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Scorsese concilia contradições em “Hugo Cabret”

Por Ricardo Calil
IG

Com estreia no Brasil marcada para esta sexta-feira, “A Invenção de Hugo Cabret” é, de forma simultânea e paradoxal, um ponto fora da curva na carreira de Martin Scorsese e talvez seu filme mais pessoal.

Ponto fora da curva: uma fantasia juvenil, em 3-D, baseado num best seller, feito por um cineasta realista, conhecido por suas cenas de violência e por protagonistas que vão dos mafiosos psicóticos a boxeadores paranoicos a veteranos de guerra surtados. Talvez apenas “Kundun” (1997), sobre o dalai lama, seja um corpo estranho tão evidente dentro de sua obra.

Seu filme mais pessoal: não apenas uma homenagem ao cinema do passado (em particular, à obra do pioneiro George Méliès), mas, como disse um crítico americano, a melhor, mais longa e mais cara propaganda da história sobre a necessidade de preservação dos filmes antigos. E Scorsese, como se sabe, um dos mais cinéfilos cineastas do mundo e também um dos principais advogados da causa da restauração. E, como o protagonista de “A Invenção de Hugo Cabret”, ele foi ainda um pré-adolescente salvo da dureza da realidade pela fantasia do cinema.

A grande maestria de Scorsese sempre foi conciliar contradições em sua obra. Entre o filme de encomenda e o filme pessoal. Entre o industrial e o artesanal. Entre o violento e o lírico. Entre o passado e o presente (no caso de “Hugo Cabret”, entre Méliès e 3-D). Nesse sentido, seu novo filme é também um típico Scorsese. E uma confirmação de que ele é, justamente por conta de suas contradições, o moderno cineasta americano por excelência.

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Os dois candidatos com mais indicações ao Oscar deste ano – “A Invenção de Hugo Cabret”, com 11, e “O Artista”, com 10 – são homenagens ao cinema do passado. E algumas pessoas enxergam nisso uma tendência, o início de uma onda de filmes nostálgicos, que se voltam ao passado para apontar o futuro. Eu me lembro quando “Os Imperdoáveis” ganhou o Oscar e disseram que era a volta do western. Ou quando “Chicago” foi o vencedor e decretaram o retorno do musical. Até hoje estou esperando, sentado, o revival do bangue-bangue e da cantoria e nada…

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Tácito Costa

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