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Serra, serra, peixe-serra: a leitura como fonte de prazer e alegria

Quando eu era criança eu via nos livros didáticos textos de poetas como Castro Alves, Gonçalves Dias, Casemiro de Abreu, Alphonsus de Guimarãens, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, dentre outros. Eu gostava muito de ler os poemas destes autores. Os poemas me faziam viajar por mundos que eu desconhecia. Nunca me esqueci de uma estrofe do poema que nos leva a pensar sobre a diferença que existe entre a “Mocidade e primavera”. Ele diz assim: “Iguais parecem quando a vida as solta./Mas, no entanto, elas não são iguais:/a primavera passa e depois volta/e a mocidade não nos volta mais”. Poemas como esse me levavam a pensar na vida e me traziam mil e uma idéias à cabeça. E eu acabava inventando alguma história. Naquela época, eu não imaginava que um dia eu teria um poema meu publicado em um livro didático. E isso já aconteceu por duas vezes.

A última publicação de poema de minha autoria foi numa grande editora de São Paulo, que distribui livros para o país inteiro. Nessa obra didática foi publicado o poema Peixe-serra (do livro Poemares, BH: Editora Dimensão, 2007) seguido da sugestão de algumas atividades para o estudo do som da letra “R”. Então, se por um lado fico alegre em saber que uma grande quantidade de alunos poderá ter acesso a essa leitura, também fico triste e lamento que um poema seja utilizado apenas para o ensino de gramática. Quando escrevi esse poema, não pensei nele como ferramenta para o estudo da língua portuguesa ou mesmo para se ensinar matemática (apesar da contagem sugerida com o “quantos peixes já serrou?”).

Na verdade, ele é fruto da lembrança de uma brincadeira que meu pai fazia comigo, segurando em minhas mãos e me empurrando para frente e para trás, num movimento ritmado de serra, acompanhado da cantoria da parlenda “serra, serra, serrador, quantas tábuas já serrou?” O que eu fiz foi apenas transpor essa parlenda para o universo marinho. O serrador virou o peixe-serra e a tábua virou uma infinidade de seres marinhos possíveis de serem serrados. Então, muito mais do que ensinar qualquer coisa, o objetivo desse poema é lúdico. Ou seja, pretende levar a criança também a brincar de serra-serra. E faz isso de forma ritmada, cadenciada, explorando a melodia das palavras, as rimas, e a sonoridade dos nomes de alguns desses habitantes do fundo do mar.

É claro que um poema como esse pode ser usado de forma interdisciplinar, para ensinar português, matemática ou biologia. Mas o que ele pretende é a pura diversão em imaginar um peixe dotado de uma serra e que sai serrando tudo o que encontra pela frente. E faz isso de forma surreal e até meio absurda, pois o peixe-serra não chega a ser tão predador como sugere o poema. Claro que ele obedece às leis do reino animal e tanto pode ser caçador quanto caça.

O que eu quero dizer é que um poema como esse pode ir muito além do ensino da letra “R” dobrada.

Ele pode e creio, deve, ser utilizado como ferramenta para incentivar a leitura prazerosa e levar os alunos a usarem a sua capacidade imaginativa. E criar outros poemas. Ou inventar histórias a partir do poema. Montar um teatrinho. Coisas desse tipo. Ou apenas para que saibam que existe uma brincadeira muito divertida que eles podem fazer entre si, de maneira táctil, um segurar na mão do outro e brincar de serra-serra. Como muita gente deve ter brincado em sua infância – assim como eu -, seja pelas mãos do pai, da mãe ou de algum professor ou professora.

É uma pena que uma escola use qualquer texto de maneira mecânica e como uma ferramenta apenas para o ensino de gramática. Na minha visão esse é uma forma empobrecedora de se usar um texto, seja de prosa ou de poesia. Isso significa expropriar-lhe toda a beleza, o seu ritmo, a sonoridade das palavras e suas vertentes lúdicas. Ou seja, perde-se a oportunidade de exercitar-se a leitura como fonte lúdica, puro prazer.

Por outro lado, tenho visitado escolas aqui no Rio Grande do Norte onde meus livros são adotados. E tenho visto trabalhos fantásticos, que vão muito além dos poemas e que permitem que os alunos exerçam a sua criatividade e façam releitura e intertextualidade. Criam outros poemas, inventam histórias, fazem desenhos, elaboram objetos de colagem, pintam quadros, fazem caricaturas e tantas outras coisas que a leitura lhes desperta. Aí, sim, observa-se que o professor não fica preso ao texto como ferramenta burocrática, mas o encara como um campo aberto de possibilidades para os alunos exercerem a sua capacidade de leitura e escrita do mundo. São esses professores que estimulam a fantasia e a imaginação da criança e deixam-na livre para reinventar de acordo com a capacidade expressional própria de sua idade.

Precisamos formar leitores que consigam ler um texto e extrair dele muitos ensinamentos ocultos para além do mero domínio gramatical. Mais importante que a gramática é termos seres pensantes, criativos e que consigam ler com alegria e emoção. E ver na leitura uma fonte de prazer. E não algo que serve apenas para aprenderem melhor a língua portuguesa. Aí eu faço coro com o cartunista e escritor Ziraldo que gosta sempre de afirmar que “ler é mais importante do que estudar”. É claro que aí está implícito que a leitura, por ser algo prazeroso, dinâmico e rico, pode causar efeitos inimagináveis na vida da criança. O poema quando explorado da maneira ampliada, para além do próprio texto, sob o foco da beleza, da emoção e do encantamento, acaba sendo uma espécie de varinha mágica que permite à criança se sentir como um ser também criador de mundos. Um aventureiro das idéias, um viajante pelos mundos da fantasia onde sempre era uma vez… E assim, a leitura se transforma em algo mágico que poderá, anos à frente, talvez para o resto da vida, ser relembrado como algo que lhe trouxe muito prazer e alegria.

É verdade que o peixe-serra tem dois “erres”. Mas também há quem erre pensando que uma letra não pode ser verbo. Serra, serra, peixe-serra, quantas gramáticas já serrou?

PEIXE-SERRA

Serra, serra, peixe-serra
quantos peixes já serrou?

Serra mero e a sardinha,
serra mais sua vizinha…
Serra coral, alga marinha,
serra até Maria Farinha.

Serra, serra, peixe-serra
quantos peixes já serrou?

Segue nessa ladainha
com a serra ligeirinha…
Serra peixe, serra espinha,
serra a concha e a tainha…

Serra, serra, peixe-serra
quantos peixes já serrou?
Uma dúzia? Dúzia e meia?
Mas só sabe quem contou…

Serra, serra, peixe-serra
quantos peixes já serrou?

(José de Castro, in Poemares. BH: Editora Dimensão, 2007)

*José de Castro, jornalista, escritor e poeta. Mestre em Tecnologia da Educação. Professor aposentado do Departamento de Educação da UFRN. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN. Autor de livros infantis (A marreca de Rebeca, O mundo em minhas mãos, Poemares, Poetrix, Poemas brincantes, Dicionário engraçado, A cozinha da Maria Farinha, Vaca amarela pulou a janela). Contato: josedecastro9@gmail.com

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