Sobre “A UDN no shopping e nas eleições”
29 de agosto de 2010 às 16:20 - 2 ComentáriosDe Chico Moreira Guedes, no comentário ao texto “A UDN no shopping e nas eleições:
A descrição feita pelo artigo é quase completa. Faltou citar um grupo de, digamos, neo-udenistas “gauche”; de gente sofisticada, no bom sentido, que lê bastante, ouve boa música, e despreza a cultura dos shoppings e os pastiches arquitetônicos e culturais à la Miami Beach, mas que se perfila mais udenisticamente do que ninguém quando se trata de apontar o “analfabetismo” do presidente Lula, que deploram a “cultura de incultura” que Lula supostamente epitomiza e “impõe” como exemplo à nação em geral, tanto quanto o novo “mar de lama”, em que consideram mergulhado o governo atual.
Vivem numa ilha da fantasia platônica à la A República, de que líderes aristocraticamente “cultos e preparados” teriam o condão de transformar o país na wonderland pureza ética e sofisticação cultural e literária que eles imaginam não só possível, mas absolutamente imprescindível para que seus, eu diria, puritanos ânimos políticos, se acalmem e se satisfaçam. Esquecem, como diria o sábio Garrincha (outro pobretão mal-instruído), de “combinar com os russos”. Os russos são, no caso, é claro, milhões de cidadãos brasileiros, que, helás, parecem ter prioridades e aspirações “menos nobres” no horizonte visível.
Como são basicamente aristocratas mentais e culturais, a noção de que esse povo marrom e semi-analfabeto seja capaz de pensar e fazer escolhas legítimas, de acordo com seus interesses imediatos e/ou de prazo alongado, é desagradável demais pra ser levada a sério. Usando uma analogia da história das religiões, são como os protestantes puritanos, que, no seu suposto diálogo direto com a divindade, têm ojeriza às práticas e ritos da velha e corrupta igreja dos papas, que, por sua vez, tornada sábia pela convivência milenar com a falibilidade dos homens, tem menos propensão a deles esperar a perfeição. Brinda-os, assim, com os ritos eternamente repetidos de confissão, penitência e perdão. Que na vida, como na política, o pecado virá sempre outra vez, tão certo como a noite se segue ao dia.


2 Comentários
Os textos estão ótimos. Concordo em número, grau e paixão.
Amigo Chico, estou feliz com o seu retorno a este SP e mais ainda com o seu contagiante entusiasmo que abre um caminho de redenção para minha sólida e trágica descrença nos novos e velhos atores do poder neste Brasil, letrados ou não. Sua crença honesta me ajudará, certamente, a ver diferenças nesta parede de chumbo em que vc vê matizes e sutilezas que me escapam. Pois o poder, e aí perfilo sua lição, não é só um mar de lama, é também um mar de empregos, prestígio, privilégios, fama e boçalidade. E aí, amigo, pouco importa a origem, lá encima todos são urubus enxergando, cá em baixo, o banquete voluptuoso da carniça. Abração.