Sete e Um

12 de agosto de 2010 às 13:54 - 2 Comentários
Por Cláudia Magalhães

Blog: www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com

Vivemos num mundo onde almas se procuram e quando se encontram morre parte do nosso céu ou inferno. Nessa oração, a vida nos aprisiona com o que nos resta dessas curas até o encontro fatal, derradeiro, que, independente de ser predestinado ou apenas uma questão de sorte, nos prova que estamos sempre em busca da morte. E foi num duelo com esta que conheci o riso e o choro, mas aprendi a não debochar.

O amor nunca me pegará! Esse pensamento me acompanhava desde a mais tenra idade. Na verdade, não queria conhecê-lo, pois sempre tive medo dos heróis, eles não são perfeitos e suas falhas me aniquilariam. Tamanho era o meu medo de encontrá-los ou reconhecê-los que passava grande parte do meu tempo dentro de mim. Em minhas tocas, em minhas esquinas, virei a morte dos humanos, a que vive onde a vida escarra. Seguia diante da vida impondo meus desejos de céu e minha sede de inferno, mudando a realidade, moldando-a de tal forma que ela atendesse a todos os meus desejos. Eu, algoz e vítima, a todo instante me perseguia e, com medo do amor, acelerava o tempo levantando minha saia de solidão e revelando minhas vergonhas. Precisava enrubescer para me sentir viva.

Aos vinte e dois anos quando meu primeiro namorado, com um buquê de flores, pediu-me em casamento, meia hora depois desejei ardentemente que ele tivesse um infarto fulminante na hora do jantar. O segundo, quando eu tinha vinte e cinco anos, pediu-me em casamento e me entregou um jogo de panelas, imaginei ele, que tinha Hipsifobia, medo de altura, seguindo até a varanda do meu apartamento e se atirando do sétimo andar. Aos trinta anos, desejei que o meu terceiro candidato a marido perdesse a consciência durante sua caminhada matinal, enquanto eu manuseava com tédio o presente que acabara de ganhar, um álbum de fotografias. Aos trinta e três imaginei meu quarto pretendente, depois do pedido, morrendo com uma dor torácica ao tentar levantar o meu presente que estava sobre o meu tapete, uma televisão. Aos trinta e seis, enquanto eu estampava minha cara de tédio ao abrir meu presente, uma caixa com três perfumes doces, imaginei o quinto, que sofria de síndrome do QT longo, indo dessa para uma melhor, sofrendo um gatilho emocional ao conferir que acertara todos os números do bilhete da loteria que esquecera de apostar. Aos trinta e seis, imaginei o sexto, que sofria de Wolff-Parkinson-White, uma doença que atinge em média quatro a cada cem mil pessoas, morrendo por excesso de exercícios na bicicleta que me trouxera de presente e aos trinta e nove anos senti uma enorme felicidade imaginando meu sétimo pretendente morrendo com uma parada cardíaca depois de me presentear com um livro de auto-ajuda e não teria desfibrilador portátil, ressucitação cardiopulmonar e nenhum medicamento que o salvasse. Embora as situações fossem outras, as vítimas e o que tem dentro delas também, na hora do pedido de casamento sentia uma espécie de assombração por todos e assustada sempre dizia: Não! Ao desejar suas mortes não tinha o menor rasgo de sofrimento, pelo contrário, um enorme alívio me consumia.

O oitavo pretendente, depois de tomar uma garrafa de vinho, na mesma noite em que nos conhecemos, me pediu em casamento e, sem nenhum presente em mãos, aproximou-se com gestos rápidos e tirou minha roupa. Senti um tremor na alma que a cada olhar dele se emocionava e tentando recusar essa emoção perdi a lucidez. Lembro que em pensamento o chamei de irritante, vadio, louco, mas um turbilhão de sentimentos me invadiu, o que não ousaria resumir em uma única palavra. Entrei na mais perigosa fuga. Ali, num assalto do tempo ou num acordo cúmplice com a morte, o amor me alcançou. Feito flores “bocas-de-lobo” em meio a espinhos encheu-me de um carinho violento e passei a me sentir em perigo. Ele despertou a beleza e a ternura que me inquietava, penetrou minha carne seguindo o terço das emoções, rezou sobre meu sexo sem pressa, elevando sua temperatura tal qual um vulcão prestes a entrar em erupção e com seu líquido quente eletrizou meu corpo até as pontas dos meus cabelos, as raízes do meu tempo, de uma maneira tal que, naquele instante, eles pararam de crescer. Em seguida, levou-me até o inferno sem tirar-me do altar. Depois das horas de amor, o vi perdendo os sentidos. Em desespero, toquei em sua carne fria, em suas mãos roxas, em seu rosto distante dos sorrisos que exaltaram e iluminaram a noite. Diante da sua morte, pude ver o mundo faminto desde sua criação devorar-me, enquanto pessoas vestidas iguais me ofereciam flores sob murmúrios que exprimem grande devoção a dor ou total ausência desta, cheios de horror diante do infeliz destino da assassina, da desgraçada, da besta-fera, da que seria infeliz no amor até o momento da terra cuspir em sua cara. Com a dor fazendo ondas em meu peito, pensando em sua ausência, em sua carne apodrecendo, entrei em desespero! Foi preciso vê-lo frágil, fraco, ver a vida cuspí-lo para descobrir que ele pertencia à minha vida. Minutos depois, o perfume da paixão me subiu às narinas e me trouxe à realidade. Com grande alívio, observei seu rosto cheio de cor e o seu sorriso que antecipava as horas de prazer, as quedas livres do gozo e tudo o que até hoje me exprime ternura. O seu amor me torna invisível aos olhos da morte, ele disse feliz, como se lesse os meus pensamentos. Há dez anos ele repete essa frase e, nus, continuamos roubando os sonhos do mundo, nada mais justo quando se quer viver um grande amor.

2 Comentários

  1. Jarbas Martins
    12 de agosto de 2010

    quer escrever minha autobiografia, cláudia ? já tenho um título: “folhetim de mim”. que lhe parece ?

  2. 13 de agosto de 2010

    Eita, que maravilha, Jarbas! Será uma honra amigo! rs Adorei o título! Vamos fazer sua autobiografia sim! Vamos começar já! Marque logo nosso encontro que já estou com a caneta na mão! rs

    Beijos, querido!

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar