Rio Bravo

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“Escrever memórias é libertar-se, é fugir. Temos dois terrores, a lembrança do passado e o medo do futuro. Pelo menos um, a lembrança do passado, é anulado pela catarse de passá-la para o papel”.
(Pedro Nava – anotação na primeira página dos originais do livro Baú de Ossos, 1968)

“A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.”
(Carlos Drummond de Andrade – poema Liquidação, 1968)

À José Baltazar dos Santos

Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959) é um filme de Howard Hawks.

Coloquei para ver na manhã do último sábado de São João. Mais do que os outros westerns vistos ultimamente, levou-me de volta a um tempo em que, ao lado do meu avô, vi muitos exemplares do gênero na Sessão Western da Rede Globo, que, salvo engano, passava aos sábados. Particularmente, esse Hawks mobilizou meus instintos, sinapses e eletrodutos neurais rumo ao labirinto da memória, jogando-me, mais ou menos, para meados dos anos 80 do século passado.

Sobretudo porque é um filme que tem John Wayne assumindo o personagem central: um ator que meu avô gostava de ver na tela, que apontava para a imagem todas as vezes que Wayne aparecia; e vibrava com o seu destemor de herói e bravura de todos os homens. Víamos seus filmes, em alguns casos, mesmo com a imagem mutilada; com a continuidade e cadência do filme interrompidos pelos intervalos da TV; e independente dos demais intervenientes – causados pelos desavisados que passavam na frente do monitor, conversavam ao lado e abriam as janelas deixando o ambiente mais iluminado do que o necessário. Mas não conseguiam tirar o nosso foco.

E víamos tão somente pelo “gosto de ver”.

Sem essas mediações estranguladoras e reguladoras do “bom gosto”, sem os críticos e hermeneutas que esquadrinham as obras a apontarem cada instante de produção de sentido, significado, construção e criatividade estética e domínio da encenação; que ficam, o tempo todo, a perceberem nuances em cenários, iluminação, figurino, maquiagem, profundidade de campo e em outros elementos da linguagem.

(Não sabíamos que existia sequer uma linguagem, nem que existiam os franceses e uma tal hermenêutica da imagem; a mise en scène, os Cahiers du Cinéma, o scope, aspect ratio, technicolor etc).

John Wayne era um dos atores que o Velho mais gostava, – aliás, um dos personagens que o meu avô mais se identificava. (Na verdade, aos nossos olhos, não havia ator e seus stanislawskis e brechts, muito menos personagens e suas tipologias clássicas, modernas ou pós modernas, com seus parâmetros dramáticos, a-dramáticos, teatrais, autônomos ou com outras dimensões de interpretação que, em um e noutro caso, reduzem-nos a meras marionetes do roteiro e/ou da direção).

Mas, depois de tantas vírgulas, travessões e parênteses, voltemos:

Competindo com John T Chance (que Wayne interpretou neste Hawks, e também outros que incorporou nos demais filmes que atuou), tinha os personagens de Terence Hill e de outros westerns spaghettis, bem como Sabata e diversos anti-heróis que tomavam nossas tardes de sábado. (Não sabíamos também o que era Western Spaghetti e suas releituras e imitações do gênero ou que tinha sido transplantado da América para a Itália, com todo o vigor estético e narrativo).

Nem sabia o Velho, nem muito menos eu!

Terence Hill, que incorporou um personagem meio bizarro e cômico e, como meu avô dizia, ligeiro, tornou-se imbatível aos olhos do Velho e o levava a doses cavalares de alegria e prazer diante da tela. Talvez agora, em retrospectiva, vejo que suas adorações pelo sujeito de olhos claros e riso no canto da boca, que encarnou Trinity em mais de um filme, eram maiores e mais significativas do que por John Wayne.

Depois percebi, muitos anos depois – há pouco quando terminou Rio Bravo (título bem menos irreal do que o dado no Brasil a esse filme de Howard Hawks, mesmo que eu não entenda completamente o por quê, nem queira ir atrás para confirmar minhas hipóteses), percebi que o mundo dos westerns, de certo modo, estava encravado no imaginário do Velho, com seus cavalos, arreios, cocheiras, selas, montaria, campos e paisagens áridas; com seus homens bravos e destemidos, com suas armas no coldre e seus chapéus; e, em muitos casos, com o desbravamento e enfrentamento contra os obstáculos da natureza.

O Velho, que vivera no campo e em pleno sertão quase toda a vida, que só saiu para a cidade depois da expropriação de suas terras para dar lugar a um enorme reservatório hídrico na região, talvez estivesse olhando para um espelho quando víamos juntos as Sessões Westerns, sem saber sequer que existia prazer estético, efeito estético, distanciamento, ilusão e/ou imersão narrativa no cinema etc.

Víamos, na verdade, filmes diferentes.

Eu a admirar o universo dos homens sem lei; e ele, a olhar seu reflexo no espelho da dramaturgia e, “como se diz”, do universo imagético do Velho Oeste de John Ford, Anthony Mann, Nicholas Ray, Sérgio Leone, Sergio Corbucci, Gianfranco Parolini etc.

(O Velho nascera José Baltazar dos Santos só porque seu pai, que se chamava Baltazar dos Santos Reis, nasceu no dia 6 de janeiro (Dia dos Santos Reis). Crescera no campo, lutando e moldando a terra, as plantações e os animais para atender suas necessidades e de sua família. Como pequeno produtor rural, tinha barraca na feira local, na qual comercializava produtos diversos, como farinha, feijão, melancia, batata e outras coisas que a terra e a lida lhe davam à fórceps. Onde nascera e vivera, margeando sua gleba de terra, passava o Rio Assú que, na tradução do tupi para o idioma luso, significa: Rio Grande – que, aliás, dá titulo a um filme de John Ford, cujo título no Brasil, curiosamente, ficou sendo Rio Bravo).

Outro dia, novamente, coloco Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, para rodar; e vou atrás das minhas hipóteses – mas espero que longe dos academicismos que, como de costume, limitam e matam o objeto. Buscarei com Jacques Aumont, Michel Marie, mise en scène, iluminação direta e indireta, variações e continuidades em relação ao gênero, diálogos com a obra do diretor; pegando um pouco de Francis Vanoye e David Bordwell, olhando para a composição e profundidade de campo e reparando na desestabilização do estatuto representativo da imagem (sem esquecer alguns dos postulados já postos sobre o diretor, pois, como disse Godard, “um filme de Hawks começa antes de iniciar a primeira sequência e continua um tempo depois que termina” – salvo engano, uma referência a Rio Bravo – ou foi a outro?).

Não posso demorar a ver de novo Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, pois, na manhã do sábado de São João, acabei vendo outro filme, junto e prestando atenção ao Velho – que, quase esqueço de mencionar, era quase surdo, ensurdecido ou tinha alguma especificidade auditiva, que o impedia de ouvir as sonoridades do mundo, mas, no que concluo, deleitava-se com as dimensões do visual para quem a imagem dos filmes que víamos juntos devia ser central (especialmente, a composição da imagem, o domínio de cena dos atores e a encenação que liga todos os elementos: luz, cor, texturas, movimentos de câmeras, interpretações, profundidade de campo etc.) …. a imagem devia ser central para o seu deleite diante de todos aqueles filmes, personagens e cenários – o que lhe colocava, certamente, em um processo, como lembra Jacques Aumont, de reconhecimento e rememoração sem fim.

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Marcos Aurélio Felipe

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