Geral

A sabedoria e suas alcovas

Illustration for @robbieflash first column

Resplandecente é a Sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam descobrem-na facilmente, os que a procuram encontram-na.” (Bíblia Sagrada – Livro da Sabedoria, capítulo 6, versículo 12).

Aqui, da minha alcova, do meu cubículo, vejo, revejo e acompanho, atentamente, o girador do mundo e suas nuances. E por onde, indago aos meus mais fiéis leitores (rsrs… mote de jornalista!), essa roda, esse mundo, vaga solta nessa multicolorida imensidão? Por onde galoparemos livres de cabrestos? Quando navegaremos as asas nas carnes dos intermináveis oceanos?… Não é fácil e tampouco se encerra em sins ou em nãos qualquer resposta sensata e plausível. Ao entendermos que o raio circunferencial do próprio umbigo absorve taciturnos cantos e encantos, e que sua gênese escapole dos frágeis sentimentos do egocentrismo e suas frugalidades, aportaremos, em definitivo, nos profundos hemisférios da transmutação espiritual. Para os quais migraremos em espaçosas vias sob a égide do altruísmo, dependendo apenas das inclinações morais e éticas. O mundo tragará a nossa matéria-alma como uma boa cachaça!

Lendo essa breve introdução para uma comovida interlocutora, e a dita cuja, a sinhazinha, após escutar – atenta – e abrir um sorriso enigmático e brevemente esperançoso, confesso ter pensando no êxito do meu propósito de “cientista sério”. Não custou tempo e a risonha Dama emergiu desse inconcluso sonho, deferindo esta máxima axiológica: “VOLTE À REALIDADE, meu filho! Você não percebe que o que você escreveu foge da realidade? Do quotidiano dessa gente que você diz tanto prezar? Homi, deixe de falar difícil! O mundo é comum nas suas relações diárias. Não encurte a sua vida no campo do saber acadêmico. Amplie o seu conceito de cientista sério (com leve ironia!) e dance ao som das ruas!”. Pronto! Vocês sabem quando o badalo rompe o silêncio do sino? Foi assim que o oco do meu quengo foi rompido. Que cipoada da gota! A lacônica e doce leonina rugiu em um sonoro e ensurdecedor bramido, o silente açoite que rasgou o lombo da minha prolixa e intempestiva aura criativa, imagética, poética, metafórica… Danou-se! Nunca! Jamais tinha presenciado uma sentença tão categórica e com desmedido asco às minhas confusões pseudo-intelectuais. O meu esboço de tratadista das ciências obscuras e ocultas aos linces do quotidiano, não lavou e muito menos lavará a calha por onde corre e correrá o mineral com destino às cisternas do saber. Hoje, a calha é residência solar e lunar dos felinos. Lugar onde os bichanos dormem e depositam os restinhos de ontem.

Apenas me restou concordar: “É isso mesmo, querida Leoa! A senhora está certíssima!”. Esculpir imagens concretas sem o rudimentar barulho vindo das praças é algo que a verborragia vaidosa e soberba dos campos do saber oficial jamais entenderá. Ter em mãos o ouro lapidado e burilado é mais cômodo do que enxergar, diretamente, beleza na pepita suja, enlameada e opaca, para, só então, gravar no espinhaço do texto a história do silencioso protesto popular. Aliás, beleza é um conceito que acompanha de perto os movimentos da sociedade em seu constante pulsar. Se ficarmos atentos às manifestações artísticas, veremos que o homem do povo, em sua perspectiva de eterno brincante, indica caminhos de apurada sofisticação. Por exemplo: a manta multicolorida que veste os caboclos-de-lança do maracatu. Se os/as costureiros/as e criadores da moda desviassem o olhar em direção à zona da mata pernambucana, poderiam encontrar matéria-prima para suas artesanias de criação. E assim segue por todas as variações artísticas e da existência humana. No meu caso, seguirei pelo labirinto que a sábia felina apontou. Caminharei cego, sem o fio de Ariadne, com o propósito de me perder, pois, dessa maneira, é que a minha Rainha e patrona do meu caminhar, Santa Sofia, me aguarda em seu trono de luzes, trevas e verbos.

Portanto, (in)escrupulosos e gentis Cavaleiros e Damas, o paralelo a ser traçado é localizado entre o real e a realidade. Basta sabermos que a linha, o eixo do real é o dado e pugnarmos pelo que é construído de maneira democrática, lúcida e com honestidade intelectual. É mister zelarmos uns pelos outros, como deve ser e como seria essencial que fosse. Termos interesse pela sanidade individual e coletiva da memória é mais que conveniente para polir a alma sem oscilações e tergiversações. Porém, se estes desenganos macularem os nossos vieses quebrando o cristal dos sonhos, recolhamos o que seja: os cacos e a menor partícula da pedra. Quando percebermos estaremos a dançar com o Mestre Francisco, o de Assis, sem esquecer o Contra-Mestre Zaratrusta, o germânico. As idiossincrasias adormecerão e a plenitude do real se forjará na realidade, fazendo um todo incompleto e necessário.

Quanto à sabedoria e à simplicidade da linguagem reclamada pela angorá selvagem, buscarei encontrá-la em cada esquina literária; em cada dedo de prosa; em cada balcão poético. Por onde trafegar o meu estreito e raso riachinho, estarei cuidando e preservando o rasteiro mato ciliar que o protege do assoreamento da vaidade humana.

Share:
Italo de Melo Ramalho

Comentários

Leave a reply