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Saudade e esperança

Ipê florido

Na minha casa tem um ipê. Árvore frondosa, cheia de vida, de sangue e de seiva.

É um ipê atípico: vive florido no mais inóspito dos chãos e, mesmo assim, perpassa o mundo continental como a agulha que fura a derme do algodão mansamente; seus galhos se estendem, abraçando toda a terra entre a superfície e a atmosfera, sem hesitar entre a ordem, o fator e o resultado; sua copa é tão alta que o céu, em reverência e entorpecido, beija a testa da sua exuberância de maneira que eu confundo o azul celeste com o azul divino nas perspectivas horizontal e vertical do olho no oco profundo das linhas geométricas do ser e do nada.

Fico ali: mudo, arrebatado, absorto… sem saber se o céu é parte separada do todo, ou se o meu ipê atinge medidas que o danado não passa de uma trama divina e, portanto, literária, com o fim de tornar possível a sua existência. Pois, para ornar o azul do meu castelo, só a crença em Deus, chancelando o demasiadamente humano.

Faz algum tempo que tenho de cor uma sextilha atribuída ao titânico Pinto do Monteiro (Monteiro é um reino do cariri paraibano), cantador e rapsodo de quengo rápido como coice de preá, e de língua mais afiada que bisturi de madeira de lei. Aquele que corta a carne e empacota a alma! Pinto, ao definir o sentimento semântico da palavra verdade, diz, em um dado instante (nos dois últimos versos), que a “a saudade só é saudade/ quando perde a esperança!”. Que beleza de imagem! Recordei de um programa de televisão sobre poesia da TV Senac chamado “Literatura”.

Naquela ocasião, o programa foi especialmente dedicado a essas duas regiões vizinhas: o cariri paraibano e o pajeú pernambucano. E já que estamos nos debruçando por essas selvas, para uns, e jardins, para outros, da abstração e concretização da imagem poética, venho trazer a vocês que me leem, a resposta que um rapaz de 12 anos, residente, no tempo da reportagem, na cidade de São José do Egito – “terra de quem não é doido é poeta!” – no estado de Pernambuco (e que por acaso é limite com a já histórica Monteiro, localizada no emblemático estado da Paraíba, minha mãe espacial), respondeu ao repórter fuzilando-o com uma resposta límpida e sem pólvora. Apenas com a dureza do mármore sertanejo. Pergunta o inquisidor: “Pra você, o que é poesia?”. Responde o certeiro Davi: “É o sublime!”. Aquilo continua sendo o suficiente para mim. Para minha indomável sede de encontrar a paleta com a qual Deus pintou e bordou a vida.

Por isso eu me entendo e me desentendo com a verdade do poeta. Entendo o sentido e o estalo mágico da criação poética. Mesmo sem ser de longe um mediano artesão da palavra. Mas reconheço o encanto e o desanuviamento que as/os musas/os  provocam na gema dos/as fabulosos/as poetas. E me desentendo, no sentido de não concordar com o menestrel (porém, o compreendendo perfeitamente), pois não é apenas a ausência do amor que nos lembrará do ser amado. Como também não é somente a saudade que moverá a esperança.

Eu e meu ipê, frondosamente azul, estamos mergulhados na desconhecida estância da saudade. As nossas saudades não são do tempo nos quais se inventam e se inventavam cores para as árvores. São do tempo em que inventaríamos ipês para coser um coração etéreo em um espírito de carne.

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Italo de Melo Ramalho

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