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Sobre desejos, fatos e equívocos

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A gente vai lendo, um texto aqui, outro ali, muitas vezes abordando questões completamente diferentes, mas em alguns pontos eles se comunicam e ganham novos sentidos na nossa cabeça.

Ou mesmo oferecem respostas para questões latentes, que esperavam apenas uma palavra ou conceito para o entendimento se fechar. Isso acontece muito comigo.

Há uns dias eu li na Folha de São Paulo uma entrevista inédita com o historiador Jacob Gorender, morto em 2013 (aqui), em que ele aborda o clima no país pouco antes do golpe de 1964.

Impressionou-me a fala dele sobre a leitura feita por grande parte da esquerda naqueles dias. Um otimismo que não condizia com a realidade. O golpe não era esperado. “Pegou todo mundo de calça curta”, diz o historiador.

Como se chega a tamanho equívoco? Que nome se dá a isso?

Lendo hoje uma entrevista (aqui) no El País, com o pesquisador norte-americano Alan Sokal, que trata de coisas que não tem nada a ver com o que trata Gorender, eu cheguei ao termo que define a situação vivida pela esquerda em 1964: “wish fullfilment”.

Diz o pesquisador: “Na mente humana há diferentes orientações que coabitam e existe o que chamamos, em inglês, de ‘wish fullfilment’, uma confusão dos fatos com nossos desejos”.

Ou seja, nossa vontade de que determinada situação tenha um desfecho conforme nós desejamos fortemente acaba nos levando a uma leitura distorcida da realidade. E essa leitura enviesada, obviamente, levará a ações equivocadas.

Isso fica muito evidente quando estamos apaixonados. Mas, claro, acontece, em outras circunstâncias.

Em síntese, quando o desejo passa a obedecer a uma falsa realidade, que só existe na nossa cabeça,  é meio caminho andado para as coisas desandarem.

As duas leituras citadas acima me remeteram também ao golpe contra Dilma. Não há como não fazer um paralelo – relativo – com o de 1964. No sentido de que em ambos, a esquerda não teve a dimensão do que estava ocorrendo. Nos dois casos, deu no que deu!

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Tácito Costa

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