
Percebi nesta semana que o terremoto aproxima.
O medo da tragédia coletiva nos une a todos.
Bastou a terra tremer em Taipu (foto de Canindé Soares), na mítica Jerusalém, assentamento distante algumas centenas de quilômetros dessa nossa predestinada Natal, para reencontrar, mesmo por telefone, amigos que eu não via nem ouvia fazia muito tempo.
Estão me dando adeus?
Estamos todos fadados a essa emoção sinistra que exige a despedida simbólica.
- Sentiu aí?
- Vôts! O quê?
- O negócio balançando…
- Opa! Agora é que não entendi mesmo..
Só depois compreendi: a terra tremera agorinha mesmo.
Em 1986, a última e traumática experiência com sismos: as idosas da minha rua de camisola, fora de casa, olhando o céu. Eu não sabia se corria para debaixo da cama e pedia, corajoso a enfrentar o pior do males, “mais tremor, Deus, por favor”, ou se desembestava no meio da rua, louco, diante daquela visão, que não era lá nenhum paraíso. Algumas de “bobes” no cabelo, outras com a cara besuntada. Um horror.
Esse terremoto nos encontra mais velhos, mais experiente e com mais olheiras – o que não chega a ser vantagem. E com pensamentos assim, politicamente incorretíssimos.
Por onde andam aquelas senhoras? Terei de encontrá-las no juízo final? Será esta a hora? Elas me reconhecerão? Terei de cumprimentá-las? Vão entrar junto comigo no céu ou no inferno? Serão minhas companheiras na vida eterna?
Meu computador não tremeu, a mesa não balançou, a cadeira permaneceu no mesmo lugar. Talvez, ao contrário da terra, eu esteja mais centrado, mais firme, o que, provavelmente, não corresponde.
Desde segunda-feira, todos que me encontram têm sua história do tremor para contar. Eu não senti nada. Não tenho nenhuma versão, não vivi drama.
Só pode ter uma explicação: deve ser o trauma das minhas velhinhas – de bobes e caras besuntadas. Foram elas, naquele 86, que me fizeram assim, essa fortaleza invencível, esse porto seguro à prova de abalos sísmicos.