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Sanderson ou a amizade

Sanderson era um iluminado, iluminante. Eu o chamava por um dos seus nomes, Deodato, dado por Deus. De fato, ele foi homem da mais forte ligação com o mundo espiritual.

Ter a sua amizade já era uma forma de distinção. Os amigos eram, por ele, excessivamente valorizados. Nunca foi de cultivar muitos amigos. Repetia a linguagem bíblica: “muitos são chamados e poucos os escolhidos”.

Foram mais de seis décadas de amizade. Morávamos na mesma rua José de Alencar. Ele tinha dezesseis anos quando eu lhe dizia que não deviam ter mudado o nome de rua da Estrela, porque ele era a estrela da rua. Eu ficava encantado com a sua paixão pela leitura e saberes aprendidos no seminário. Deu-me um livro de autor predileto: “Recordação da Casa dos Mortos”, de Dostoievski. No oferecimento, uma expressão latina, que eu desconhecia, ab imo corde, do mais íntimo do seu coração. Daí começou a sua mania, muito agradável, de escolher e presentear-me livros.

Quando me enviou a edição do seu “Fábula-Fábula” (1980), relembrou: “Na certeza de que o ab imo pectore continua”.

Já com “A hora da lua da tarde”, ele exagerou, e muito, na dedicatória: “Mestre em muitos ofícios e artes de viver; Amigo improrrogável e intermitente; e amizade de vocação e destino de mais de 45 anos – amigo – irmão com as naturais, obrigatórias e inolvidáveis divergências e convergências, que possam aparecer e ser. Depois de tanto discurso, igual ao de Marco Antônio diante do corpo de César – enfim, para o amigo do trovão e pastor dos relâmpagos, o abraço com cantochão e responsos de sinos.”

Não conheci ninguém mais generoso, em gestos e palavras.

Seguindo o pensamento de Harold Bloom, procurava lendo dar sentido à vida. Em uma das suas iluminações afirma ser: “O grande mistério que pode chegar até nós, através da arte ou da santidade, do heroísmo ou da poesia”.

Depois que perdeu a sua amada Ângela, ele ficou cada vez mais solitário, vivendo intensamente a solidão: um órfão de amor. Quando tentei levar-lhe consolo, pediu que me sentasse em uma das poltronas cobertas com pano branco. Eram alinhadas no mesmo sentido, para que, sentados, pudessem ver o Potengi. Naturalmente recusei. Como se interrogasse a si mesmo ele como a si me perguntou: “Para que esta paisagem, para que estes livros, para que a vida?” Senti a presença do inexorável. Meu amigo perdera o desejo de encontrar um sentido para a vida, sua vida desabitada.

Agora, com Ângela ao seu lado, ele tem na vida livros infinitos. Além da mais perfeita paisagem: o paraíso.

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Diógenes da Cunha Lima

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