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Será que o sol vai voltar amanhã?

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“Nosso dia vai chegar/ Teremos nossa vez/ Não é pedir demais/ Quero justiça”.

Cantei muito na minha adolescência esses primeiros versos, e os outros, da música Fábrica, escrita pelo saudoso Renato Russo.

Eram tempos de sonhos, de vontade de ver meu país sendo mais igualitário e de ser menos acossado pelo ‘mérito’ e mais acolhido em oportunidades de direitos.

Renato Russo nos deixou há 20 anos, mas suas músicas nunca foram tão atuais.

Se ele estivesse vivo, provavelmente estava fazendo parte do coro dos inconformados com essa triste realidade que nosso povo vem passando.

Ora anestesiado por um ódio que eu não encontro explicação, ora pela ignorância alimentada por uma mídia que mais desforma que informa.

Com certeza, Russo teria feito campanha para o Freixo no Rio.

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Renato Russo traduziu o Patropi dos anos 1980, mas suas letras seguem com uma atualidade gritante, se olharmos o que tem acontecido no atual cenário político polarizado, cheio de ódio e desesperança

A volta de slogans como ‘Ordem e Progresso’ e ‘Criança Feliz’ nunca me cheirou tanto a mofo e enxofre.

Outubro se foi, mas o dia das bruxas segue assombrando nossa democracia e todas as conquistas que tivemos ao longo dos anos.

Vivemos uma ‘ordem’ que legitima atrocidades policiais contra adolescentes, que ocupam escolas; que exalta um juiz obcecado pelo delírio de poder, que só aponta suas canetadas para um único partido, em meio à corja de políticos envolvidos num esquema de propina secular no nosso país.

O ‘progresso’ que somente acolhe e afaga o topo da pirâmide e a criança feliz que invoca um primeiro-damismo assistencialista, num papel coadjuvante da mulher ‘voluntária’ e acéfala.

É. Acreditar que “é claro que o sol vai voltar amanhã” tem ficado cada vez mais difícil.

Vejo um céu menos cinza quando assisto ao discurso da menina Ana Júlia, na Assembleia Legislativa do Paraná que comoveu o mundo pela firmeza e hombridade.

Mas não podemos esperar tanto, menina Júlia.

Não podemos esperar por 20 anos, que pessoas decentes como você estejam no comando da nossa política.

sheyla_pelo-direito-de-chorar-5É preciso uma revolução agora.

A destituição desse governo ilegítimo, eleições diretas, para que possamos voltar a acreditar que ferramentas sociais da vida moderna como trabalho e voto não podem ser usadas contra nós.

Oxalá Russo estivesse aqui para fazer novos versos sobre velhas práticas e abrir nossos olhos, e dos nossos pais e das gerações futuras.

E que ficasse fulo da vida em ouvir seu refrão ‘Que país é esse?”sendo entoado por uma gente que vai para manifestação vestido de verde e amarelo, contra uma corrupção que só tem uma cor, com uma babá devidamente fardada, empurrando carrinho de criança, numa clara divisão de castas.

E é isso que Russo e muitos dos que ouvíamos suas canções jamais desejaríamos para nosso país: dividido, individualista, histérico, truculento, fundamentalista, corrupto.

Da minha parte, seguirei cantando os versos da Legião Urbana.

E, com chuva ou com sol, procurarei evitar “culpar meus pais por tudo”.

E, de tanto acreditar, “em tudo que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais”.

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Sheyla Azevedo

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