Sing Street e a música como autoria cinematográfica

Gustavo Bittencourt
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Sing Street.2

“O trabalho de John Carney é para ser visto e ouvido como algo perene, embora a fórmula do sucesso de Apenas uma vez esteja presente nos filmes seguintes, em Mesmo Se Nada Der Certo e ainda em Sing Street – Música e Sonho”

O conceito de autoria no cinema foi elaborado por críticos cinéfilos no século passado, na revista Cahiers du Cinéma, por nomes como François Truffaut e Jean-Luc Godard.

Essa proposta, chamada na revista de ‘política dos autores’, tratava o cinema como arte autônoma, na superação do aproveitamento de recursos expressivos das artes que a precederam em termos formais.

Exemplos são a literatura e a pintura, possivelmente as maiores influências vistas em roteiros e enquadramentos, diante de um processo industrializado por natureza que determina o meio cinematográfico.

Desta forma, críticos franceses se tornariam cineastas canônicos e marcas autorais consagradas (o nome Godard precede sua obra).

Eles começaram a observar diretores como responsáveis pela criatividade do cinema, dentro de um sistema produtivo gerado na tensão das relações entre arte e tecnologia industrial, dependente sobremaneira da produção coletiva de profissionais.

Desde os técnicos de edição, iluminação, fotografia, trilha sonora, ao trabalho dos atores, é difícil e, muitas vezes, injusto atribuir genialidade criativa ao trabalho coletivo.

Assim foi forjado um conceito arraigado na cultura até hoje, o de filme autoral.

Acontece que os desdobramentos dessa invenção perpetuada pela crítica, como forma de valorizar e distinguir o cinema como ‘arte’, parece ter sofrido mais dos efeitos colaterais que perpassam a preocupação inicial de distinção artística. O culto à personalidade é um desses problemas.

Hoje, diretores ainda em formação pleiteiam uma aura de expressividade autoral antes mesmo da obra realizada, uma premissa conceitual para um trabalho que ainda não foi gestado.

O nome principal nos créditos pode valer mais do que o filme em si. Ou mesmo a ênfase mercadológica no autor, como marca para filmes – muitos de qualidade discutível.

Veja a quantidade de diretores propagados por estratégias publicitárias. Nomes inexpressivos se transformam em grifes e causam expectativa em distintos nichos de mercado.

Estética, moral e política

Mesmo assim, o conceito serve muito bem aos estudos de cinema.

Por extensão, a crítica disserta ou opina quase sempre a partir de uma relação afetiva com os filmes, amparada em premissas morais, estéticas e políticas.

Neste caso, chama atenção à autoria de John Carney, em sua relação com a música como motor narrativo e expressão estética em três filmes de sua filmografia.

É importante observar o lado compositor do irlandês, pois é de sua autoria parte das músicas que compõem suas obras cinematográficas. Bem como sua habilidade como roteirista original.

Desde o surpreendente OnceApenas uma Vez, o diretor trabalha com o tema da musicalidade despertada no encontro com uma musa.

Sing Street_John Carney

Irlandês John Carney usa música como inspiração criativa em seus filmes, casos de Once – Apenas uma vez (2007) e deste Sing Street

Neste filme de 2007, Oscar de melhor canção original para “Falling Slowly, o encontro casual entre um desempregado e uma forasteira nas ruas de Dublin desperta a composição expressiva entre profissionais que passariam despercebidos.

O amor platônico entre os personagens, vividos por Glen Hansard e Marketa Irglova, é tão vibrante que catapultou ao mundo o talento desses artistas – os dois são músicos profissionais.

A fórmula é seguida com sucesso em trabalhos posteriores.

Se o hollywoodiano Mesmo se nada der certo (2013), parece uma versão da narrativa vivida por Tom Cruise em Jerry Maguire – A grande virada (1996), adaptada ao mundo da indústria musical, este filme dirigido por Carney possui personalidade própria.

Em Mesmo se Nada Der Certo, nem precisava da participação do vocalista do Maroon 5, Adam Levine, como personagem, e da modelo-atriz Keira Knightley, para o público se encantar com a história.

Vale lembrar que a direção de Jerry Maguire com o astro Tom Cruise é de Cameron Crowe – de Quase Famosos (2006), um dos melhores filmes já feitos sobre o universo do rock.

Um dos dez melhores filmes ‘desconhecidos’ de 2016

O trabalho de John Carney é para ser visto e ouvido como algo perene, embora a fórmula do sucesso de Apenas uma vez esteja presente nos filmes seguintes, em Mesmo Se Nada Der Certo e ainda em Sing StreetMúsica e Sonho.

Do encontro casual entre indivíduos, fator que catalisa a gênese musical com o reconhecimento de uma musa inspiradora, vem a temática recorrente nos filmes do autor irlandês.

O diretor pode ter apenas uma ideia em mente, mas a usa com inspiração, explorando nuances artísticas em sua relação com a vida.

Sing Street_posterEm Sing Street Música e sonho, John Carney deixa o cenário nova-iorquino de Mesmo Se Nada Der Certo para retornar ao terreno nativo, a Irlanda.

Essa Escola do Rock versão europeia recebeu ótima definição do amigo Fabiano Levis, que definiu o espírito do filme e ajudou na divulgação pelo método mais honesto, insuspeito e espontâneo de publicidade: o boca a boca.

No filme de Richard Linklater, Escola do Rock (2003), protagonizado com graciosidade e verve absoluta pelo autêntico rocker Jack Black, a música é fundamental na educação para a vida, com sua necessidade de disciplina, variedade e sintonia com trabalho em equipe.

Mas, se no exemplar americano, humor e leveza preparam o terreno para edulcorar aspectos subversivos necessários à puberdade/maturidade, no primo europeu, a compreensão da fase de amadurecimento é enriquecida por melancolia, tenacidade e um ímpeto sonhador que não deixa de refletir sobre dificuldades da vida.

Sing Street despertou minha atenção, antes da sugestão do amigo e do reconhecimento da marca autoral de John Carney, ao ser incluído em uma listagem de filmes menores que passaram despercebidos em 2016, elaborada por críticos da revista online Indiewire.

O filme irlandês ficou entre os três primeiros lugares em uma delas!

The Cure

The Cure (foto) e Duran Duran na trilha sonora focada nos 80’s, uma “nostalgia de uma fase na vida necessária para o autoconhecimento, mesmo com decepções e fragilidades”

Sing Street e a perspectiva cultural

Bem mais do que a suposição de reconhecimento espontâneo, Sing Street (disponível no Netflix) vale como aprendizado cultural e afetivo sobre os anos 1980, em um pequeno país europeu, sob a perspectiva musical do período. A trilha sonora tem Duran Duran, The Cure, dentre outros.

Aborda uma juventude que não se sujeita aos valores da doutrina cristã, responsáveis por boa parte da educação no Ocidente, com regras e imposições que mascaram autoritarismo, personificadas no filme pelo violento padre/diretor da escola.

Sing Street – Sonho e música (famigerado subtítulo do filme no Brasil) sugere nostalgia de uma fase na vida necessária para o autoconhecimento, mesmo com decepções e fragilidades. Porém, não deixa de dialogar com a cultura atual.

A preocupação da banda em elaborar videoclipes, o que marca seu surgimento na cultura pré-MTV, ganharia cada vez mais espaço artístico nessa seara.

Dominar o audiovisual delinearia contornos cada vez mais profissionais na atualidade para definir parte de nosso estágio nessa cultura.

Assim como uma crítica feita no filme, pelo guru e irmão mais velho do personagem central, a vida deve ser levada na toada de uma canção de Robert Smith do Cure, de forma bonita e triste ao mesmo tempo.

Eis o espírito do filme, dedicado aos irmãos em qualquer lugar do mundo.

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Gustavo Bittencourt

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