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Sobre os terremotos do Japão, Lisboa e João Câmara

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No dia 30 de Novembro de 1986, uma madrugada, Natal acordava assustada com um terremoto acontecido próximo à cidade de João Câmara (antiga Baixa Verde) na depois mapeada falha de Samambaia. Essa falha geológica foi descoberta pelo nosso grupo de Sismologia da UFRN junto com o professor Marcelo ASSUNÇÃO da USP ( meu orientador de mestrado) . Logo que sentimos o terremoto saímos em direção á cidade de João Câmara onde já haviam sido detectados outros sismos anteriormente.

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A notícia dos tremores de Baixa Verde é secular e os moradores antigos tinham noticia desses eventos que assustava muita gente. Muitos deixaram suas terras com medo de coisas piores. Havia muitas crendices sobre a causa dos terremotos de João Câmara. Alguns diziam que era um rio caudaloso que passava por baixo. Outros tinham medo que a terra abrisse. O tipo de falha transcorrente descoberta por nosso grupo não é de abrir a terra. Essa atividade durou algum tempo e o segundo maior sismo (magnitude 4.9) aconteceu em 1989. Só nessa atividade recente foram registrados mais de cinquenta mil sismos. As menores magnitudes não são sentidas, mas são registradas pelo sismógrafo. A nossa atividade em João Camata não se restringia só ao estudo científico dos terremotos. Semanalmente elaborávamos boletins e divulgávamos junto a imprensa e população local. Fizemos apostila de divulgação dos terremotos para divulgação nas escolas e fornecíamos muitas entrevistas na imprensa falada e escrita. Muitas palestras também foram proferidas junto aos moradores que ficavam mais calmos quando era revelada as causas naturais dos terremotos. Uma dessas palestras lembro muito bem foi dada num circo armado na cidade. Os resultados dessas pesquisas foram divulgados em congressos científicos no Brasil e exterior e alguns artigos foram publicados em revistas nacionais e estrangeiras. João Câmara era noticia em todo Brasil e foram vários os cientistas do mundo inteiro que frequentaram a região.

Na ocasião a cidade de João Câmara oferecia pouca acomodação em hotéis. Muitas vezes dormimos no chão num hospital em construção ou na casa do prefeito José Ribamar (que na data de hoje, 30/11/2011, nos concede o título de cidadão camarense). Muitos moradores dormiam em barracas de plástico azul improvisadas pela defesa cívil. O grupo pioneiro de sismólogos da UFRN junto com outros colegas das universidades de São Paulo e UNB realizaram um trabalho de grande importância científica e humanitária. Nesses 25 anos é com grande alegria que lembramos esse trabalho e ficamos felizes de ver reconhecido nosso esforço.
O Ano de 1986, eu e a Cidade João Câmara ( antiga Baixa verde)

Eu fui o primeiro sismólogo do RN e o primeiro da UFRN ao defender a tese de mestrado. Quando aconteceu o terremoto de João Câmara eu estava chegando da Itália (Trieste) onde fui fazer um curso sobre sismologia com os maiores cientistas da área. Em novembro de 1986 eu já havia defendido a tese de mestrado e pude aplicar todos os conhecimentos em João Câmara.

Em 1986 meu pai, Melquíades Francisco da Costa, faleceu e lembro deste ano com um misto de realização e muita saudade. Antes, fazíamos todos os sábados à famosa feira de Baixa Verde, onde meu pai era comerciante ambulante e vendíamos confecção, redes, colchas, miudezas, etc. Para chegar na cidade levava umas quatro ou cinco horas. De Ceará Mirim ate João Câmara a estrada era de barro. A cidade de João Câmara mora na minha saudade e faz parte da minha geografia sentimental. Foi com muita alegria que hoje recebi das mãos do meu querido amigo e vereador José Ribamar Leite, ex-prefeito de João Câmara, o título de cidadão camarense. Esse título é dedicado ao meu querido pai que nesse Dezembro 10 faria 86 anos.

A Filosofia e Crendices sobre os Terremotos

Na história dos terremotos existem muitas crendices sobre suas causas. Só com a teoria da tectônica de placas no século XX, e com os avanços nas geociências essas causas foram cientificamente reveladas.

Fiz mestrado na USP em Geofísica / Sismologia e trabalhei 20 anos nessa área. Ouvi muitas histórias mirabolantes sobre as causas do terremoto que assolou essa região durante tanto tempo. O maior terremoto registrado nessa região nessa atividade mais recente foi de 5.1. A causa foi detectada por nosso grupo e trata-se de uma falha geológica.

Escrevi uma apostilha sobre o assunto e nosso grupo deu muitas entrevistas e palestras sobre as causas dos terremotos. Falamos até mesmo num circo armado em João Câmara sobre as “causa naturais” dos terremotos.

Para algumas pessoas da região atingida, a causa era atribuída a um serrote localizado na cidade de João Câmara, chamado Torreão. Para outros, a causa era rio caudaloso que passava em baixo da cidade. As pessoas tinham muito medo que o chão afundasse. Para outros, a causa era mais prosaica Era devido a estátua de J, Câmara que tinham colocado numa praça no centro da cidade, antiga Baixa Verde.

Sobre o Terremoto de Lisboa de 1755

O terremoto que atingiu principalmente a península ibérica e devastou Portugal, matou sessenta mil residentes por conta do incêndio e das ondas gigantes que alcançaram 30 – 40 metros acima do nível do mar. As pessoas nas igrejas observaram os candelabros oscilarem e atribuíram esse efeito a sinais divinos. O terremoto ocorreu no dia de Todo-os-Santos ( 01 de Novembro de 1755 ) por volta das 9h20 da manhã.

Estudos modernos determinaram a causa desse terremoto como tendo origem a vários quilômetros a sudoeste de Portugal numa estrutura geológica chamada “ East Atlantic Rise “

As perdas matérias e culturais devido a esse terremoto foram inimagináveis. Muitos livros e objetos de artes foram queimados e perdidos para sempre. Alguns grandes escritores se pronunciaram sobre o assunto. Voltaire, em sua novela Candido, escreve na voz do seu protagonista ironizando aqueles filósofos que diz ser esse o melhor dos mundos:

“ if this is the best of all possible worlds, whatever must the others like”

(se este é o melhor dos mundos, não há nenhuma dúvida de que deve existir outros semelhantes) em tradução livre minha.

E Voltaire ainda acrescenta “Que crimes cometeram estas crianças, esmagadas e ensangüentadas no colo de suas mães?”

Ou seja, Voltaire estava questionando esse mundo de perfeição criado á imagem do seu criador.
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Essa frase é muito diferente da escrita no artigo “Deus é Verde” do JOÃO PEREIRA COUTINHO, FSP 15/03/11, citando Susan Neiman e seu livro sobre a Filosofia do Mal (Artigo transcrito no blog substantivoplural )
“… o terremoto de Lisboa não se limitou a ser pasto para o racionalismo dos “philosophes”. O terremoto, em suma, não mostrava apenas ao mundo a crueldade de Deus ou até, no limite, a sua inexistência”

A leitura do filosofo Jean Jacques-Rousseau é diferente da de Voltaire. Ele encontrou nesse trágico acidente um álibi para a sua filosofia de uma volta á natureza e ao campo, livre dos terremotos. A culpa é dos homens que vivem errados em grandes aglomerações.

Lembrando o terremoto do Japão, uma ilha super-habitada situada na borda de uma placa tectônica.

Alguns dados e informações adicionais sobre terremotos:

1- A palavra sismo, abalo sísmico e terremoto são sinônimos.

2- A magnitude de um terremoto não é a mesma coisa que intensidade.

3- A magnitude de um terremoto mede a energia liberada pelo terremoto e a escala não vai de 0 a 10 como diz alguns jornalistas. A escala é logarítmica e a magnitude pode ser inclusive negativa.
4- Os maiores terremotos tiveram magnitudes em torno de 9.0. O terremoto de 8.9 que abalou o Japão e provocou forte Tsunami no dia 11 de março é um dos maiores da história

5- A principal escala de intensidade (não é magnitude) é a Mercalli – Modificada que vai de I a XII. A intensidade leva em conta os efeitos do terremoto.

6- Um mesmo terremoto pode ter feitos diferentes dependendo da região e construções.

O Japão é uma região situada numa região de borda de placa – tectônica e a região e potencialmente sísmica. As construções são edificadas levando em conta o alto risco sísmico da região. Um terremoto dessa magnitude em uma outra região seria muito mais devastador. O Haiti, por exemplo, é uma região pobre e as casa não foram construídas com os padrões técnicos de uma região sísmica e pode isso o efeito devastador de um terremoto de magnitude 7.0. Esse mesmo terremoto no Japão causaria menores transtornos.
7- Os maiores terremotos do mundo acontecem nas bordas das placas tectônicas. Caso dos Andes, América Central, Japão e costa oeste americana que formam o cinturão de fogo. A teoria da tectônica de placas é uma das maiores teorias científicas do século XX e revolucionou as geociências.
8- Os terremotos de J. Câmara foram ocasionados por uma falha geológica descoberta pelo grupo de Geofísica da UFRN, no qual trabalhei durante uns 20 anos.
9- O hipocentro é o ponto onde ocorre o terremoto que podo está situado até 700 km de profundidade. Já o epicentro é a projeção desse ponto na superfície da Terra. O raio da Terra é da ordem de 6370 Km, no equador.
10- Os terremotos de J. Câmara são superficiais e o tipo de falha transcorrente, e esforços não abrirão o chão.
11- Após os grandes terremotos acontecem as replicas de intensidades menores
12- Sabemos as regiões potencialmente sísmicas do mundo e onde há mais probabilidade de ocorrer o terremoto, mas não conseguimos ainda prever o terremoto.
Esse é o caso do Japão, situado numa região de borda de placa. O Tsunami que surgiu como conseqüência do terremoto pode atingir as ilhas do pacifico e outras regiões costeiras.
Veja aqui o terrível Tsunami que abalou o Japão em 11 de março de 2011:

http://www.flixya.com/video/4124530/TSUNAMI-JAPAN-2011

 

João da Mata Costa – Sismólogo

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João da Mata

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