Geral

Só piora

Os retirantes_Candido Portinari 1944

A quem esse (des)Governo está servindo? Alguém ainda tem dúvidas?

Ainda não era responsável pelas minhas economias e minha vida financeira quando ocorreu o confisco das poupanças no Brasil, no governo Collor, no início dos anos 1990. Mas lembro muito bem o furor que aquilo causou ao povo brasileiro. Teve gente até que cometeu suicídio, tamanho foi o desespero daquela época.

Quem tem mais de 30 anos há de se lembrar da cara quadrada e macilenta da ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, mentora do plano econômico que não só prendeu o dinheiro alheio, como também deu início a um dos processos mais nefastos dessa era: as privatizações, para quem pensa sobre o Estado, para quê e para quem ele serve. Começava ali o pontapé para a construção do Estado mínimo, em detrimento a um Estado social, que vimos nascer e definhar em tão pouco tempo.

Assistindo dia desses ao documentário “Ojos Bien Abiertos” (2010), de Gonzalo Arijón, que faz um panorama sócio-político e econômico dos países latino americanos, eu vejo o jornalista e escritor uruguaio, Eduardo Galeano (1940 – 2015), divagando sobre o significado da palavra “mercado”.

As diferenças semânticas do mercado de sua infância – que era um lugar, uma bodega, como aqui chamamos, onde se vendiam coisas, se sentia cheiros, onde era possível uma criança mergulhar no rico universo dos sentidos – e o que o “mercado” agora significa.

Essa entidade acima de tudo e de quase todos, que está a serviço de tão poucos (leia-se donos de meios de produção, banqueiros e meia dúzia de financiadores internacionais) e que dita e conduz a “boiada” (leia-se o povo trabalhador, que vive de salário no final do mês) para um modelo macroeconômico (neoliberal) que anda de mãos dadas com o desmonte do Estado, com a aniquilação dos investimentos em políticas públicas, como educação, por exemplo.

Diante de um choque, de uma grande crise econômica e de uma retração de renda que o próprio mercado orquestrou para o Brasil nos últimos dois anos, vimos uma presidenta eleita ser retirada de seu cargo – porque ela não compactuava com a “sangria” que poderia ocorrer contra os envolvidos da Operação Lava Jato.

E agora que vivemos sob a égide desse governo severamente opositor ao povo brasileiro, sentimos em todos os poros que o que estava ruim, ficou muito pior.

Ojos Bien Abiertos

Cena do documentário “Ojos Bien Abiertos”

Estamos diante de um projeto que estanca quaisquer medidas que apontem para o crescimento ou desenvolvimento de políticas estruturantes. Como a PEC 55, por exemplo, que apresenta um regime fiscal que congela em 20 anos os investimentos nos gastos públicos. Algo que fere de maneira cristalina a Constituição de 1988. Então, sem medo de ser reduntante, digo novamente: foi um Golpe, sobretudo contra o processo de crescimento e de estruturação dos deveres do Estado.

Golpeados estamos por todos os lados. O discurso institucional calamitoso, a crise e o descrédito entre os poderes constituídos, são prato cheio para se impor as medidas radicais de mercado. Alguns entram nessa dança por ingenuidade, outros sabem muito bem o que estão fazendo.

Reparem nos próximos meses, meus queridos leitores, o direcionamento de um dos nossos homens da política, um dos principais defensores do discurso neoliberal, e se ele não alçará voos para as bandas do Sudeste, onde poderá orquestrar seus projetos de lei para defender a nata do empresariado brasileiro em São Paulo.

Não bastasse o cobertor curto do Estado e a entrega ao setor privado de serviços que pertencem ao campanário dos direitos do povo, Temer está planejando duas outras medidas igualmente temerárias para 2017: a reforma da previdência e a reforma trabalhista. São ataques certeiros.

Primeiro, fragilizam-se as condições do Estado de promover políticas sociais; segundo, retiram-se conquistas dos trabalhadores. De maneira que essa crise que desencadeou toda essa estratagema cruel contra os avanços que tínhamos há bem pouco tempo é, sem dúvida, a pior que já tivemos no nosso país. Porque ela consagra o pior tipo de política que já tivemos de encarar: a da austeridade, aliada ao conservadorismo e à corrupção orgânica de nossas instituições.

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Sheyla Azevedo

Comentários

1 comment

  1. Ruben G Nunes 14 março, 2017 at 21:02

    Parabéns Sheyla! Muito bem argumentado do ponto de vista da crítica ao Estado Mínimo.. Todavia se a gente pesquisar seriamente a História sem vesgamentos ideológicos o que se percebe é que os Estados Máximos nunca deram certo do ponto de vista social. Viraram um mamute pseudo ideológicos e uma burocracia corrupta e inimiga da Liberdade. Os Estados mínimos que seguiram o keynesianismo que articula racionalmente produção com distribuição tiveram e têm tido avanços sociais surpreendentes sem revoluções sociais destemperadas ou mesmo sem revoluções de posições do tio Gramsci. Os países nórdicos são exemplares. Bem como o Japão. Claro que o Capitalismo mal administrado pode explorar. Requer rígido controle estatal mas nunca intervencionista. Adam Smith ainda é uma verdade produtiva e distributiva de riquezas.
    Prezada Sheyla esse é um tema muito interessante e importante que merece uma discussão não-ideologia e sempre olhando a História.
    Cordialmente
    Ruben G Nunes
    PS – não concordo com a narrativa de golpe. Mas concordo que o Temer tá dando nó em pingo d’agua

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