Sobre mães, formigas e empreendedorismo

Destaque

No último final de semana, estivemos na 1ª Feira de Empreendedorismo Materno do RN, evento cuja proposta é valorizar a mulher como mãe e profissional, em um mostruário da produção particular que incluía roupas, comidas saudáveis e objetos decorativos.

Fotografias: Stephanie Bittencourt

Feira de Empreendedorismo Materno.3O mormaço do pós-chuva forçou meu isolamento com Ernesto em um banco diante do palco para shows da Cidade da Criança, durante parte do domingo passado (12).

Vento forte corria ali, o que amainava o calor ditatorial. Enquanto isso, um grupo de mães e companheiros se espalhava por 20 barracas armadas na área coberta do espaço público para a 1ª Feira de Empreendedorismo Materno do RN.

Eu sentado e o pequeno com nove meses de vida em gestos e grunhidos ininterruptos, até chegar uma horda de formigas, na terra úmida sob meus pés.

Ao contrário de mamíferos e outros vertebrados, cujos músculos estão fora dos ossos, os dos insetos ficam dentro do esqueleto, daí o frenesi na movimentação (por isso também eles crescem pouco). Colhi uma delas com uma folha e a aproximei.

Ernesto silenciou e arregalou os olhos para aquele ser nervoso, diminuto e amarronzado. Ali eu tive mais uma prova da extrema simpatia que os animais nos provocam e o quanto devemos preservar esse convívio.

As formigas têm muito a nos ensinar, pois elas estão no planeta a 200 milhões de anos e, juntas aos cupins e às abelhas, são pioneiras na sociabilidade, no trabalho em grupo, na vivência em comunidade.

Sobre o tema, vale a leitura de A conquista social da terra, do biólogo Edward O. Wilson. O pai da sociobiologia, ganhador de dois Pulitzers, explica a evolução das grandes sociedades humanas a partir dos insetos, sobretudo, formigas, em um livro que merece figurar em toda biblioteca.

Sem tanto tempo de contato, mas com a mesma ânsia por união e coletividade, as mães participantes da feira lembram as formigas: pacientes e trabalhadoras na quebra de barreiras e conquistas sociais. Tudo começou no sábado.

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Laíssa Torres representa marca de biocosméticos, expostos no evento que atraiu bom público à Cidade da Criança, no fim de semana, para a 1ª Feira de Empreendedorismo Materno do RN

Negócios, encontros e diversão

Mangas arregaçadas, estrutura montada, cena bonita de se ver na Cidade da Criança, com a produção das mães exposta em barracas.

Pilar Castro, uma carioca da gema, ex-funcionária de uma petrolífera multinacional, vivia no Rio de Janeiro, em meados dos 2000s. Angustiada com a rotina, maturou a ideia de vir morar no Nordeste com pesquisas sobre possíveis destinos. Foi assim que chegou à Pipa.

“Percebi que eu passava o tempo todo trabalhando para conseguir viver e que, se eu continuasse naquele ritmo, quando meu filho tivesse 12 anos ele ia fazer o que fiz com minha mãe, dizendo para ela, uma vez, que eu tinha sido criada pela empregada. Então, resolvi mudar de estilo de vida. Queria morar num lugar que eu tivesse menos custo, mais qualidade e me desse mais tempo pra ficar com ele”.

No final de 2010, veio sozinha com o então filho único (hoje ela tem dois) para o Litoral Sul potiguar. Fugiu do trabalho sufocante e das constantes reivindicações da babá carioca por aumento, diante do acúmulo de funções. Se fosse para gastar mais, seria em um lugar novo e tranquilo, pensou.

“Marquei com um caminhão, botei tudo dentro e vim embora com meu filho pra Pipa”.

Mas a oferta de escolas e demais atrativos de Natal instigou a vontade de vir morar na capital. O nascimento de um segundo filho foi crucial na mudança. “Na época, Pipa não tinha creche”.

E assim foi. Já em Natal, esbarrou com uma vizinha de prédio no elevador. Era a arquiteta Mariana Bezerra. Do encontro, surgiu a Feira de Empreendedorismo Materno do RN.

“Eu sempre quis fazer algo para esse público, para as mães. Muitas têm sentimento de culpa por passar o dia no trabalho e não ficar perto dos filhos. Aí ela sai do trabalho e também se sente mal, por não fazer nada e ficar na dependência de marido, para quem é casada”.

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Mariana Bezerra idealizou a feira com a sócia Pilar Castro após um encontro casual no elevador do condomínio em que ambas eram vizinhas. “O empreendedorismo materno é algo em crescimento. A gente percebeu isso pesquisando, lendo notícias. E não tinha chegado em Natal ainda. Já tem muita gente procurando para expor na próxima edição”

Algo brilhou no final de semana, para além do sol

A Feira de Empreendedorismo Materno reuniu expositoras de vários segmentos. Nas barracas ladeadas por uma espécie de brinquedoteca, onde gastei minha lombar com Ernesto nos dois dias, tinham joias, roupas infantis, brinquedos, itens de decoração, comida saudável e biocosméticos.

Além disso, teve palestras com especialistas em pediatria, psicopedagogia, odontopediatria e nutrição materno-infantil. E, claro, atrações culturais.

O show de encerramento do primeiro dia foi de Zé Caxangá, sujeito que dispensa apresentação nesta nota, tal é a quantidade de projetos bacanas com sua participação.

Em seu número de abertura, o contraste com o entorno, no clássico Ain’t no Sunshine, de Bill Withers. Se a letra da música viciante fala que “Não há luz do sol quando ela vai embora”, a sonoridade casou perfeita com a ambiência na Cidade da Criança, aparelho público na urgência por um projeto cultural fixo na programação semanal.

Em minha breve conversa com Zé Caxangá antes do show movido a reggae, Xuxa e samba-rock, lembramos a escassez de eventos culturais em Natal, nos anos 1980 e 1990. Citei a ‘rua do metal’ do Carnatal e ele de pronto me disse: “Era ali ao lado do Pittsburg”. Hoje o jovem ‘alternativo’ pode escolher aonde ir por bairro, tamanha é a variedade.

Ainda no começo da tarde de sábado, vi um circulo de jovens sentados no palco da Cidade da Criança. Integrantes de um fã clube, eles sabatinavam Natália Noronha e Gustavo Arruda, vocalista e guitarrista da banda Plutão Já Foi Planeta.

Agora puxe da memória fato semelhante duas décadas atrás: dezenas de pessoas em um bate papo aberto com uma banda de rock potiguar, duas horas da tarde, em pleno verão dos trópicos, em um espaço público. O que isso significa, eu não sei.  Ainda somos os mesmos, mas achei significativo do que acontece com a música feita por aqui.

Feira de Empreendedorismo Materno.6Trabalho e amor maternal no mesmo expediente

Mariana Bezerra Melo do Vale trabalhou em sua área de formação, a arquitetura, até a metade de 2016. Com um filho de meses no colo, a notícia de demissão a pegou de surpresa.

“Aí pensei em mudar de ramo, para algo no universo infantil. Comecei a enxergar outros horizontes”.

A vida em um apartamento pequeno vetou apego a objetos utilizados na gestação e nos primeiros meses do bebê. Ao lado de duas amigas em situação similar, Mariana criou um grupo no WhatsApp para vender o que tinha em bom estado.

“Apartamento pequeno, ninguém guarda mais nada hoje em dia, né? A gente começou a pensar o que fazer com as coisas. Criamos o grupo e convidamos pessoas conhecidas. Só que botamos todos eles como administradores e permitimos que cada um convidasse quem quisesse. Assim aconteceu, foi se multiplicando. Agora o grupo tá lotado”.

Foi em meio às mais de 260 mulheres do grupo do aplicativo que veio a base de contatos para a Feira de Empreendedorismo, projeto gestado após o encontro com Pilar Castro no elevador.

“O empreendedorismo materno é algo em crescimento. A gente percebeu isso pesquisando, lendo notícias. E não tinha chegado em Natal ainda. Já tem muita gente procurando para expor na próxima edição. A intenção é formar um elo entre as mulheres, pois já existe essa demanda de se ajudar só por ser mulher. E quando a gente é mãe, muitas portas se fecham mais ainda”.

Domingo à tarde, fim de feira e Ernesto cansado. Ganso, cachorro ou formiga alguma o atraia mais. Creio que para a organização e expositores o saldo foi positivo, sobretudo por ser a edição inaugural. Em maio, tem mais Feira do Empreendedorismo Materno do RN. E nós estaremos lá.

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