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Sobre o herói licaniense

Ficção científica

Um comentário sobre “Cambono”, novo livro de Clauder Arcanjo.

Ao iniciarmos a leitura de “Cambono” (Sarau das Letras, 2016), obra ficcional de Clauder Arcanjo, deparamo-nos com um escritor em conflito consigo mesmo, com suas personagens e com seus leitores. O que pode nascer de tal conflito? Em um dos aforismos atribuídos a Heráclito de Éfeso, consta: “O conflito é o pai de todas as coisas.”. O que escreve então Clauder Arcanjo?

Bem, o seu propósito é construir um romance. O que ele constrói afinal? Para Aécio Cândido de Souza, escritor, prefaciador da obra: “A intenção de Clauder no “Cambono” é sublime e ambiciosa. Trata-se de construir um romance (ou novela, pouco importa a classificação) em que, além dos dilemas inerentes à construção da trama, o autor conceda aos personagens, aqueles do enredo e alguns pensados para apreciar o enredo, o direito de desafiá-lo e de rebelar-se contra os rumos da ação.” (pág. 19).

Então o que surge dos conflitos, desafios e rebeliões do mundo criado pelo escritor é uma obra que pode ser considerada um romance, mas tem em si, um sabor, ou diríamos melhor, características de novela, dado que seus sucessivos personagens rompem os limites do enredo e adentram, e mesmo interferem nos rumos, nos diálogos e narrativas que autor vai construindo consigo mesmo e até com os seus leitores que acompanharam, pelo jornal, capítulo a capítulo, o desenrolar das tramas, dos dramas, das lutas e dos sonhos da personagem principal, “Cambono”, e dos licanienses, habitantes da cidade (ou país) de Licânia, o lugar imaginário criado pelo escritor.

Katsuhiro Otomo

Ilustração: Katsuhiro Otomo

O Império dos Calvinos

Desde o nascimento do herói licaniense, com sua origem nobre, pois é um descendente do Visconde de Quintanilha, – título ao qual fez jus pelos serviços prestados como Cavaleiro-mor da Alcova da Rainha, – já trazia Adamastor Serbiatus Calvino a esperança de um predestinado para: “… realizar tudo aquilo que a Dinastia dos Calvinos, oriundos da longínqua Transcalvânia, esperara e não obtivera, até então, de todos os seus varões: graduar-se em Direito, constituir um império em terras alencarinas, edificar um grandioso monumento aos “valorosos Calvinos”, e remediar financeiramente todos os descendentes do Visconde de Quintanilha.” (pág.26), ainda que passando por inúmeras aventuras e desventuras como, por exemplo, numa noite monótona sair para ouvir na Praça de Licânia o poeta Bernarenard Péricles ou acompanhar a acirrada campanha eleitoral na cidade e a conturbada chegada do PVAL.

As personagens e suas histórias vão povoando Licânia. De Zé Funéreo a Acácio, de Angelina Perigosa a Maria Abógada, sempre acompanhadas pelo olhar taciturno e sensato de Cambono que parece manter vivas as esperanças de seus ascendentes: ser o herói dos Calvinos e do povo licaniense.

Assim entre histórias e sonhos, as personagens, o autor e os leitores vão travando e trocando entre si farpas e abraços, ao tempo em que a saga final de Cambono vai se desenhando a partir de um desfecho aparentemente inesperado para o próprio autor, uma vez que este, admite a certa altura da sua história que: “”Naquele momento concluí: “O meu personagem ganhou vida própria. Serei digno de suas aventuras e desventuras?”.” (pág. 311).

Clauder Arcanjo

O engenheiro Clauder Arcanjo nasceu em Santana do Acaraú, no Ceará, mas mora em Mossoró desde 1986; ele tem seis livros publicados, entre contos, de poemas e um romance.

Entre cachaças e cabarés

O fato então está na esperança de um povo em encontrar um líder que coloque acima de seus interesses, o interesse do povo sofrido: Vê-se nesse líder não apenas um revolucionário, um político a mudar ou tentar mudar as estruturas sociais, mais, sobretudo, um salvador da pátria, alguém que em nome da paz, saiba o momento de falar e de calar, sem querer ser ídolo, mas apenas amigo do povo.

Clauder Arcanjo nos deu “Licânia”, “Cambono” e um povo que luta, vive e sonha construindo e desconstruindo suas histórias; um nobre que se faz servo e cidadão comum, para que com toda cidade unida possa enfrentar o temível inimigo da esperança que chega como uma intervenção a destruir a paz. E num desembaraço digno de um romance, todos juntos desmoralizam, ainda que na presença de poucos cidadãos licanienses, mas felizmente de todos os leitores, o terrível condutor das desgraças que poderia abater a cidade de Licânia.

Se há alguma linha de realidade nas páginas de “Cambono” fica a critério do leitor, como definiu admiravelmente no texto “o que é ser poeta?”, o crítico literário Hildeberto Barbosa Filho.

Entre cachaças e cabarés, eleições e escândalos, chegadas e partidas, uma viagem a Licânia, conduzidos pelas mãos de “Cambono” é uma leitura envolvente e surpreendente.

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