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Sobre cantigas de amor medievais e contemporâneas

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Por Ana Cecília Silveira de Medeiro
Graduanda em Letras pela UFRN (Texto enviado pelo professor e poeta Márcio Dantas)

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira

Após a formação, concreta, da nacionalidade de Portugal, a literatura, como em tantos outros países, se manifesta como poesia e o primeiro movimento cultural a ser identificado no país é o dos trovadores galego-portugueses. O movimento envolve várias camadas da população como a corte, os palácios senhoriais, os clérigos e os leigos. O trovadorismo pode ser caracterizado pela presença de jograis, segréis, menestréis, poesia lírica com as cantigas de amor e de amigo e a poesia satírica com as cantigas de escárnio e de maldizer.

Este ensaio dará destaque à poesia lírica, com a cantiga de amor medieval, assim como a contemporânea. Para uma melhor compreensão das cantigas, serão observadas e analisadas: a música de Antonio Carlos Jobim (Tom Jobim) e Vinícius de Moraes “Chega de saudade” para exemplificar as cantigas de amor contemporâneas; e a cantiga de amor de D. Dinis para exemplificar as medievais. Com essas cantigas, será possível fazer um melhor aprofundamento no assunto como o conhecimento de suas características, que podem sofrer pequenas mudanças devido às épocas que foram escritas. Por meio dessas mudanças poderão ser demonstradas e analisadas as suas diferenças.

As cantigas de amor podem ser identificadas por meio de algumas características básicas: o “eu – lírico” é masculino; tem como assunto principal o sofrimento amoroso do eu – lírico perante uma mulher idealizada e distante; o amor cortês (vassalagem amorosa); o amor impossível; ambientação aristocrática das cortes; forte influência provençal; vassalagem amorosa – o eu – lírico usa o pronome de tratamento “senhora”. Vale ressaltar que essas características foram moldadas pelos trovadores medievais e que nas cantigas contemporâneas algumas dessas características já não são expressas da mesma forma que eram na época medieval.

Para que haja, então, uma melhor compreensão dessas características será feita a análise, primeiramente, da cantiga de amor de D. Dinis, para finalmente analisar a música “Chega de Saudade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes que deixará mais explícitas as diferenças entre a cantiga de amor medieval e contemporânea. Com isso ficará mais fácil identificar as cantigas de amor tanto na contemporaneidade quanto na época dos trovadores medievais.Uma das principais características da cantiga de amor é o eu – lírico masculino, que é o seu diferencial, uma vez que a cantiga de amigo, a segunda classificação da poesia lírica, tem o eu – lírico feminino; dessa forma a sua identificação, na poesia lírica trovadoresca, acaba por identificar de imediato a cantiga correspondente.

Nas cantigas medievais “senhora” era o termo utilizado pelo eu – lírico para se referir a sua amada de modo que o seu amor era revelado, mas a sua amada não. No trecho a seguir as palavras “minha senhora” deixam evidente de que se trata de uma voz masculina destinada a sua amada. Com isso pode-se identificar também a voz lírica masculina na cantiga de D. Dinis.

“Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal”

A cantiga de amor ressalta o sofrimento amoroso desse eu – lírico masculino perante a sua amada, que é uma mulher idealizada e distante. Os trechos destacados a seguir demonstram muito bem essa característica. O eu – lírico dá a sua amada diversas qualidades sendo ela uma mulher perfeita, sem defeitos.

“mas pôs nela honra e beleza e mérito

e capacidade de falar bem, e de rir melhor”

O amor cortês é transmitido de forma que o trovador se comporta como um vassalo, confessa o seu amor para sua amada e assume que ela é superior a ele, se mostrando dessa forma como seu escravo. No próximo trecho o trovador demonstra que está fazendo “um cantar de amor”, esse cantar é feito para louvar a sua senhora, e mostrar, dessa forma, que está a sua disposição, “aos seus pés”.

“fazer agora um cantar de amor,

e quererei muito aí louvar minha senhora”

Como já foi dito antes a mulher a qual é dedicada a cantiga é distante e acaba evidenciando o amor impossível que o trovador nutre por sua senhora amada. Por fim as últimas características das cantigas de amor se resumem a ambientação aristocrática das cortes, já que, devido à época em que se encontravam os trovadores, a escrita era restrita a um pequeno grupo no qual se encontrava a aristocracia, fazendo com que os não pertencentes a esse grupo ficassem apenas com a expressão oral dos seus cantares; e a influência provençal nas próprias cantigas que é conseqüência dessa ambientação. Nesse último trecho que será apresentado da cantiga de D. Dinis fica claro de que se trata de uma cantiga “à moda provençal”, ou pelo menos de que essa era a intenção do trovador ao escrevê-la:

“Quero à moda provençal

fazer agora um cantar de amor,”

Depois dessa breve análise da cantiga de D. Dinis pode-se ver que os traços da cantiga de amor ficam bem claros a todo momento. A próxima análise será feita para que, por fim, seja possível identificar as diferenças existentes entre as cantigas contemporâneas e as medievais.

Não ocorrem mudanças no eu – lírico, já que essa é uma das principais características das cantigas de amor, sendo crucial para a sua identificação. Há apenas uma mudança na forma que ele se refere à sua amada. Ela não é mais chamada de senhora, apenas por pronomes como ela e dela, mas ainda fica clara a voz masculina que embala a cantiga. No trecho a seguir é possível notar o uso de pronomes feito pelo eu – lírico para se referir a sua amada.

“Mas se ela voltar, se ela voltar

Que coisa linda, que coisa louca”

A música analisada é considerada o marco inicial da Bossa Nova, e pode ser interpretada por homens e mulheres devido a sua grande importância na música, mas as mulheres que a cantam não fazem mudanças na sua letra.

O sofrimento amoroso do eu – lírico também não se encontra comprometido, assim como a idealização e a distância da sua amada, essas características estão representadas de forma bem explícitas pelos autores em seus versos. No primeiro trecho está exemplificado o sofrimento amoroso do eu – lírico causado pela distância da sua amada, de forma bastante exagerada, e no segundo trecho é demonstrada a idealização da mesma que fica implícita quando o trovador afirmar que “sem ela não há paz, não há beleza.”

“Vai minha tristeza,

e diz a ela que sem ela não pode ser,

diz-lhe, numa prece

Que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer.”

“Chega de saudade

a realidade, É que sem ela não há paz,

não há beleza

É só tristeza e a melancolia.”

O amor cortês mantém a sua forma, porém de uma maneira mais exagerada. O sofrimento do eu – lírico é tão grande que ele chega a afirmar que a vida não será a mesma sem a sua amada colocando-a superior a ele e sendo o seu escravo. Já na cantiga de D. Dinis esse amor cortês era visto de uma forma mais racional, o eu – lírico tinha consciência de que o seu amor era impossível e se conformava com isso, e nessa cantiga contemporânea essa conformação não ocorre.

No primeiro trecho fica evidente que o eu – lírico não se conforma com a distância de sua amada, e no segundo ele praticamente exige que ela fique ao seu lado, o que acaba dando certa impressão de que a mulher seria a submissa apenas neste momento da cantiga, demonstrando, por sua vez, uma das diferenças entre a cantiga medieval e a contemporânea. O homem é sim o seu vassalo, mas isso não impede que a sua amada também seja tratada como tal.

“Vai minha tristeza,

e diz a ela que sem ela não pode ser”

“Que é pra acabar com esse negócio de você longe de mim

Não quero mais esse negócio de você viver sem mim”

Chegada às últimas características é de se pensar que já foi possível obter uma boa bagagem sobre o assunto e, de certo, é verdade. As duas últimas características são a ambientação aristocrática das cortes e a influência provençal nas cantigas. Essas características são um tanto específicas da época medieval, já que a aristocracia fazia parte das camadas sociais e a influência provençal era mais forte na época. A influência provençal ainda pode ser usada na contemporaneidade, devido à constante mescla com as diversas culturas e épocas que ela proporciona. Mas na música analisada não foi possível a identificação de tal influência.

A distância entre as épocas em que cada cantiga foi elaborada deixa ainda mais evidente as pequenas mudanças que ocorreram nas suas características. Dentre elas é possível identificar que o trovador medieval tinha uma forma cuidadosa de demonstrar os seus sentimentos e emoções, já o trovador contemporâneo os demonstra de forma completamente explícita, sem o menor cuidado. O primeiro exaltava a sua amada a todo custo, sendo sempre submisso aos seus desejos mesmo com o grande sofrimento que tinha no coração, o segundo também é submisso, mas acaba impondo pequenas “regras” para que o seu sofrimento seja amenizado e traga a sua amada para mais perto.

Portanto, com a conclusão das análises é possível obter um melhor conhecimento acerca das cantigas de amor, mostrando as suas características e diferenças de acordo com as épocas analisadas, e ainda é possível ressaltar o grande número de semelhanças que há entre ambas. As cantigas de amor nunca deixaram de existir, independente da época em se encontram, elas estão espalhadas por todo o mundo nas mais diversas línguas e adaptações às épocas contemporâneas.

Por fim, é de extrema importância que se tenha a consciência de que o caráter trovadoresco, provavelmente, nunca deixará de existir. O trovadorismo nasceu junto com a literatura medieval, mas com a constante mescla de épocas e culturas é possível resgatar a sua poesia lírica em diversas épocas, sendo assim criada para a eternidade como muitas outras formas de se fazer literatura.

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Tácito Costa

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