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Um pouco de poesia em meio ao problema do sistema prisional

detalhe da capa do livro

Boteco também é cultura

Cachaça pura é pintura

conversa fiada é soneto

tira-gosto farto, escultura

piada sem graça, cianeto

Um bêbado vira equilibrista

na corda bamba chamada banheiro

garçom parece o maior artista

pendura, fiado, estou sem dinheiro

música brega é sinfonia

rima pobre vira poesia

a vida de bar é filosofia

pedra mole é água dura

nos derruba, ninguém segura

boteco também é cultura!

 

O poema acima foi escrito magistrado Ricardo Antonio Menezes Cabral Fagundes, responsável pela Vara Criminal de Currais Novos, e faz parte do livro “Diálogos”, que será lançado, juntamente com outra obra sua sobre o Sistema Prisional Brasileiro, na próxima sexta-feira, 7 de abril, em Natal. Os dois lançamentos são uma realização da Editora Caravela Selo Cultural.

Indagado sobre quem nasceu primeiro, o poeta ou o juiz? Ricardo Cabral confessa que o poeta foi o primeiro que apontou: “Primeiro tentei ser poeta. Como não consegui, estudei um pouco e passei no concurso público para o cargo de Juiz Substituto do TJRN em 2004 e estou nessa função até hoje”, brinca e lamenta que a dureza da vida forense tem deixado sua alma poética em segundo plano.

Mas, ao decidir lançar em livro sua tese de Mestrado, intitulada, “O Sistema Prisional Brasileiro Frente à Omissão Estatal e ao Estado de Coisas Inconstitucional”, no qual ele faz uma análise do controle jurisdicional de políticas públicas nessa área, Cabral desengavetou sua produção poética, escrita entre 1998 a 2011 e resolveu lançar tudo junto. “Advirto que muitos desses poemas são ingenuidades escritas ainda no final da adolescência, mas resolvi publicar mesmo assim. Às vezes a ingenuidade de um jovem pode encantar algumas pessoas. Espero que possa despertar um pouco de romantismo em seus cérebros e corações”.

Misturar duas obras tão diferentes, uma aparentemente mais leve e outra visivelmente árida, foi proposital segundo o escritor. “Aparentemente poesia e crise no sistema prisional são incompatíveis, principalmente pela realidade caótica dos estabelecimentos prisionais brasileiros. Quis mostrar, por outro lado, que é possível pesquisar e dissertar sobre um tema tão árido como este e, simultaneamente, ter a sensibilidade para escrever um poema. Pode ser que alguns leitores entendam que se trata de uma sugestão subliminar de leveza. Eu entendo que só a poesia pode amenizar as intempéries da vida. Por isso temos que viver poesia a cada dia”.

O livro, digamos, mais “duro” é fruto de sua tese de Mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Direito, na UFRN. Possivelmente um dos poucos livros no Direito que tratam do tema com esse enfoque. Dois grandes nomes do Judiciário brasileiro: Walter Nunes Júnior e Luis Alberto Gurgel de Faria fazem apresentação e prefácio do livro. “Muito se fala em crise do sistema prisional brasileiro. Entendo que essa terminologia é equivocada porque sugere um período antecedente de ‘normalidade’ e um consequente evento ‘cataclísmico’ pontual que enseje uma reação em cadeia tendente a abalar o sistema em estudo. No caso do sistema prisional brasileiro, percebe-se que há anos os gestores da coisa pública não têm enfrentado a questão penitenciária de forma adequada, o que implicou apenas no agravamento reiterado dos problemas ao longo do tempo”.

Diálogos foi escrito entre 1998 e 2011

“Diálogos” foi escrito entre 1998 e 2011 e a foto em destaque é um detalhe do livro sobre o sistema prisional brasileiro

O que?

Lançamento de “Diálogos” e “O Sistema Prisional Brasileiro Frente à Omissão Estatal e ao Estado de Coisas Inconstitucional”

Onde?

Restaurante Santa Maria, localizado na Rua Rodolfo Garcia, 2147-C, Lagoa Nova, Natal-RN

Quando?

Sexta-feira, 7 de abril

Quanto?

R$ 70 e R$ 30.

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