Rir de si

Cellina Muniz
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Em mais um de seus polêmicos escritos, Ecce Homo (numa livre tradução, “Eis o homem”), Friedrich Nietzsche, aquele chato de galocha que quase ninguém entendia/entende, ousava dizer o que todos queriam e ninguém se atrevia, no sumário do seu livro, assinalando ironicamente os títulos de seus capítulos: “Por que sou tão bom?” “Por que escrevo livros tão ótimos?” E por aí seguia…

O que o filósofo intempestivo fazia, no exercício de sua gaya scienza, era vivenciar a atitude perigosa de rir de si. Aquilo que também Jorge Larrosa preconizou, tempos depois, acerca dos sábios que se levam muito a sério: é preciso saber usar um chapéu de guizos, como quem diz, por meio de uma risada camarada – meu caro, toda essa solenidade é também arbitrária…

Saber rir de si não é fácil. Como toda e qualquer aprendizagem, exige um certo grau de coragem. Coragem para fazer ruir abaixo todo aquele peso de vaidade e egocentrismo, condição regular no animal humano, mas ainda mais acentuada em tempos de sociedade do espetáculo do eu, sobretudo em personalidades com pulsão de autoafirmação. Evidentemente, temos tod@s nossos egos, espremidos entre o que dita a civilização e o que aspiram nossos mais recônditos e inconfessáveis desejos. Mas nem tod@s aprendem a rir da relatividade de tudo (inclusive do self) e sabem fazer cair abaixo, no estrondo de uma gargalhada genuína, a pomposidade de si.

E na minha tentativa de autoafirmação, eu e meu egozinho vamos acreditando cada vez mais que o que mais vale na vida é saber rir de si. Como um rei que, no alto de sua soberania, percebe junto à criança que está realmente nu. E como pode ser risível tanta nudez! Permitir-se esse riso talvez doa menos. Talvez seja mais divertido. Talvez seja, como em relação à arte (música, literatura, pintura, teatro etc. e tal), uma “mentira” necessária para se viver a vida. Uma “mentira” que nos console sobre a arbitrariedade de tudo.

E que este riso não seja um riso apenas cínico, pelo contrário! Que ele seja um alegre libelo a favor da vida. Uma vida que diz sim, para além das convencionalidades sisudas demais. Uma vida sincera e plena, sem as amarras de sorrisos forçadamente gentis ou supostamente edificantes, desses de fotos postadas em Instagram ou Facebook à espera de tantos likes.

E por falar em likes e universo digital, para encerrar esta crônica sobre o saber rir de si, nada como apelar para aqueles memes que, com o poder de síntese dos textos humorísticos, resumem toda essa questão:

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Cellina Muniz

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