Saudade

Carlos Gurgel
Colunistas

eu sei Zila, nem tudo transparece ser. somos enigmas de um amanhã sem cor. perambulamos como fantasmas, entre vias apinhadas de veias terminais. você sabe, quando conversávamos na Biblioteca sobre o enxame de ideias. as vezes, ideias barrocas, aquelas que desbotam com nossos olhos, e vão embora. outras vezes ficávamos, um olhando para o outro, num silêncio sepulcral. ainda bem que a sua servente, prontamente nos socorria com o suco das pitangas colhidas no quintal de uma amiga comum.

lembro de quando, um dia, a chuva chegou. estávamos na livraria “Clima” do saudoso Carlos Lira, no CCAB. ficamos horas esperando que os pingos da chuva fossem embora. mas eles teimavam. e nós, como vestidos de uma santa inoperância, ficávamos conversando sobre Pasollini, Eulício Farias, meu pai e Cora Coralina. sei, hoje em dia, que esses papos que levávamos, e nós nos levávamos por eles, seriam bastante sacrificados. com o advento das letrinhas computadorizadas, as conversas ao pé da língua, estão cada vez mais raras. ledo engano: acho que justamente assim, é que seríamos cada vez mais labiais. como incendiando o jardim, por onde transitam os gatos e os cães dos vizinhos.

lembra Zila, quando tomávamos sorvete na “Tropical”, e esperávamos por “André da Rebeca”? achávamos, sinceramente, que a qualquer momento, encontraríamos respostas para tudo. recordo que uma das nossas escolhas, como sempre acontecia, recaia sobre a falta de convicção de tudo que fosse relacionado ao amor. aquele amor semelhante a uma lua cheia. desprovido de lamentações provincianas e do culto à beleza física. ou daquele outro inesquecível amor: o do par de jovens que perambulavam pela cidade sempre de mãos dadas. e veja: nada fariam eles desistir de que as mãos pudessem ficar distantes umas das outras. nessas horas, eu sempre te pedia perdão, porque nunca conseguia soletrar direito essas coisas do amor. você, por ser um especialíssimo ser, que sabia exatamente como lidar com as palavras, languidamente espalhava seu verbo pela noite, tão iluminada da solidão das pessoas. e eu sabia, sim, que todas as vezes onde nos deitávamos em frente ao jardim no bairro de Petrópolis, era como se um vendaval de filmes, que aos poucos invadiam nossos corações e pulmões, retornassem.

unnamed-1até que um dia, entre a cidade e a praia, apareceu o poeta Luis Carlos Guimarães, convidando você e a mim, para que fôssemos almoçar na peixada da Comadre, Ponta do Morcego. prontamente atendemos o convite de Luís. e lá fomos. o ambiente recheado de política e da transversalidade dos colunistas sociais, rapidamente se transformou em um hospício hospitaleiro e distante. eu nevralgicamente, o tempo todo monossilábico. você Zila com aquele seu sorriso enigmático, só ficava olhando para um lado e para o outro; e Luís sempre sereno e compacto, sempre arrumava uma razão para que fôssemos cordiais e remidos. ficamos lá até o sol se por. passei uma boa parte da tarde, olhando para uma fotografia na parede da peixada, onde estavam lá a Comadre, e o genial Caetano Veloso. aquilo, aquela foto, ficou bamboleando na minha mente, acho que uns três bons dias. chegando a hora de sairmos de lá, Luis pediu uma rodada de vinho: então, como um uníssono, recitamos Neruda, João Cabral, Bandeira e Drummond. sei que isso virou filmagem por um jornalista de São Paulo que lá estava, e que nos prometeu enviar cópia. no afã do vinho e da grandiloquência dos poetas recitados, passamos batidos. até hoje penso que esse jornalista me enviará tal vídeo.

deixa eu dizer Zila: o que me fazia ser seu amigo e companheiro das tardes natalenses, era, inquestionavelmente seu silêncio entre palavras preciosas. eu, absolutamente ficava a mirar o cais, onde você, lentamente pescava o verbo arrebatador. como uma liberdade provinciana, que terminava acolhendo a simpatia dos nossos corações. e sempre, recorrente, aparecia os versos do meu pai, como protagonizando uma celebração pelo povo e pela justiça nua, sem milimetragem da malandragem.

você lembra Zila, quando fomos assistir no Rio Grande, Buster Keaton? que rivalizava com Chaplin? tinha tantas cenas geniais, sim, desprovidas da fala, imagens que correspondiam a uma insurreição de costumes, reviravolta nos tabus.

penso que a primeira vez que nos vimos, foi na exposição de Navarro, pelos anos 70, onde você estava exemplarmente vestida, com aqueles vestidos tão firmes e sensuais, que me deu vontade de dar um beijo no vestido. depois eu te confessei isso, e aproveitei e dei um beijo na sua face.

sabíamos Zila, a todo instante, que o tempo por onde os nossos versos passavam, estavam cada vez mais pobres de uma alegria que nos transportasse para uma beira de praia, e nos fizesse acreditar que tudo não passaria de uma estação sem chorinhos nem velas de barcos.

acredite amiga Zila: sempre procurei pelo melhor dos silêncios para acompanhar sua grandeza, entre conversas amenas, que se transformavam em uma lição de vida, entre idas e vindas, e de um profundo respeito quando você estabelecia o compromisso de falar sobre os animais. desde aquela época, inicio dos anos70, amiga Zila, que tento por em prática, essa coisa tão básica, mas que a maioria de nós, termina deixando para se lembrar novamente, amanhã. te confesso agora: sabia que sua poesia sempre foi motivo de orgulho para mim? quando nas noites que a insônia aparecia, eu me cobria com suas palavras e adormecia? era justamente tudo que sentia necessidade de fazer, e você, amiga Zila, estava sempre lá, como um salvo conduto. como o voo de um pássaro, que de tão perfeito, desenha no céu suas asas e seu amor pela vida.

tanta coisa que foi dita, amiga. tanta, tanta coisa. que as vezes eu me flagro, repetindo nossas conversas, entre uma rua, entre uma avenida, entre as quatro paredes de um elevador, entre super mercado, entre a farra dos boêmios da Ribeira. entre tantas festas profanas. e entre, também, por sobre os namoros que tive com as meninas tão cheirosas potiguares, e de tanto fulgor cênico e antropológico.

olhe, isso que vou te dizer agora, nunca disse para ninguém: sempre quis namorar contigo. apesar da diferença da idade, que para mim, sempre foi uma besteira, isso. inclusive, sempre achei que isso fosse um motivo a mais, para que pudéssemos estabelecer uma relação. mas, o que mais me fazia acreditar que talvez isso não fosse possível, amiga e amada Zila, eram os seus olhos. os seus olhos, amiga amada Zila, só tinham tempo, para a imensidão de livros ao seu redor. um dia, pensei que me transformaria em um livro, para que você pudesse folhear ele, suas folhas, suas páginas, como se estivesse me acariciando. simplesmente, fechei meus olhos, e senti você entre meu corpo e meus sonhos.

agora te confesso, nunca senti nada igual, porque eu sabia que duas almas poéticas, quando resolvem se encontrar, o mundo vira de cabeça para baixo. florescendo uma essência de jasmim, tão intimamente rara e deliciosa.

lembra Zila quando inventávamos de ser crianças nas filas dos bancos? você arregaçava seus olhos, compreendendo os débitos e os créditos ? tudo tão navalha sanguinolenta e verossímil. sentia nesses momentos, vontade de me sentar no banco do Banco. e de ficar te olhando, como um mensageiro repleto de flores e chás, para te dar. quando saíamos dos Bancos, corríamos para o Granada Bar, na Rio Branco, ao encontro de Newton, Berilo, Nei, Luis, Celso e Leopoldo. era um petit comité tão abrasivo, exemplarmente diabólico e dionisíaco.

penso Zila, que se você retornasse para aqui, agora; penso que você mandaria restituir na cidade, seus candelabros e queijos importados.

lembra Zila, quando você viajou para o Rio, e deixou comigo sua face embrulhada de tantas saudades e versos melancólicos? e que eu guardei sua face, e todos os seus versos melancólicos, que até hoje ao abrir a minha maleta, releio como se você estivesse ao meu lado?

ah, Natal, Natal dos anos 70, onde podíamos comer peixe com pirão no mercado da Redinha, esperando pela noite e pelas notícias que apareciam de lá, da nossa cidade. essas reminiscências todas, amiga amada Zila, são tão fortes, inquebrantáveis. tão implacavelmente inesquecíveis. tão encantadoramente contemporâneas e insubstituíveis.

tenho certeza, que você Zila, o tempo todo, sempre foi o máximo. aquele tanto que transborda de tanta e esfuziante satisfação e carinho. e lembre-se, quando você decidir voltar, estarei te esperando no cais. mirando sua alma, como quem canta para a vida, incontida, tão bela. irmã de você e das suas sandálias do mar poesia.

beijos.

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Carlos Gurgel

Comentários

2 comments

  1. Carlos Gurgel
    Carlos Gurgel 22 dezembro, 2016 at 08:22

    agradecido poetamigo Oreny Júnior, Zila era/é um vendaval de tanta fortaleza bela de inúmeras poesias marítimas raras.
    agradecido Oreny !!!!

    Cgurgel

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