Sobre a Invenção do Nordeste

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Depois do sucesso de “Jacy”, o Grupo Carmin lança o livro Década Carmin e volta aos palcos com A Invenção do Nordeste, que não consegue se desvencilhar dos estereótipos que coloca na parede.

Com a nova peça A Invenção do Nordeste, que estreou na última sexta-feira, 4, na Casa da Ribeira e voltará em setembro em uma segunda temporada, o Grupo Carmin, provavelmente, precisou superar dois grandes desafios.

O primeiro diz mais sobre o público e suas expectativas do que mesmo – talvez – sobre qualquer dilema que tenha “azucrinado” os atores, dramaturgos e diretores do Grupo Carmin no processo de criação, na temporada de ensaios e na própria noite de estreia. Como, no campo das artes, o cuidado com “não se repetir” deve ser sempre uma questão, vinculado a esse desafio, inevitavelmente, está Jacy, o trabalho anterior que estourou em todo o país e foi sucesso de crítica e público nos últimos três anos. Teríamos que ficar procurando reflexos e elementos comparativos para estabelecer semelhanças e distanciamentos de um trabalho com o outro?

É pertinente a comparação do novo espetáculo com Jacy?

Quanto ao fato de que os dilemas dizem mais respeito ao público do que ao Grupo Carmin, na verdade, estamos no âmbito da mera conjectura (aparentemente, irrelevante). Principalmente, porque é no espetáculo A Invenção do Nordeste onde estão as continuidades e/ou diferenças, já que nem sempre a intenção se reflete no que é posto em cena (e, no teatro, o que é encenado é sempre um processo, o que faz uma peça ser uma espécie de mutante, quase nunca a mesma da noite anterior; e, diferentemente de outras artes, pode ser lapidada, ajustada e/ou ampliada ao longo de toda uma temporada). No entanto, se não cabe o comparativo, ele é inevitável, pela possibilidade de revelar até que ponto o encenado não passou de repetição da mesma fórmula de Jacy ou se, ao contrário, deu um passo adiante para além dos trabalhos já colocados no tablado pelo grupo, o que nos dá uma visão sobre a obra do grupo e menos um dado localizado.

E o que nos revela A Invenção do Nordeste?

Em termos de continuidade, uma das marcas do Grupo Carmin, a metalinguagem não pode ser vista como uma fórmula que a nova peça apenas revestiu (ou trocou a roupa, mudou a cor, os nomes e deu um enredo diferente). Em Jacy, que adotou o teatro documental como princípio, a metalinguagem era processo que nos explicava como um espetáculo surgiu, foi elaborado e no que, afinal, resultou. A metalinguagem era – por consequência – processo e registro (ou, para ser mais exato, o registro de um processo de criação), ainda que, naturalmente, atravessado de ficções, invencionices e (re)criação (o que não poderia ser diferente no campo da arte).

Já em A Invenção do Nordeste, cuja dramaturgia é assinada por Pablo Capistrano e Henrique Fontes, a metalinguagem é tão somente tema e, portanto, objeto da dramaturgia e da encenação (e não o único tema, é verdade, pois parece ser uma tendência no teatro do grupo trabalhar sobre um objeto múltiplo e indefinido, o que faz o “Objeto-Carmin” sempre ser um objeto híbrido, que, invariavelmente, constitui-se de comédia e drama, do processo como tema, do real e da ficção, da história coletiva e da dimensão biográfica que, por vezes, incorpora as trajetórias dos atores, que são personagens e sujeitos históricos do que é posto no palco com suas atuações, com brilhantes pitadas de auto-ficção como se fossem intérpretes de si – inclusive, transferindo os seus próprios nomes para os personagens que dão vida.

(E isso já estava em “Por que Paris?”: peça de 2015 sobre Marguerite Duras e, ao mesmo tempo, sobre Quitéria Kelly e Adelvane Néia, que envolve passado e presente; Paris, Saigon, Natal, Paraíba; a dimensão histórica e a biográfica…. e a metalinguagem).

Em A Invenção do Nordeste, a partir de três atores no palco, que interpretam um diretor (Henrique Fontes) a avaliar dois atores (Mateus Cardoso e Robson Medeiros) que disputam o papel de “um personagem nordestino”, o Grupo Carmin dá corpo e alma ao livro homônimo do professor da UFRN Durval Muniz de Albuquerque Jr., no qual a peça se baseia e é apenas inspirada (com base em entrevista dada pela diretora Quitéria Kelly e nas palavras da equipe ao final da apresentação na noite de estreia). Ser apenas inspirada já não nos leva a qualquer questão quanto a se o espetáculo é tão somente uma ilustração do que já está posto por outra linguagem, nem a analisar até que ponto, sendo, meramente, reprodutiva, haveria razão de existir – pecado que, corriqueiramente, acontece no cinema brasileiro com as adaptações (ou melhor, reproduções audiovisuais) de obras literárias.

Sob o comando de Mathieu Duvignaud, que responde pela cenografia e direção de arte, o cenário de A Invenção do Nordeste aproxima-se de uma vertente mais minimalista de espaço cênico, sendo constituído por uma mesa no canto do palco e por um telão mais ao fundo. Como em “Jacy” e “Por que Paris?”, há todo um trabalho de “dramaturgia audiovisual” desenvolvido por Pedro Fiuza, com a projeção de trechos de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964, de Glauber Rocha), de gravações de querelas entre senadores no Congresso Nacional, recortes de fotografias e parte da encenação da própria peça. Parece caber sempre a essa “dramaturgia audiovisual” alargar e aprofundar esse cenário – torná-lo mais complexo, híbrido e imaterial.

Afinal, “a tela também coloca em cena”, como lemos no texto da peça “Por que Paris?”, que foi publicado no recém lançado livro Década Carmin (Ed. Fortunella Casa Editrice, 2017) junto com outros textos dos demais espetáculos do Grupo Carmin. E é essa mesma “dramaturgia audiovisual” que promove um dos momentos mais brilhantes da peça: o jogo de espelhos e sincronia do teatro com o cinema, da realidade com a ficção, duplamente reencenadas no palco a partir dos diálogos entre os atores Mateus Cardoso e Robson Medeiros mimetizando diálogos projetados no telão do filme de Glauber Rocha. Se o comparativo fosse necessário, esse momento é um dos destaques, ao lado do Segmento 4: buscando o corpo nordestino, no qual o ator Mateus Cardoso desenvolve a performance de uma palestra-show.

Em A Invenção do Nordeste, somos imersos em um período ficcional de sete semanas, que é a temporalidade na qual o diretor avalia os atores e desenrola-se o conjunto de segmentos que dá conta da questão inicial: “Um ator nordestino, de preferência norteriograndense, poderia interpretar um personagem nordestino”?

E o que esse novo trabalho tão esperado do Grupo Carmin coloca em crise?

As representações simplificadas, reducionistas e estereotipadas sobre o Nordeste, assim como os regionalismos mais tacanhos sobre a nossa cultura e a nossa gente (e o NOSSA não deixa de ser alvo da brilhante caracterização dos personagens-atores, com seus próprios estereótipos e amarras; e do segmento do mapa do Brasil projetado, no qual, ao mesmo tempo em que desconstroem um país e uma região, desconstroem-se noções regionalistas que não nos levarão a lugar algum).

Mas a peça coloca em crise sobretudo essas representações que se constituem em máscaras superficiais sobre todo um complexo cultural que não se resume somente a riqueza dos cantadores de viola das feiras nordestinas, a poesia marcadamente localizada de Morte e Vida Severina, a cangaceiros e fanáticos, a plasticidade regionalista de Newton Navarro ou o provincianismo incurável de Vaqueiros e Cantadores. Pois, nós também somos, ao mesmo tempo, o eruditismo musical “improvável” de Felinto Lúcio, a vanguarda “impensável” do poema-processo de Moacy Cirne, Falves Silva e outros, bem como a atemporalidade de João Cabral de Mello Neto, que não é feita só de retirantes e flagelados, mas de bailadoras andaluzas capazes de incendiarem-se com nada e sozinhas; e da geometria e solidez de um rio, tão espesso quanto uma maçã e um cão sem plumas.

Mas o que está na peça?

De “nós” também foram gerados, não obstante os conceitos e caracterizações habituais, o anti-provincianismo de Prelúdio e Fuga do Real: outro lado da moeda Câmara Cascudo – que, com esse livro, passa longe do quadrado das representações e estereótipos fáceis (que, ao cabo, a academia e as críticas não conseguem se desvencilhar, e acabam em um embate sem apresentar outras versões que, de fato, também dizem o que é o Nordeste). Nesta nova peça do Grupo Carmin, o centro da questão se detém apenas nos estereótipos, brilhantemente, satirizados e caricaturizados, é verdade, especificamente no embate entre dois atores nordestinos, presos, cada qual, a visões que tem sobre si. A crítica e o desmonte dessas visões já bastariam, mas não são tudo!

Nesse sentido, o centro em A Invenção do Nordeste está naquilo que nos encaixota (no sentido do olhar do outro) mais do que nas práticas artístico-culturais que nos levam à plasticidade original de um Abraham Palatnik, a pintura obscura de um Leopoldo Nelson, ao tecido poético de um José Leonilson, ao cinema de um Rosemberg Cariry, a poética universal do guesa de um Sousândrade e, mais uma vez, ao autor de Civilização e Cultura, Felinto Lúcio, poema-processo etc. etc. etc. (Por que também não confrontar com outros Nordestes, que também nos definem, as visões padrões prenhe de estereótipos sobre NÓS?).

Talvez o segundo grande desafio do Grupo Carmin, ao colocar no palco esse novo trabalho, tenha sido o cuidado em não atribuir estereótipos, como, ao Nordeste, atribuem corriqueiramente; e ser ele próprio, paradoxalmente, produtor de representações sobre o outro (especificamente, o olhar do outro em nossa direção, que não é um todo unitário e estanque). Até porque o reconhecimento de Abraham Palatnik e José Leonilson, dois ilustres desconhecidos por estes lados, deu-se no mesmo “Sul-Maravilha” que não pode ser reduzido apenas a uma das vertentes do olhar sobre o “Nós”.

Mas, afinal, qual é a outra versão do Nordeste que não cabe nas representações da mídia e do “sul-maravilha” que, ao longo das décadas, tentam nos colocar em um nicho regionalista que sozinho não nos define?

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Marcos Aurélio Felipe

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