Sobre gritos no silêncio

Sheyla Azevedo
AudiovisualDestaque

Filme ganhador do Oscar 2017, Moonlight tem violência, tristeza e diálogos profundos, sem perder de vista a sutileza do que podemos sentir ao encontrar ressonâncias pessoais, mesmo que não tenhamos relação direta com a história da película

As três fases de Chiron

Moonlight: Sob a luz do luar é um filme que trata da infância, de bullying, preconceito, mãe solteira e drogada (meio clichê, é vero), homossexualidade, descobertas, amor, solidariedade.

Eu poderia seguir com o desfile de substantivos e adjetivos para descrever o que é o trabalho escrito e dirigido por Barry Jenkins ganhador da estatueta de melhor filme no Oscar de 2017.

Mas não é só isso. Moonlight é um filme de silêncios, sobre ser gente, sobre sofrer em saber ou não saber o que se é. É um filme que tem a fragmentação de fases da vida de uma pessoa, feita por três atores que compõem o personagem Chiron, da infância até a vida adulta.

Divulgação do filme

Desde criança, Chiron (dir.) é chamado de ‘bicha’, mesmo sem saber o real significado da palavra

As atuações mantém coerência entre todas as fases, sobretudo no olhar e nas poucas palavras.

Logo nos primeiros takes, em que o personagem central, o menino Chiron (apelidado de ‘Little’ por ser franzino e tímido) é acossado por garotos maiores e se tranca em um apartamento vazio.

Cena de partir o coração, com ele sem dizer uma única palavra para nossa compreensão sobre o ocorrido.

Mas sabemos o que é, porque todo mundo já se sentiu angustiado, acuado, encrencado na vida.

Intensidade sem pieguice

Ambientado em uma Miami mergulhada no mundo das drogas, nos anos 1980, Moonlight tem atuações primorosas, como a do ganhador do Oscar de ator coadjuvante, Mahershala Ali. Ele faz Juan, cubano que chegou aos EUA ainda criança e virou chefe do tráfico.

Um personagem que faz a vez de figura paterna para um menino calado, em visível sofrimento em silêncio, mais falante com os olhos angulosos e tristes do que com a boca.

É um filme com e sobre homens. O universo feminino apenas orbita por entre a trama densa e carregada de questionamentos sobre sexualidade, sem panfletagem.

Moonlight.2

Cenário é bairro pobre e violento da Miami dos anos 1980, dominado pelo tráfico de drogas; introspecção e bullying levam Chiron (Ashton Sanders) a virar ‘Black’, chefão do local

É sim um recorte social sobre aqueles que vivem à margem, seja porque nasceu na periferia, porque o marido abandonou cedo com um filho pequeno, porque se é homossexual ou porque a escolha de viver no mundo do crime é, invariavelmente, uma escolha nefasta.

O filme é intenso em alguns momentos, sem ser piegas, sem explicar demais. A câmera muitas vezes parece nervosa, sob um olhar que tateia a atmosfera dos ambientes e das pessoas, como se fosse o olhar de alguém a observar a cena.

Moonlight tem violência, tristeza e diálogos profundos. Sem carregar nas tintas, sem perder de vista a sutileza do que podemos sentir ao assistir um filme e tirar conclusões pessoais, rebuscar sentimentos, encontrar ressonâncias em nossas próprias vidas, mesmo que ela não tenha relação direta com a película.

Porque apesar de estarmos diante da grande tela e de grandes atuações, o fio condutor de Moonlight é o silêncio que nos permite respirar, suspirar e sentir a vida.

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Sheyla Azevedo

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