Sobre o filme de Lula

9 de janeiro de 2010 às 22:41 - Comentar
Por Rodrigo Levino

O tanto que se escreveu sobre ‘Lula, o Filho do Brasil’, de Fabio Barreto, muito antes da estréia do filme (inclusive por quem não o viu), renderia um roteiro. Desta feita, de algum filme que tratasse de briga de torcidas organizadas. Que no final das contas é no que parece ter se transformado a discussão política no país.

O clima de disputa e guerra de adjetivos foi bem resumido pelo jornalista Elio Gaspari, em artigo na Folha de S. Paulo, confabulando que ‘as platéias chorarão de emoção e a oposição, de raiva’.

Botando só um pé no meandro político do filme: Ele pode ser usado como instrumento de campanha eleitoral? Pode. Há pano para essa manga. Se surtirá efeito a contento, em prol da candidatura da ministra Dilma Roussef, são outros quinhentos. É esperar ser lançado, ou até lá, embarcar no falho exercício de futurologia das vuvuzelas políticas.

Do ponto de vista estético, ‘Lula, o Filho do Brasil’ não é um mau filme. Assim como passa longe de ser uma grande produção, a não ser pelo orçamento bancado por patrocínio privado. E explico. É um filme mediano, nada além nem aquém do que normalmente se produz no cinema nacional.

É até assustador que Fábio Barreto, que pôs no mundo coisas horrendas como ‘A Paixão de Jacobina’ e ‘Bela Donna’, tenha conseguido parir o referido filme. Tendo como referência a filmografia do diretor, ‘Lula’ é quase um ‘Cidadão Kane’.

Ressalva-se o óbvio inatacável da história do personagem biografado. É fato que Lula tem uma história de vida espetacular. De um pau-de-arara à presidência da República, passando pela liderança sindical onde arregimentou, em algumas greves no início dos anos 80, mais de cem mil trabalhadores na região do ABC Paulista, resta um vulto histórico sem nenhum precedente na história do Brasil, quiçá do mundo.

Em linhas gerais, é um filme melodramático, sustentado na forte presença de Dona Lindu, mãe do protagonista, interpretada com segurança por Glória Pires, uma trilha sonora chorosa que beira o irritante dado o uso sem comedimento, e guiado por um roteiro atabalhoado principalmente na primeira metade. Rui Ricardo Dias, na pele de Lula, é quase ele, de tanto que absorveu o gestual e a voz. Noutra ponta, Milhem Cortaz como Seu Aristides, pai do atual presidente, compõe um belo antagonista, bêbado e emocionalmente descontrolado, que vitimou a família com violência doméstica a ponto de ser surpreendente que os filhos e a mulher tenham se sustentado em dignidade.

Irônico o fato de um dos melhores personagens do filme ser justo um pelego de marca maior, inspirado no sindicalista Paulo Vidal, que antecedeu Lula na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

Em resumo, o balanço geral rende uma média com galhardia, um pouco menor que a alcançada por ‘Dois Filhos de Francisco’, cinebiografia do mesmo gênero e intenção redentora.

Quer dizer, coisa típica do cinema brasileiro, com raras exceções. Para quem viu ‘Salve Geral’, um fragoroso fracasso, de público e produção, ser indicado para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2010, ‘Lula’ chega a valer uma estatueta. Não de ouro, não cabe tanto. Mas dá para o gasto uma banhada em bronze ou cobre.

Contra tudo, todos e qualquer opinião – inclusive a deste sobrescrito – vá ao cinema e tire suas conclusões. Do filme, claro. Voto é outra coisa. Publicado no Novo Jornal.

Comentários fechados.

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura