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Sobre quarentenas e aquarelas

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Ou Uma tarde/noite vestida de cor

Quarenta dias e um oceano no meio. Tanto de tempo e tanto de espaço a separar esse amor-ímã que demorou uma década até a explosão… E agora… Quarenta! Hão de ser fortes os corações do Catingueira e da Brucha para converter “uatizape” e “messengem” em bálsamo para a saudade doida e doída que virá? O que reserva o crepuscular trigésimo dia e a trigésima noite a essa “dupla de dois” que, de positivo em positivo, de negativo em negativo, se empenha no corte, recorte, montagem, desmontagem e remontagem dessa película afetiva? Pois bem! E foi assim que o pincel bordou:

Brucha:

Seu rosto
hoje
é tatuagem
e espelho.
Tatuagem
na carne que me veste;
espelho
no limite interno
do olhar
que aprendeu o gosto
de amar.

Catingueira:

Seu verbo salta ligeiro
Que nem maracajá.
É tatuagem no espelho
E no escuro refletirá.
Se transforma em repentista
Grande alma, grande artista,
Borda versos pra trovar.
E veio! Não restavam questionamentos! O equinócio das horas chegou em tempo real! Apesar das cinco horas de fuso horário, não houve impedimentos que saciassem o voraz desejo do encontro sobre o mar tenebroso (Oceano Atlântico) e tudo se converteu em palavras, imagens e voz, que, no enfrentamento da contagem longamente regressiva, afirmava, gesto a gesto, a permanência do que se inaugura eterno.

Ele, generoso como sempre, aderiu ao fuso horário dela e passou a dar bom dia às duas da manhã e às quatro ouvir as novidades da sua Brucha. Ela, dengosa como sempre, enviando rumas de carinho, apaixonada pela promessa de barba que em barbudo se fez.

E da quarentena nasceu uma aquarela! Cinco horas de um repente engraçado! Cinco horas de uma peleja matizada pelo sonoro ponteio afiado e afinado no diapasão coronário. Ela postando montagens fotográficas de um lado, ele, de outro, respondendo com poemas. Amor convertido em improviso. Gestos côncavos e convexos inserindo mais uma experiência única nessa história lúdica e lúcida.

E a aquarela foi ganhando cores e quando à Brucha parecia que para o Catingueira difícil seria fazer saltarem mais palavras, ela perguntava: “Posso mandar outra?” E a resposta: “Arrocha!”. E nessa fábula de traços verídicos que se desenhava, o espantoso foi encontrar cores para alimentar o fulgor criativo da Brucha e do Catingueira. Era improvável que naquele momento de incisão, cirurgiões como Picasso, Monet, Matisse… viessem estancar o minadouro que confluía esse rio ao célebre Rio São Francisco. Inimaginável!

Quatorze variações. Cores tingindo esse amor cheio de amores. E o tempo da quarentena perdeu-se no infinito que só as horas bonitas têm! Entre publicáveis e não publicáveis, dada a criatura desse ser Moreno de muitas sedes, os poemas do Catingueira pintaram para a Brucha um quadro de palavras mágicas enfeitado por versos como:

Cor da ferrugem e do ouro
Do jerimum e do sol.
Mistura de mito e de touro
Toque de Midas no arrebol.
Sumo de laranja-lima
Vou casar com essa menina
Uma mulher vestida de Sol.

Maria Eugênia2

Ilustração Maria Eugênia/Caderno de Desenhos

Por outro lado, a Brucha caprichava nos fotopoemas nos quais a imagem congelava a magia plantada em vias de semeadura. Ao mesmo instante, a danada imprimia movimentos para um novo semear. Para muitos a colheita pode tardar ou até mesmo não ser possível! Não adianta preparar o solo, ter boa semente, abundância líquida-mineral, matriz animal… não adianta! Senão tiver o toque da retina, a planta não fala com a gente.

E assim se deu a peleja. Entre imagens e versos, entre ponteiros e saudade, essa quarentena logo será história. Mas a memória que deixa faz a saudade ter valido a pena.

*Esse texto foi escrito a quatro mãos, em coautoria com Christina Bielinsk Ramalho.

*A grafia Brucha é escrita propositadamente.

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Italo de Melo Ramalho

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