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A roda viva da desesperança

O que dizer de um filme cujo gênero somente se revelará na última cena?

Assim é Roda Gigante (Wonder Wheel), o último Wood Allen, em cartaz na cidade.

A obra rachou a crítica ao meio e agradou em cheio ao público (claro, não um público qualquer, mas aquele dos aficionados do talvez mais prolífico diretor de cinema A da atualidade). É também um dos raros trabalhos do diretor sobre o qual, se você entrasse no cinema um pouco depois dos créditos e nada soubesse sobre ele, teria dificuldades em identificar a autoria, ao contrário da maior parte de sua filmografia.

O tema é relativamente batido: Ginny é uma ex-atriz que abandona a carreira após ser deixada pelo primeiro marido (que ela amava) por infidelidade dela e, depois de uma profunda crise, casa com Humpty, viúvo, às voltas com o alcoolismo. São dois náufragos que se agarram um ao outro como tábuas de salvação. Vivem uma vidinha medíocre em Coney Island, na década de 50: ela é garçonete, defrontando a crise dos 40 anos e tem um filho problemático (o personagem mais original do velho diretor, oscilando com grande sutileza entre o dramático e o cômico), Richie, um garoto de uns 10 anos, cujo desajuste se expressa numa piromania incontrolável.O marido gerencia um carrossel num parque de diversões, onde moram. Humpty é um americano de baixa classe média típica, bruto e terno ao mesmo tempo. Ginny se amargura por ter abandonado seus sonhos artísticos. Eles se apoiam de certo modo, melhor seria dizer se suportam. Dois fatos quebram a rotina miúda do casal e impactam dramaticamente suas vidas: o envolvimento de Ginny com um estudante de teatro que trabalha durante o verão como salva-vidas na praia e a chegada da filha de Humpty, Caroline, que rompera com o pai, bem jovem, para casar com um gângster, do qual acabara de se separar e estava jurada de morte por tê-lo denunciado à Polícia. Pra piorar tudo, Caroline também se envolve com Mikey (o estudante salva-vidas).

Esse quadro é formado por cenas fortes (como o reencontro de pai e filha e o longo plano sequência final) costuradas com surpreendente suavidade, fazendo com que o filme resvale pelo melodrama, sem cair na pieguice. A história tem uma inspiração mais ou menos evidente na peça Longa jornada noite adentro (Eugene O’Neil, 1941), devidamente citada, como um dos seus antecessores — Blue Jasmine — era uma releitura de um Um bonde chamado desejo (A Streetcar Named Desire), de Tennessee Williams (1947). Mas tudo é recriado e as marcas de Wood Allen se mostram no texto (desta vez bem mais enxuto), com diálogos precisos. Entre a obviedade e o paradoxo, o filme parece haver confundido a crítica e feito a delícia dos espectadores: a temática sombria, a fotografia extraordinária de Vitorio Storaro (praticamente um personagem), a direção de arte acurada, o ritmo estranho (às vezes dando a sensação de marasmo, outras acelerando os conflitos), o roteiro oscilando o tempo todo entre o previsível e a surpresa (difícil saber se é falha ou mérito do autor) fazem de Roda gigante uma obra meio fora da curva na filmografia de WA. A história vai avançando do banal à tensão mais aguda, com atuações dos atores acima da média, e questões como o destino, a culpa, o ciúme, a loucura e, sobretudo, a desesperança são expostas sem saltos, mas com uma intensidade contida (nesse ponto, o tango “Beijos de fogo”, que pontua a trilha sonora sem jazz, funciona como uma nota irônica ao drama que se desenrola). Um exemplo é a perseguição dos gângsters a Caroline: são apenas duas cenas sugestivas, sem correria, sem tiros, sem sangue, sem cortes alucinantes — o que diferencia marcadamente a obra do autor, às vezes prolixo, roçando a repetição — dos produtos hollyoodianos. Roda gigante é, sem dúvida, a mais bem sucedida incursão de Allen fora da comédia (sem a chatice de Interiores, de 1978, imitação do estilo de Ingmar Bergman, ídolo do neurótico cineasta nova-iorquino). Haveria muito a dizer, mas me faltam tempo e competência.

Chamo a atenção para um ponto central: a atuação soberba de Kate Winslet. Sua personagem vai crescendo ao longo da trama, dando-lhe margem para uma interpretação impressionante, à altura (maior até) de uma Gloria Swanson em Crepúsculo dos deuses (Billy Wilder, 1950). Só La Winslet vale a ida ao cinema. E pra quem não pode passar sem a indicação do gênero de um filme, Roda gigante é, sim, uma tragédia americana.

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