Sáfica

8 de março de 2010 às 22:10 - Comentar

Por Nina Rizzi

DaMata, meu querido,

Safo é uma das minhas santas. Você sabe as loucuras que cometo por causa de poesia, né? Ir a Temuco pra ver as conchas de Neruda e tentar captar um cheiro de sua Matilde, tentar aprender russo pra poder ler no original o grande dostoiévski, ir a Caicó… um dia, eu vou lá às falésias de Lêucade, onde ela se deixou levar à espera de um amor. Eu vou lá e vou lhe dizer: Venha, agora pode vir, Safo. Venha que eu já cheguei; serei tua sombra de poesias e cantatas. Ela, que não foi a Baudelaire (que me faz falar francês), viria a mim, você não acha? rsrsrs…

cantiga ellênica pra safo
nina rizzi

quem mo-dera aproximar nossos corpos como sentimo-nos almas.
entre-mentes, que há-de explicar o cheiro que não me sai das juntas – médio, indica-dor?
(eu levo à boca dedos-alma.) *

Conta-se que Safo, desprezada em seu amor pelo barqueiro Faón, e desgraçada, atirou-se nas águas do mar, do alto das falésias da Ilha de Lêucade. Os modernos preferem que ela tenha se lançado ao abismo para matar-se. Mas, segundo uma tradição conhecida pelos antigos e, ao que parece ignorada pela maioria dos poetas modernos, realizava-se com intenções rituais. Era um remédio para purificar o doente de amor; atirando-se das altas falésias, nas ondas do mar, ele ressurgia, quando os deuses o contemplavam com bons olhos, inteiramente curado. Assim Deucalíon, que se liberta da paixão pela jovem Pirra.

Sentindo-se eleito, interpelado, Baudelaire sentou-se à beira do penhasco de Lêucade, à espera de que as ondas trouxessem o cadáver de Safo…

LESBOS
Charles Baudelaire

Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias, Lesbos, ilha onde os beijos, meigos e ditosos, Ardentes como os sóis, frescos quais melancias, Emolduram as noites e os dias gloriosos; Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias;

Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas, Que desabam sem medo em pélagos profundos, E correm, soluçando, em maio às colunatas, Secretos e febris, copiosos e infecundos, Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas!

Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam, Onde jamais ficou sem eco um só queixume, Tal como Pafos as estrelas te veneram, E Safo a Vênus , com razão, inspira ciúme! Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam,

Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas, Onde, diante do espelho, ó volúpia maldita! Donzelas de ermo olhar, dos corpos amorosas, Roçam de leve o tenro pomo que as excita; Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,

Deixa o velho Platão franzir seu olho sério; Consegues teu perdão dos beijos incontáveis, Soberana sensual de um doce e nobre império, Cujos requintes serão sempre inesgotáveis. Deixa o velho Platão franzir seu olho sério.

Arrancas teu perdão ao martírio infinito, Imposto sem descanso aos corações sedentos, Que atrai, longe de nós, o sorriso bendito Vagamente entrevisto em outros firmamentos! Arrancas teu perdão ao martírio infinito!

Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser? Ou condenar-te a fronte exausta de extravios, Se nenhum deles o dilúvio pôde ver Das lágrimas que ao mar lançaram os teus rios? Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?

De que valem as leis do que é justo ou injusto? Virgens de alma sutil, do Egeu orgulho eterno, O vosso credo, assim como os demais, é augusto, E o amor rirá tanto do Céu quanto do Inferno! De que valem as leis do que é justo ou injusto?

Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo Para cantar de tais donzelas os encantos, E cedo eu me iniciei no mistério profundo Dos risos dissolutos e dos turvos prantos; Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo.

E desde então do alto da Lêucade eu vigio, Qual sentinela de olho atento e indagador, Que espreita sem cessar barco, escuna ou navio, Cujas formas ao longe o azul faz supor; E desde então do alto da Lêucade eu vigio

Para saber se a onda do mar é meiga e boa, E entre os soluços, retinindo no rochedo, Enfim trará de volta a Lesbos, que perdoa, O cadáver de Safo, a que partiu tão cedo, Para sabe se a onda do mar é meiga e boa!

Desta Safo viril, que foi amante e poeta, Mais bela do que Vênus pelas tristes cores! – O olho do azul sucumbe ao olho que marcheta O círculo de treva estriado pelas dores Desta Safo viril, que foi amante e poeta!

- Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida, A derramar os dons da paz de que partilha E a flama de uma idade em áurea luz tecida No velho Oceano pasmo aos pés de sua filha; Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida!

- De Safo que morreu ao blasfemar um dia, Quando, trocando o rito e o culto por luxúria, Seu belo corpo ofereceu como iguaria A um bruto cujo orgulho atormentou a injúria Daquela que morreu ao blasfemar um dia.

E desde então Lesbos em pranto lamenta, E, embora o mundo lhe consagre honras e ofertas, Se embriaga toda noite aos uivos da tormenta Que lançam para os céus suas praias desertas! E desde então Lesbos em pranto lamenta! *

E, claro, uns fragmentos sáficos que, como sabemos, muito podem ter sido corrompidos pelo tempo, sobretudo pela medieva Igreja Católica (que pelo menos nos reserva Bach):

49 não penso que haverá jamais, em tempo algum, sob a luz do sol, moça que a ti se compare, no brilho poesia

54 adormecendo no seio de uma terna amiga

88 eu tenho uma linda menina; com flores douradas ela se parece: minha Kleís, meu bem-querer – nem pelo reino da Lídia inteiro, nem pela adorada [Lesbos] eu a trocaria *

Beijo de todas as mulheres que são em mim.

Comentários fechados.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar