Samarone fala sobre “Viagem ao Crepúsculo”

4 de março de 2010 às 15:05 - Comentar

Por Dinarte Assunção
Novo Jornal

“Quando esse inferno vai acabar?” A declaração aspeada é de uma senhora cubana, logo após uma tentativa frustrada de adquirir sua cota mensal de carne no governo comunista do então Presidente do Conselho de Estado da República de Cuba, Fidel Castro, em 2007. A mulher contou com a sorte de ninguém tê-la ouvida, exceto Samarone Lima, jornalista e escritor cearense radicado no Recife, que esmiúça a condição de miséria em que vive o povo cubano, em seu livro Viagem ao Crepúsculo (Casa das Musas, 230 pág, R$ 30), cujo lançamento em Natal será hoje, às 19h, no Prozac Bar.

Em sua breve passagem pela ilha, entre o fim de 2007 e início de 2008, Samarone conseguiu descrever os efeitos dos 50 anos de um regime que há muito perdeu as rédeas do rumo a ser tomado. “Os cubanos não são livres. Não podem sair do país. Não podem criticar o regime na fila do pão, sob o risco de serem rapidamente presos pelos infiltrados, e condenados a 20, 30 anos de prisão, após julgamentos rápidos”, diz o autor cearense.

Viagem foi escrito como antirreportagem: o autor fez um jornalismo avesso. Conversou com os cubanos da periferia, das ruas, dos bares, das praças, como porta-voz dos anseios que esse povo nunca pôde externar. Tudo isso foi registrado na memória. Samarone só tomava nota posteriormente, evitando, assim, que a permanente sensação de vigilância obstruísse os desabafos das vítimas do regime comunista.

São também do escritor os livros Clamor (Editora Objetiva) e Zé (Mazza Edições). Samaro-ne falou à equipe de reportagem do NOVO JORNAL sobre as experiências adquiridas às vésperas da saída de Fidel Castro do poder. Recentemente, Orlando Zapata Tamoyo, de 42 anos, um bombeiro hidráulico e prisioneiro de consciência, morreu na ilha depois de 85 dias de greve de fome. “Ele tinha a mesma fome que tenho, e que jamais saciou: a de liberdade”, lamenta o autor.

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Novo Jornal: Qual o sentido do título “Viagem ao Crepúsculo”?
Samarone Lima: De decadência mesmo, crepuscular. Quem sugeriu o título foi uma das primeiras leitoras, Flávia Suassuna. Após ler os originais, ela disse – “Samarone, você fez uma viagem ao crepúsculo”. Achei que tinha tudo a ver com tudo o que vi e vivi na viagem.

O Samarone que chegou à Cuba foi o mesmo que deixou a ilha?
Toda viagem é transformadora. A experiência lá foi tão forte, que não consegui comprar a boina de Che Guevara, que um amigo meu, frade franciscano, me pediu tanto. Voltei refletindo sobre a facilidade que temos em repetir jargões, pensamentos e idéias alheias, mas desconectadas da realidade.

Para escrever “Viagem” você teve de viver como cubano. Não teria sido mais fácil você ter utilizado seu “status” de turista na ilha para desenvolver esse trabalho?
Todas, absolutamente todas as pessoas que me relataram viagem a Cuba como turista, falam de outro país, onde há conforto, bons carros, comida farta, mulheres, charutos, rum. Esse é o mundo do turismo, não o mundo real. Seria mais fácil (e caro) utilizar o status de turista, mas o que eu teria para oferecer aos meus leitores seria a repetição superficial e obtusa, a reprodução dos chavões sobre o país.

Se dirigindo a quem não sabe nada sobre Cuba, o que você falaria sobre a ilha?
Um país complexo, onde o povo paga um preço alto demais por uma revolução que perdeu o rumo. Certamente um dos lugares mais sofridos que já conheci (e olha que já andei muito pelo mundo).

Como você enxerga a posição da esquerda brasileira em não reconhecer Cuba como um regime ditatorial?
É uma postura lamentável, de conivência e silêncios. Tenho esperança de que a morte recente do Orlando Zapata, após uma greve de fome de 85 dias, e de outras mortes que se avizinham, ajudem a abrir o debate sobre o regime.

Você concorda com a ideia de que a blogueira Yoani Sánchez, opositora do governo cubano, é financiada pelo governo dos EUA?
Discordo, até porque ela escreve com o coração, falando das inquietudes de uma geração que não consegue mais ver sentido na realidade do país. Mas lembremos de um detalhe – qualquer voz dissidente em Cuba é imediatamente associada ao dinheiro dos Estados Unidos. São mercenários ou contra-revolucionários, nunca opositores, simplesmente.

A Revolução nunca matou nenhum adversário, conforme Fidel. O que Cuba lhe mostrou a esse respeito?
Os fuzilamentos nunca foram novidade. Neste momento, há 200 presos de consciência, mui-tos em solitárias. Não se mata só com tiros e forcas. Mata-se de desesperança, solidão, tristeza, maus-tratos.

Considerando seu livro conhecido na ilha, você voltaria à Cuba sob o regime comunista?
Se meu livro por acaso ficasse conhecido em Cuba – uma possibilidade que acho muito remota-, poucas livrarias se interessariam em vendê-lo. O mais recomendável era que eu ficasse por aqui mesmo, debatendo livremente e sem medo de ter que dar explicações.

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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”