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Silvina Rodrigues Lopes: literatura, estranheza e atrito

Por Júlia Studart
PROSA – O GLOBO

Em dois livros, a crítica portuguesa pensa questões da literatura entre cultura, política, pensamento e ensino

Pasolini, num pequeno texto que escreveu como espécie de abertura a uma reunião de seus poemas, de 1970, ao falar de seu cinema, afirma: “foi como poeta que realizei todos esses filmes”. Depois, reposiciona todas suas questões em torno de um pensamento para a arte como um “problema da minha vida e da minha carne”. Essas duas imagens conversam diretamente com dois livros de Silvina Rodrigues Lopes recém-publicados e, principalmente, com a forma como ela trata e revolve a invenção crítica que escreve: como um poeta, com vida e carne.

O primeiro, uma reedição que há muito se fazia necessária, intitulado “Literatura, defesa do atrito” (que teve a primeira edição em 2003), numa parceria das Edições Vendaval, de Lisboa, com um projeto do coletivo Chão da Feira (<www.chaodafeira.com>), entre Lisboa e Belo Horizonte. O segundo, “A estranheza-em-comum”, pela Lumme Editor, na coleção Móbile de mini-ensaios.

Silvina Rodrigues Lopes é professora da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, e há tempos vem se dedicando a uma construção crítica muito corajosa e pertinente em direção às questões da literatura e seus trânsitos nos tempos de agora. A literatura como um jogo dissonante entre os problemas da cultura, da política, do pensamento, do ensino, do comentário, como por exemplo em seu livro “Anomalia poética” (2005). Alguns de seus textos também resvalam para ler com força o que se pode chamar de literatura portuguesa, caso de “Exercícios de aproximação” (2003), mas sempre tentando escapar a uma condição meramente nacionalista, abrindo e justapondo escritores como Fernando Pessoa, Ruy Belo ou Agustina Bessa Luís a uma rearticulação a-funcional e a-histórica. Depois, rearmando as impossibilidades do sentido e do irreparável em autores como Luis Miguel Nava ou tentando ler de muito perto as variantes imprevistas do texto denso de Maria Gabriela Llansol.

“Literatura, defesa do atrito” é composto de um conjunto de textos que passeiam sobre o que ela pontua como “um movimento de paciência e inquietação” entre “o que é” arte e “quando há” arte. São dez ensaios provocadores que seguem uma tarefa de interdição, uma “potência de interrupção” numa equação um pouco mais vertiginosa: “o que é é quando há”, ou seja, “o que é, como é, continua a ser o que importa”. Diz Silvina, a partir de Hannah Arendt, que “ser homem e ser livre são uma só e mesma coisa” e que, nessa salvaguarda da liberdade e numa atenção ao singular, podemos começar a mover a literatura como um gesto que pode “abrir espaços vazios no manto liso da cultura e impedi-la de ser inteiramente dominada pelo emaranhado das trocas sociais”. Ao mesmo tempo, num contra-movimento e sem consentir acessos facilitados, afirma que “é preciso impedir que a banalidade que aparece hoje consensualmente como literatura não se arrogue em breve um direito de exclusividade”.

Assim, nesse livro, ela segue numa operação entre temas e circunstâncias para recorrer e recriar um sem número de variações acerca de uma ideia de literatura que salte ao sintoma dos tempos do presente, o de uma “situação dominada pela circulação sem atrito”, para possibilitar o “ironismo afirmativo” da literatura — “uma negação atravessada pelo sim da experiência que a constitui” — como o seu amplo e oscilante modo de testemunhar. É exatamente por isso que usa esse apontamento do que chama de uma “defesa do atrito”, uma defesa da aderência do corpo da literatura ao mundo e também como uma responsabilidade importante que deve ser assumida com o presente e também com o futuro; o que Giorgio Agamben chama, noutro movimento, de “profanação do improfanável”, ou seja, a verdadeira tarefa política da geração que vem.

Chama atenção, entre esses ensaios de Silvina, o que se intitula “A paradoxalidade do ensino da literatura”, e que faz muito sentido entre nós quando vivemos uma série de mudanças muito rápidas da escola, da universidade, das humanidades, da pesquisa etc. Ela elabora um argumento seguindo uma frase de Nietzsche — “Rio-me de todo o mestre que não se ri de si próprio” — desdobrando-a: “como pode o mestre rir-se de si próprio, se ele se ri de todo o mestre que não se ri de si próprio?”, “para que é que se ensina literatura?”, “como é que se ensina a literatura?”. E afirma: “É que o ensino torna exorbitante a questão do que é ser-si-próprio”.

Para Silvina, o ensino da literatura tornou-se, em grande escala, um mero uso de técnicas e de métodos de aplicação da literatura e isso, por sua vez, armou uma barreira entre as obras e o mundo, gerando desinteresse e enfado. E aí, coisas como a tecnocratização ou o controle de mercado, que interferem diretamente no ensino da literatura, como um projeto de informação (uma máquina de produção em série) e não mais de formação, desfazem o caráter da literatura como um elemento perturbador da estabilidade do conhecimento do mundo. Caráter que, sabemos, nos move para pensar mas que não determina o pensamento.

Longe de qualquer projeto de doutrinação, a literatura se vincula muito mais ao inacabado e é por isso que, segundo Silvina, o ensino da literatura nos exige um “tempo próprio, que nada tem a ver com a circulação de informações, um tempo de análise e de construção de perspectivas”. Diz ainda que o ensino não pode ser convertido em administração de um capital simbólico ou no adestramento do uso de técnicas, mas sim possibilitar um desenvolvimento constante do conhecimento por dentro da condição paradoxal da literatura: “preparar para a sua própria negação, a negação de ideias feitas, qualquer que seja o seu estatuto”.

“A estranheza-em-comum” é um conjunto aberto de três ensaios que, de certa forma, parecem continuar as proposições tratadas em “Literatura, defesa do atrito”, ampliando-as a partir de um enfrentamento da ideia que talvez lhe seja a mais cara: a de que a instituição literária, “sob pena de se autoanular, ao anular aquilo que a separa de outras instituições, não poderia senão existir permanentemente contra si própria e contra o instituir ele próprio”. Intitulados, respectivamente, “A estranheza-em-comum”, “A desordem imprevisível da arte” e “Plural, híbrido, heterogêneo”, esses três ensaios compõem um norte da e para a literatura como um gesto do “ser-com-os-outros”, sugerindo que o “pensamento da literatura não tenha um fim exterior” e, principalmente, que há na literatura “um impossível sobre-viver, encontro em que a memória única, insubstituível, nasce da memória vinda dos outros, da sua estranheza”.

E segue, movendo-se entre sugestões e articulações críticas retiradas de Kierkegaard, Derrida, Jean-Luc Nancy, Bernard Stiegler, Ezra Pound, Pessoa, Ruy Belo, Rancière. A literatura comparece como “um direito a dizer tudo, dizer até o vazio, o segredo absoluto” e, ao mesmo tempo, como uma variante que se empenha entre as formas do “híbrido instável”. E a crítica como um desejo de alterar-se que está contido na alteração do mundo e que em nenhum momento coloca-se como subordinada a uma intenção, a uma história ou apenas a um desejo.

Por tudo isso — da literatura como defesa do atrito e como estranheza-em-comum — é muito valioso ter esses livros entre nós. Com eles podemos entrar a vida e a carne do pensamento de Silvina, que, numa conversa livre com Nietzsche, posiciona sua tarefa crítica com a arte como uma tentativa plural e heterogênea do poeta: uma condição impertinente que pode “salvar a alegria do diverso”.

 

Júlia Studart é poeta, doutora em Teoria Literária (UFSC/Universidade Nova de Lisboa) e autora de “Arquivo debilitado: o gesto de Evandro Affonso Ferreira” (Dobra), entre outros.

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Tácito Costa

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