Rimbaud e as perguntas que não querem calar

22 de abril de 2010 às 18:24 - Comentar
Por Nelson Patriota

A ambiguidade da obra de um artista aliada a uma vida aventureira são garantias de perenidade literária? Na opinião do crítico americano Edmund White, a resposta é afirmativa, caso se trate da obra e da vida do poeta Arthur Rimbaud. Em outras palavras, teríamos a seguinte equação: Visto pelo lado da obra, tem-se em Rimbaud um caso único de construção de uma obra poética precoce e circunscrito a quatro ou cinco anos.  Quanto à sua biografia, rica em aventura e mistério, seria o anverso dessa moeda que pôs em circulação em todo o mundo o mito Rimbaud, e que não cessa de se valorizar no mercado das letras.

Evidentemente, pode-se acrescentar ao dístico rimbaudiano um terceiro protagonista que, por si, já vale uma “biografia inglesa”. Trata-se do poeta Paul Verlaine, simbolista que escreveu alguns dos poemas mais musicais e líricos da poesia francesa.

Mas é isso que acontece com cada nova biografia de Rimbaud: realiza-se acentuando, não esclarecendo, o mistério que cerca a vida do poeta adolescente, e do não poeta da maturidade. Em outras palavras, o que explica (se algo o faz) a transição da poesia para o tráfico de armas, a troca da vida cosmopolita de uma Paris buliçosa e vibrante por uma vida trânsfuga, de autoexilado, de fora-da-lei?

Mudança tão radical na biografia dos poetas é talvez o aspecto mais assombroso da vida de Arthur Rimbaud. É verdade que sempre houve poetas rebeldes, arredios aos encantos da vida burguesa, avessos aos apelos da sociedade, e que, num rompante, se lançaram mundo afora, como peregrinos de uma causa não verbalizada, em busca de um deus desconhecido, de uma graça indisponível na terra.

Esses exemplos de rebeldia parecem inofensivos, quando comparados ao gesto irreversível feita por Rimbaud, sabe-se lá por quê. E é por não sabermos esse único porquê, que continuamos a nos interrogar sobre ele.

Recentemente, uma fotografia de um suposto Rimbaud adulto foi encontrada por acaso num mercado de pulgas de Paris. Especialistas consultados a respeito, garantem que se trata de uma foto de Rimbaud, tirada em 1880 num hotel de Aden, no Iêmen, quando o poeta tinha 26 anos.

Ao redor do poeta veem-se pessoas, possivelmente europeus, – cinco homens e uma mulher, esta, à direita do poeta, todos colocados sobre um estrado. Ao fundo abre-se o vão de uma porta como de um armazém. Apenas Rimbaud e um cidadão desconhecido, com porte militar, estão de pé encarando a câmera. A indiferença dos demais não é menos surpreendente!

Nada resta da vida que animou essa cena de enquadramento correto. Teriam tido um dia bom? Seriam meros vizinhos do poeta, com os quais ele proseava nas horas livres, quando não dispunha de armas para contrabandear ou haxixe para amenizar as agruras da vida selvagem? Quem sabe, lembrava de episódios pitorescos da vida parisiense nessas conversas? Ou das desavenças que teve com o amigo Verlaine, logo após o rompimento do seu affaire com o autor de Sagesse? Ou seria de desprezo sua última impressão sobre o mundo dito civilizado?

Uma simples foto, poupada ao tempo e atravessando 130 anos, nos chega como um fato isolado, indevassável em sua singularidade e, ao pouco que nos fornece de informações, nos cobra intermináveis indagações que apenas reforçam os aspectos míticos da biografia do poeta. Nada parece ameaçar seu domínio sobre nossa imaginação, refém de sua história sem paralelo, cuja única porta concreta é seu barco ébrio sempre a caminho de uma estação no inferno.

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”