. É assim que sempre terminam as melhores coisas: num acordo dos piores, que sela o destino mais alto e nivela o sonho dos sonhadores acordados com algum “abandonar de ossos” não de todo improvável. Com Amarna, deve ter sido assim, embora não saibamos exatamente quando e como. A capital de Akhenaton se conservou, mesmo precariamente, até o reinado do general Horemheb, sobre quem há pelo menos uma boa coisa a dizer: ele teria ordenado fazer restaurações de alguns prédios etc. Era um soldado, e os soldados gostam de organização e de cuidado com as coisas materiais, o patrimônio, os bens duráveis, não importa que o tesouro mais rico da cidade – a sua crença abstrata – o general já não pudesse compreender, quando se recordava daquele estranho faraó a quem servira como comandante-chefe (de tropas quase nunca mobilizadas). Mas, a XIX ª dinastia, essa sim, devotará especial ódio àquele aspecto do passado – e promoverá o total abandono da capital do atonismo e o descrédito, final, de um rei considerado até “criminoso” etc etc. A glória de Ramsés parece que precisava da desgraça de Akhenaton – e o faraó vulgarizado pela imagem de Yul Brynner, no filme – de Cecil B. de Mille – “The Ten Commandments” (1956) -, se lançaria à obra de repúdio total à crença e ao reinado do faraó monoteísta, que (esta é a minha opinião) terá “contaminado” o jovem Moisés um pouco mais tarde do acreditou o genial Sigmund Freud.

Seja como for, com Yul Brinner e sua careca faraônica, estamos em pleno terreno do Êxodo hollywodiano,
que popularizou também o iracundo Moisés de Charlton Heston, com aquele “Decálogo” atirado às cabeças dos judeus adoradores do Carneiro (Amon). E isso nos traz para o meio do assunto “monoteísmos de Akhenaton e de Moisés”, o condutor de um povo que Deus teria escolhido para receptor de sua Mensagem, com exclusividade. Se Deus assim o fez, parece que Ele achou por bem se revelar duas vezes, porque, conforme ensinou Freud, temos a primeira, SEM DÚVIDA, no Atonismo. Essa religião (ou, pelo menos, a sua memória perseguida) deve ter ajudado a plasmar o segundo monoteísmo – pela visão mística (e consciência de homem livre) de Moisés. No combatido Atonismo, o profeta dos judeus certamente encontrou forças para revelar o deus único dos hebreus, uma vez que a influência de Akhenaton ainda devia ser razoável – no mínimo por gozar da aura das causas perdidas – quando surgiu o ex-príncipe egípcio (que, realmente, foi Moisés na sua juventude) no horizonte da História. Retornado do deserto para Tebas, com as suas habilidades de “mágico” e pragas de gafanhotos, o segundo monoteísta adentra a história (religiosa) provavelmente no tempo dos raméssidas – o que talvez aponte para a verdadeira causa da campanha, a posteriori, na qual se lançaram os faraós dessa linhagem, contra uma fé (o Atonismo em parte conservado pelo general/rei Horemheb, recordemos) que continuava viva e capaz de contaminar os povos vassalos…

É a lógica que ressuma de alguns fatos aproximados; não há artifício nisso, nem se torce o pescoço da história, ao se juntar os dados, com elementar sentido do que veio antes e depois: Moisés viveu no Egito de após Akhenaton, entre 30 e 50 anos da reforma em nome do deus único, em contato com a corte e com o impacto, que ainda se fazia sentir, dos sentimentos “anti-egípcios” então associados à religião de Amarna. Não mais de meio século depois, o profeta do Êxodo vai fazer o mesmo tipo de revelação à sua tribo arrastada para o deserto que bordejava a capital tebana, com o firme propósito de fazer vaguear a sua gente, pelo Sinai, a fim de torná-la merecedora da “Terra Prometida”. Tudo isso acontece sob o temor e o fascínio de “Iaveh” – desde a sua revelação ao guia do povo “escolhido” pela divindade (uma espécie de versão, também luminosa, do luminoso Aton). Apesar de se tornar, depois, um deus bem judaico – no temperamento colérico e belicoso –, lá está, no momento do anúncio da missão “nacional” de Moisés, a forma de Sarça Ardente pela qual Iaveh se apresenta ao futuro profeta: é quase como um Disco Solar que ele não consegue encarar, naquela pura luz que emana do arbusto incandescente. E é o mesmo deus de claridade que, mais tarde, no começo da jornada para longe do Egito, riscará os “dez mandamentos”, a fogo, nas duas estelas que a fúria de de Moisés lança, espetacularmente, sobre os infiéis da tribo. O filme de De Mille é conhecido – e a Bíblia dos profetas mais ainda: o “Livro dos Livros” (estamos em pleno território das maiúsculas) ensinou à humanidade tudo o que ela precisava saber… exceto fatos tais como o monoteísmo de Moisés ter sido o segundo da história, se é que isso não parece de todo desimportante – face à visão “cristalizada” que temos dos chamados fatos bíblicos. Enfim, viva Freud, na sua descoberta e coragem de divulgá-la, em 1939, para o choque da comunidade judaica internacional, como todos que conhecem o assunto (como Vosmicê) sabem muito bem. Obrigado pela abordagem do assunto, talvez “intrincado” para o gosto pelas chamadas amenidades, também mostrando a cara, às vezes, neste bravo “Substantivo” do nosso Tácito Costa.

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